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    Temer deve agir rápido para recuperar confiança de investidores estrangeiros, dizem analistas

    MARCELO NINIO
    DE WASHINGTON

    02/09/2016 13h56

    Passado o processo de impeachment, investidores estrangeiros esperam que tenham ficado para trás também a incerteza e a paralisia política dos últimos meses. A expectativa em relação ao governo Temer é positiva, mas ele precisa agir rápido para dar sinais de que a economia está no caminho certo, dizem analistas, que ressaltam a urgência de reformas como a da Previdência e o ajuste fiscal.

    No governo dos EUA e também no setor privado do país, a impressão é de que os primeiros sinais do governo foram animadores, pelo foco no comércio e na facilitação de negócios no Brasil. Segundo relatório da ONU, o IED (investimento estrangeiro direto) no país recuou 11% em 2015 na comparação com o ano anterior, e as empresas americanas seguiram a tendência, congelando projetos e priorizando mercados mais estáveis.

    "Temer precisa agir imediatamente. São necessárias reformas estruturais para retomar o crescimento sustentável do Brasil", disse Cassia Carvalho, diretora executiva do Conselho Empresarial Brasil-EUA, da Câmara de Comércio americana. Entre as reformas mais urgentes ela destaca a previdenciária, a fiscal e a trabalhista, além de medidas que tornem mais fácil fazer negócios no país, como a simplificação dos impostos.

    Em maio, poucos dias após a posse do governo interino, a Câmara de Comércio dos EUA enviou uma carta a Michel Temer em que afirmou que o estímulo para a recuperação da economia depende de "uma maior abertura e incremento do comércio, da viabilização de investimentos em infraestrutura e do fortalecimento do ambiente de negócios".

    Os EUA são os maiores investidores no Brasil, mas a entrada de IED americano no país está em queda nos últimos anos, de US$ 9 bilhões em 2013 para US$ 8,6 bilhões em 2014 e US$ 6,6 bilhões em 2015. Nos primeiros meses deste ano, o declínio se manteve, com um fluxo de US$ 3,2 bilhões entre janeiro e julho, segundo o Ministério da Indústria e Comércio (Mdic).

    O comércio bilateral também caiu, de US$ 60,7 bilhões em 2013 para US$ 62 bilhões em 2014 e US$ 50,6 bilhões no ano passado.

    Os investidores entendem que as reformas necessárias para tirar o Brasil da recessão e restaurar a confiança provavelmente levarão algum tempo e podem ser dificultadas pelo "atual ambiente politico", diz Kellie Meiman, sócia-gerente da consultoria internacional McLarty Associates.

    "O compromisso do governo Temer com a reforma da Previdência e o controle de gastos certamente é um começo", diz Meiman, que foi diretora de Brasil do escritório do representante de comércio dos EUA. "O novo governo precisa enviar sinais fortes e realizáveis ao setor privado de que está decidido a colocar a economia brasileira de volta aos trilhos."

    Para ela, alguns passos esperados são o investimento em infraestrutura, a facilitação do acesso da indústria às cadeias globais de comércio e a simplificação do regime de impostos.

    JUROS

    No cenário externo, um dos obstáculos para o retorno dos investimentos ao Brasil pode ser o aumento de juros nos EUA. Na semana passada, a presidente do Federal Reserve (banco central americano), Janet Yellen, disse que a possibilidade de uma alta ganhou força nos últimos meses, diante dos sinais positivos da maior economia do mundo, entre eles a criação de empregos.

    "É uma conta perversa", diz Manuel Fernandez, sócio-diretor do banco Brasil Plural e responsável pelo escritório de Nova York. "Uma eventual extensão da melhora na economia americana induziria ao aumento de juros nos EUA, inibindo o fluxo de investimentos para países periféricos. Por outro lado, se a economia americana vai mal, isso tem impacto negativo para o mundo todo. É um equilíbrio delicado para o Brasil".

    A turbulência política dos últimos meses também deve inibir inicialmente o retorno dos investimentos, já que muitas empresas vão esperar para saber se o Brasil recuperou a estabilidade e o novo governo não será afetado por escândalos de corrupção. Esta é a previsão de Ben Supple, vice-presidente da consultoria internacional Cohen Group, que trabalha com várias grandes empresas com investimento no Brasil.

    "Vimos uma redução no nível de atividade no Brasil, mas esperamos que ele volte a crescer novamente com a conclusão do processo de impeachment", disse Supple, salientando que o interesse varia de acordo com o setor.

    Os de petróleo e gás e construção veem a mudança política no Brasil como algo positivo, exemplifica, pois acham que haverá mais espaço para investimento. O primeiro, pela perspectiva de mudanças nas regras em torno da exploração do pré-sal, o segundo por ver as oportunidades de novos projetos com o envolvimento de grandes empreiteiras brasileiras nas investigações da operação Lava Jato.

    A continuidade da disputa política não deve afetar a disposição dos investidores, estima.

    "O que importa mais aos investidores é a estabilidade. Haverá uma preocupação se novas acusações forem feitas ao presidente Temer e a membros do governo", afirma. "Mas não acho que eles não vão duvidar da decisão do Senado. O principal interesse é o Estado de direito e a estabilidade. Nos últimos meses nada andou porque ninguém sabia como o processo iria terminar".

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