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    MARCAS DA CRISE

    Alta do desemprego leva a desistência por nova vaga

    MARIANA CARNEIRO
    DE SÃO PAULO
    KLEBER NUNES
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, NO RECIFE

    21/08/2016 02h00

    Leo Caldas/Folhapress
    Letícia Nascimento, do Recife, que desistiu de buscar vaga
    Letícia Nascimento, do Recife, que desistiu de buscar vaga

    Demitida no ano passado, quando a crise econômica obrigou a empresa em que trabalhava a cortar metade do quadro de funcionários, a analista de comércio exterior Nayara Cândido, 25, tentou por meses um novo emprego.

    Mesmo com especialização em logística e fluência em inglês, ela não conseguiu. Após meses à procura de trabalho, o desânimo tomou conta da pernambucana, que decidiu estudar para um concurso.

    "Faz seis meses que desisti de ir atrás de emprego", diz. "O mercado de trabalho está muito restrito. Até apareceram oportunidades, mas foram poucas e o salário era muito abaixo [do que eu ganhava]."

    Histórias assim podem explicar por que o número de pessoas no mercado de trabalho está encolhendo no Nordeste, em meio a profunda recessão que o país atravessa.

    Para especialistas, pode ser um indício de que a escalada do desemprego está levando parte da população ao desalento, ou seja, a desistir de encontrar um trabalho.

    No último ano, segundo o IBGE, 757 mil pessoas abandonaram o mercado de trabalho no Nordeste. Com isso, a força de trabalho —que inclui pessoas ocupadas e desempregadas— caiu de 57% para 56% da população com mais de 14 anos.

    DISSEMINADO

    As estatísticas mostram que o êxodo ocorreu em 11 Estados brasileiros e no Distrito Federal, incluindo sete dos nove Estados da região Nordeste, entre o segundo trimestre de 2015 e o deste ano.

    "O comportamento esperado era diferente. Com mais pessoas perdendo emprego e renda, a expectativa era que o cônjuge ou o filho que não trabalhavam passassem a buscar uma colocação", afirma o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da Fundação Getulio Vargas.

    Na região Sudeste, ocorreu exatamente o oposto, tal qual descrito pelo especialista: a força de trabalho engordou 2,9% no período. A participação de pessoas no mercado vem se expandindo gradualmente na região desde que o país mergulhou na recessão, no segundo trimestre de 2014.

    Para Cimar Azeredo, coordenador de trabalho e rendimento do IBGE, o resultado do Sudeste tampouco é positivo.

    "A força está subindo não pelo aumento da população ocupada, mas sim pelo aumento dos desocupados", diz. O número de desempregados aumentou 45% no último ano na região, ao passo que a ocupação recuou 0,9%.

    "O ideal é que a força de trabalho aumente com o aumento da ocupação", afirma.

    O IBGE está testando informações específicas sobre desalento, que começarão a ser divulgadas em novembro. Até lá, economistas investigam possíveis indícios que já demonstrem essa tendência.

    Segundo a coordenadora da pesquisa de emprego do Dieese, Lúcia Garcia, a retração de participantes do mercado de trabalho foi observada pelo instituto em Fortaleza e em Porto Alegre entre junho de 2015 e junho deste ano. O Dieese monitora o emprego em cinco regiões metropolitanas do país.

    Para ela, o recuo pode ser reflexo da perda de atratividade do mercado, ou seja, como a oferta de vagas mais rarefeita fica pouco atraente procurar. "A busca fica mais esparsa, deixa de ser diária."

    Isso faz com que essas pessoas não sejam desempregadas segundo o IBGE, mas inativas. "A taxa de desemprego poderia estar ainda mais alta sem isso", diz Garcia.

    PIORA À FRENTE

    Outros indicadores do Dieese sugerem que o êxodo do mercado de trabalho pode começar a crescer em outras regiões metropolitanas monitoradas pelo instituto.

    Em Salvador e em São Paulo, cresceu o número de desempregados que só têm renda graças a bicos esporádicos. E em todas as áreas aumentou o tempo de permanência no desemprego.

    "O custo de não estar empregado é menor quando aumenta o desemprego, porque o salário que se pode conseguir é baixo. Por isso aumenta o desinteresse em buscar trabalho", afirma o economista José Márcio Camargo, especialista em mercado de trabalho e sócio da gestora de investimentos Opus.

    Procurar emprego também vai ficando mais custoso à medida que o tempo passa, porque vão se avolumando despesas na busca, como em transporte para entrevistas.

    Há dois meses a pernambucana Letícia Nascimento, 35, desistiu de procurar uma vaga: "Está difícil. Mandei vários currículos, pedi indicação de amigos, mas não apareceu nada. Só volto a procurar no ano que vem, se a crise passar".

    Com ensino médio completo, ela chegou a migrar para o Rio em busca de emprego. Lá, substituiu por seis meses uma amiga como babá.

    Com o fim do emprego temporário e a promessa de que teria ajuda da mãe com as contas, Letícia voltou ao Recife, onde mora com a filha de 18 anos numa casa na periferia da capital. Ela conta com R$ 85 do Bolsa Família e o auxílio da mãe, também diarista.

    Cimar Azeredo, do IBGE, afirma que, de 2002 a 2003 —quando também acompanhou a deterioração do mercado de trabalho no IBGE—, o desalento subiu com força junto com o desemprego. "Só no fim de 2004 apareceram nuances de melhora", diz.

    O PIB recuperou-se antes: em 2004 a economia cresceu 5,8%. "É difícil prever se será assim desta vez, há muitos fatores exógenos à economia, como a turbulência política, que afeta a confiança dos empregadores."

    *

    FORÇA DE TRABALHO
    Mercado encolhe no Nordeste com a crise

    61,6% dos brasileiros em idade de trabalhar estão no mercado de trabalho, ocupados ou à procura de emprego

    56% é a taxa no Nordeste

    63,5% é a taxa no Sudeste

    11 dos 26 Estados, mais o Distrito Federal, registraram queda da força de trabalho

    7 são Estados nordestinos: MA, PI, RN, PB, PE, SE e BA

    Fonte: IBGE
    Dados se referem ao 2º tri de 2016 e ao 2º tri de 2015

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