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    opinião: Gastar mais e baixar juros agora não faz o menor sentido

    CARLOS EDUARDO S. GONÇALVES
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    06/09/2015 02h00

    As economias de mercado passam por altos e baixos, ciclos de expansão e ciclos de contração do PIB por habitante. Com efeito, a tal tese da Grande Moderação morreu ali na virada de 2008 para 2009. O que explica esses ciclos?

    Teorias das mais diversas matizes têm sido propostas. Em algumas a ênfase recai sobre as oscilações na eficiência com que os fatores produtivos são combinados, em outras são os deslizes das políticas monetárias e/ou fiscal, ou choques de termos de troca vindos do exterior, ou exuberâncias de irracionalidade –otimismos desenfreados seguidos de estouros de bolhas e pessimismo persistente.

    A maioria tem uma lógica interna consistente e, justamente por isso, é preciso olhar os dados e o entorno institucional para escolher a que faz mais sentido em cada caso.

    Apegar-se ferrenhamente a uma teoria, ainda que tudo a seu redor sinalize que ela não condiz com os dados, é absolutamente infantil –ainda que incrivelmente comum.

    Nós, economistas, podemos e devemos fazer melhor.

    Nos últimos quatro anos, os da dita Nova Matriz, a economia brasileira desacelerou, a produtividade estagnou, os núcleos de inflação subiram e ficaram resilientes, o investimento despencou (e assim segue), o deficit em transações correntes se avolumou (agora começa a cair), a confiança dos empresários atingiu nível só antes visto em 2009, a indústria encolheu, a desigualdade de renda parou de cair.
    macroeconomia 101

    Os artífices e seguidores da Nova Matriz parecem pensar que todos os problemas no mundo advém da falta de demanda. E em alguns casos, é mesmo a demanda a trava –e então a inflação cai a níveis baixos, às vezes negativos, e os deficit externos encolhem.

    A Europa de hoje é um bom exemplo: o setor privado atolado em dívidas não consome e não investe e a inflação rasteja. Nesse caso, expansão fiscal e juro zero fazem sentido.

    Já aqui no Brasil, a inflação se acelerou e o deficit externo também, continuadamente, desde 2012. No curso de macroeconomia para iniciantes, os alunos já sabem que isso significa que o problema não pode ser falta de demanda.

    Mais ainda, o governo praticou políticas monetária, fiscal e creditícia fortemente expansionistas nesse período –afinal essa era a essência da Nova Matriz. Mas não funcionou, simplesmente porque nem sempre o problema é falta de "demanda efetiva".

    Culpa do cenário externo pode ser? Nos últimos meses, sim. Nos últimos anos, não. Se a crise foi internacional, por que só nosso desempenho foi medíocre? Ademais, nossos termos de troca no governo Dilma 1 se mantiveram mais altos que a média do período Lula. E os juros externos lá no chão! E o Brasil, estranhamente, também...

    Olhando para o longo prazo, me preocupa menos a miséria dos últimos anos e mais o fato de que muita gente parece não ter percebido que existe uma coisa importante em economia chamada "lado da oferta". Sim, nós podemos fazer melhor.

    CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES, 42, é professor titular (licenciado) da USP, colaborador do projeto "Porque?" (www.porque.com.br) e economista sênior do FMI (Fundo Monetário Internacional)

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