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    Autora investiga quebra do Lehman Brothers em 2008

    JOHN PLENDER
    DO "FINANCIAL TIMES"

    02/04/2016 02h00

    Stan Honda/AFP
    operadores durante pregão na Bolsa de Valores de Nova York, EUA; quebra do Lehman Brothers despertou pânico nos mercados mundiais
    operadores durante pregão na Bolsa de Valores de Nova York, EUA; quebra do Lehman Brothers despertou pânico nos mercados mundiais

    O colapso do banco de investimento Lehman Brothers em 2008 não foi a causa da grande crise financeira, mas serviu como abertura espetacular das cortinas em um dos mais caóticos episódios na história dos mercados financeiros.

    Passados quase oito anos, Oonagh McDonald, especialista em regulamentação financeira e antiga integrante do Parlamento britânico, relata a história do ponto de vista regulatório, analisando as múltiplas falhas na colcha de retalhos de regulamentos que supostamente governavam a maneira pela qual os cinco grandes bancos de investimento dos Estados Unidos eram fiscalizados.

    Acima de tudo ela examina a maneira pela qual, em um fim de semana, a avaliação do Lehman Brothers no mercado de ações caiu de US$ 639 bilhões para zero.

    Não foi preciso muita coisa para fazer com que o Lehman Brothers desaparecesse em fumaça. No final de seu último ano fiscal de operação, a alavancagem do banco era tão alta que o valor de suas ações teve de cair em apenas 3,6% para que o banco fosse destruído.

    A história de como sua equipe de gestão chegou a esse ponto, sob a liderança de Dick Fuld, é muito ilustrativa.
    A resposta daqueles magos de Wall Street à compressão de crédito que começou na metade de 2007 foi pura arrogância. Tendo sobrevivido a episódios de grande tumulto no mercado, nos quais a expectativa era de que muitos bancos falissem, Fuld e seus colegas decidiram assumir riscos ainda maiores.
    Enquanto isso, deixaram de informar o conselho de que estavam excedendo os limites de risco que eles mesmos haviam imposto, e de que estavam excluindo os ativos mais ousados dos testes de desgaste internos. O conselho, formado por pessoas conspícuas pelo desconhecimento de questões de risco e dos detalhes do mercado financeiro, endossou essa nova política entusiasticamente. A vice-presidente de risco que questionou esse salto para o crescimento foi destituída.

    Muita gente já tratou da dinâmica da crise em termos da natureza tóxica dos complexos instrumentos derivativos e produtos estruturados, a exemplo de obrigações de divida caucionadas, credit default swaps e o mais. Um dos pontos fortes do livro de McDonald é que ela reconhece que a crise na verdade tinha por base o mercado de imóveis. O motivo para que os instrumentos derivativos tenham infligido prejuízos aos seus detentores era que derivavam seu valor de hipotecas residenciais, imóveis comerciais e outros ativos financeiros. Os valores desses ativos entraram em colapso a partir de 2006.

    Boa parte do declínio no valor dos ativos do Lehman veio de exposição direta ao mercado imobiliário. O banco investiu pesadamente em ações do setor imobiliário e empréstimos à SunCal, uma incorporadora de imóveis californiana, e ao Archstone-Smith, um fundo de investimento em imóveis que controlava edifícios de apartamentos de luxo espalhados pelos Estados Unidos.

    Porque o Lehman Brothers trouxe outros bancos para essas transações, informações sobre a deterioração na qualidade de seus ativos se espalharam rapidamente. Uma suspeita mútua e generalizada quanto aos valores dos ativos de outros bancos se tornou um dos marcos da crise.

    No caso de todos aqueles complexos produtos estruturados, a falta de confiança foi agravada porque se tornou impossível formar preços para eles quando o mercado secou. Ninguém confiava nos modelos adotados pelos bancos para definir seus valores.

    O livro é em parte um manual sobre esses produtos estruturados e sobre a maneira pela qual eles são avaliados. Também oferece discussões detalhadas das diferentes metodologias usadas para avaliar imóveis.

    Mas a conclusão é um estudo mais amplo e provocativo do conceito de valor de mercado, na qual McDonald contesta a hipótese do mercado eficiente que embasava boa parte do pensamento nos ministérios de finanças, bancos centrais e agências regulatórias, antes da crise.

    A tese incorpora o conceito de que a concorrência entre participantes do mercado garantirá que os preços reflitam toda a informação publicamente disponível. Isso leva à conclusão de que bolhas não existem, algo que, à luz da crise, muita gente considera absurdo.

    Um risco em um livro como esse é o de severidade excessiva causada por observar a situação em retrospecto. Mas as tijoladas de McDonald contra o comportamento das autoridades regulatórias antes da crise são amplamente justificadas.

    Mais questionável é sua crítica à administração da crise pelo Tesouro norte-americano e pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). Ela acredita que um resgate ao Lehman Brothers era possível e deveria ter sido empreendido, a bem da estabilidade do sistema, mas não trata da questão de como teria sido possível aprovar o programa de socorro aos ativos em risco, em um Congresso hostil, sem o choque extremo do colapso do Lehman Brothers.

    No entanto, essa é uma simples objeção hipotética, e não diminui os muitos méritos de um livro que trata de questões importantes sobre nossa capacidade de administrar futuras crises.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

    Lehman Brothers: A crisis of value",
    AUTORA Oonagh McDonald
    Lehman Brothers - A crisis of value
    AUTORA Oonagh McDonald
    EDITORA Bloomsbury Academic
    QUANTO US$ 25,45 na amazon.com (288 págs.)

    Edição impressa
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