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    'O risco é a frustração das expectativas', diz líder industrial

    MARIANA CARNEIRO
    DE SÃO PAULO

    03/08/2016 02h00

    Silvia Costanti / Valor
    Pedro Wongtschowski, presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria)
    Pedro Wongtschowski, presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria)

    A indústria emergirá menor da crise atual e mais voltada para o mercado externo, prevê Pedro Wongtschowski, 70, presidente do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria).

    Membro do conselho de administração do grupo Ultra –dono dos postos Ipiranga e da Ultragaz–, Wongtschowski afirma que a Petrobras está encolhendo e deve diminuir ainda mais, com a venda de negócios nas áreas de gás, exploração de petróleo em terra e etanol.

    *

    Folha - A indústria bateu no fundo do poço, como parecem indicar os dados recentes?

    Pedro Wongtschowski - Sim, ela parou de cair muito. Os dados continuam mostrando aumento do desemprego. O setor industrial perdeu 30 mil vagas no primeiro semestre. Mas no BNDES as consultas pararam de cair, o que indica que pode começar um movimento de retomada cautelosa do investimento.

    O sr. prevê uma retomada?

    Vai depender da evolução do cenário [político]. Por enquanto, há indicações positivas quanto a intenções de mudanças. Elas criaram uma expectativa positiva, mas o que vai mover o investimento de verdade é a materialização dessas intenções. O risco é haver uma frustração dessas expectativas, e essas oportunidades não se repetem.

    A retomada do investimento depende de vários fatores. Parte se deve às exportações e elas dependem de uma estrutura de custos no Brasil que é muito dependente do câmbio. E aí há uma preocupação enorme de que a gente esteja prestes a iniciar um novo processo de valorização do real.

    Isso já está acontecendo?

    À medida que há o restabelecimento da confiança, mantidos os juros extremamente elevados para padrões internacionais, vai haver novo influxo de recursos para o mercado brasileiro. Se não houver ação do governo, pode levar a um novo processo de valorização do real, que por sua vez teria efeito extremamente negativo no setor industrial. Nas duas pontas: na redução da possibilidade de exportações e na interrupção do processo de substituição de importações, que vinha acontecendo desde o ano passado e agora perde ritmo com a valorização do real.

    O BC deve intervir no câmbio?

    O câmbio é flutuante, mas não deve ter uma flutuação selvagem. O governo tem instrumentos para dar alguma estabilidade e previsibilidade e conter valorizações excessivas da moeda. O câmbio sozinho não resolve, mas mantém a indústria viva enquanto o governo trabalha nos fatores que afetam a competitividade.

    O que o governo tem que entregar este ano?

    Um conjunto de projetos que indique como vai resolver o problema fiscal e tributário, e encaminhar uma reforma trabalhista.

    A política de usar a Petrobras como alavanca da indústria aparentemente não deu certo. O que será desse setor?

    A Petrobras está encolhendo. O governo tinha um projeto megalômano que se revelou inviável, primeiro pela escala, segundo pelo fato de que implicitamente assumia a continuidade de um petróleo a US$ 100 o barril.

    Então, houve três processos: a redução do crescimento da demanda de derivados no Brasil devido à recessão; a redução do preço do petróleo no mercado internacional; e a inviabilidade matemática de a Petrobras arcar com o volume de investimentos inicialmente previsto. Esses três fatores fizeram e vão fazer com que refluam os investimentos da Petrobras.

    Como avalia a privatização de setores da Petrobras?

    Há áreas fora do negócio central das quais a Petrobras pode sair totalmente ou parcialmente, como energia elétrica [termelétricas], gás... Ainda não vi referência ao etanol, mas é outra área em que a Petrobras é sócia minoritária e poderia desinvestir.

    A empresa já anunciou que sairá da Liquigás e que ficará minoritária na BR. Já anunciou desinvestimentos em logística de gás, de ativos no exterior e está se desfazendo de ativos mesmo na área do pré-sal. Acredito que a estatal vá vender ativos onshore [em terra] de baixa produção. São dezenas de poços com pequena produção. A Petrobras vai diminuir de tamanho. É inexorável devido à sua situação econômica, e sensato.

    Há espaço para incentivar a indústria?

    O governo tem que rever desonerações, subsídios e incentivos que existem hoje para a economia como um todo. Muitos deles não se justificam mais.

    O governo avalia adequadamente os subsídios hoje?

    Ao que me consta, não. Então, primeiro é preciso ver quão eficazes eles são para reativar a economia, incentivar investimentos e gerar emprego. Por quê? O objetivo é ser seletivo: manter vivos os que atingem seus objetivos e, portanto, reduzir o volume total, com ganho fiscal.

    A indústria nacional está preparada para essa revisão?

    A indústria está preparada para essa revisão, não [para a] remoção [dos incentivos].

    -

    RAIO-X PEDRO WONGTSCHOWSKI

    FORMAÇÃO
    Formado em engenharia química, com mestrado e doutorado pela Escola Politécnica da USP

    ATUAÇÃO
    Presidente do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), é ex-presidente e membro do conselho de administração do Grupo Ultra, companhia que controla Ipiranga, Ultragaz, Oxiteno, Extrafarma e Ultracargo. Faz parte dos conselhos da Embraer, CTC, Embrapii e INPI.

    GRUPO ULTRA
    Receita: R$ 19.524 bilhões (1º trimestre de 2016)
    Lucro líquido: R$ 388 milhões

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