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    Estudo indica que atraso econômico do Brasil aumenta risco de protestos

    ÉRICA FRAGA
    DE SÃO PAULO

    21/03/2016 02h00

    O atraso econômico do Brasil em relação a nações desenvolvidas, como os Estados Unidos, aumenta a probabilidade de haver tensões sociais -como os recentes protestos contra e a favor do governo Dilma Rousseff- no país.

    "Acho que o Brasil é um bom exemplo de como a incapacidade de emergir do atraso econômico devido à incompetência política pode ameaçar a paz e a estabilidade", disse à Folha a pesquisadora Christa Brunnschweiler, da Universidade de East Anglia (Reino Unido).

    Brunnschweiler e a acadêmica Päivi Lujala, da Universidade de Tecnologia da Noruega, são autoras de estudo inédito sobre como o atraso econômico relativo aumenta a probabilidade de manifestações violentas e pacíficas ("Economic Backwardness and Social Tension").

    Segundo as pesquisadoras, isso ocorre porque os cidadãos de um país comparam seu padrão de vida com o de outras nações.

    O trabalho -que será apresentado nesta segunda-feira (21) durante a conferência anual da Royal Economic Society, no Reino Unido- usa a renda per capita dos países em relação à norte-americana como medida do atraso relativo de determinada nação.

    Essa comparação é muito usada na literatura econômica como indicador do nível de desenvolvimento das diferentes nações.

    A pesquisa analisa ainda bancos de dados que registram protestos pacíficos e violentos. No total, informações e estatísticas de 163 países foram examinadas, para o período de 1946 a 2011.

    O cruzamento de dados feito pelas acadêmicas mostra que, quanto maior o atraso econômico de um país em relação aos EUA, maior a probabilidade da emergência de demonstrações de massa por mudanças de regime e até de conflitos civis armados.

    Os resultados revelam ainda que o impacto do atraso econômico sobre o risco de erupção de protestos violentos e pacíficos tem aumentado nas últimas décadas.

    Segundo as autoras, isso é coerente com a descoberta de outros estudos que mostram que, com a globalização, a percepção que os cidadãos de um país têm do padrão de vida em outras nações cresceu.

    As pesquisadoras ressaltam que isso não significa que o atraso econômico seja o principal gatilho de protestos e tensão social, mas que é um elemento importante.

    ATRASO BRASILEIRO

    Segundo Brunnschweiler, durante todo o período analisado o atraso econômico do Brasil foi maior do que o da média da América do Sul. Isso significa que o risco de tensão social no país supera o da média da região.

    Num cenário hipotético, em que a renda per capita brasileira fosse igual à americana no período estudado pelas pesquisadoras, o risco de movimentos de massa não violentos no país diminuiria seis pontos percentuais.

    Brunnschweiler explica que se trata de um efeito significativo, já que protestos não violentos são eventos raros.

    "A chance média de um país ter um movimento de massa não violento no período era de apenas 1,2%", afirma a pesquisadora.

    CONVERGÊNCIA

    No fim da década de 1970, o Brasil parecia caminhar para uma convergência com o padrão de vida de países desenvolvidos. A renda per capita brasileira, medida em PPC (paridade do poder de compra), atingiu 38% da norte-americana em 1980.

    Mas esse percentual não se sustentou nas décadas seguintes. Em 2015, a relação era de 28%, segundo o Fundo Monetário Internacional, que calcula que o padrão de vida do brasileiro ficará estacionado nesse patamar, pelo menos, até 2020.

    A Coreia, exemplo muito citado de país que tem se desenvolvido, viu sua renda per capita (em PPC) saltar de apenas 17% da americana em 1980 para 67% em 2015.

    Segundo Brunnschweiler, a corrupção acentua o efeito do atraso econômico sobre as tensões sociais pois é um obstáculo ao desenvolvimento:

    "As pessoas estão cientes de seu atraso, mas são incapazes de alcançar [um padrão de vida de país avançado] porque a corrupção bloqueia o acesso delas a recursos. Então a frustração aumenta", afirma Brunnschweiler.

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