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    Indústria perde competitividade com uso de insumos importados

    FERNANDA PERRIN
    DE SÃO PAULO

    09/07/2017 02h00

    Silva Junior - 18.dez.14/Folhapress
    Operário em linha de produção de indústria em Sertãozinho
    Operário em linha de produção de indústria em Sertãozinho

    A indústria brasileira passou por uma transformação estrutural nos últimos 15 anos, ampliando o uso de insumos importados em sua produção. Mas, na contramão das expectativas, a mudança não melhorou sua competitividade: o setor perdeu mercado externo e interno.

    Essa é a conclusão de um estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria), que será divulgado nesta segunda (10). O próximo passo é entender o que deu errado.

    Segundo a pesquisa, o coeficiente de insumos importados —indicador do quanto do consumo da indústria é suprido por produtos do exterior— saltou de 16,5% para 25% entre 2003 e 2011.

    No período, os segmentos de vestuário e acessórios, madeira, máquinas e equipamentos, móveis e produtos de metal mais que dobraram suas importações.

    Por outro lado, a fatia da produção nacional exportada caiu de 19,7% em 2005 (maior valor desde 2003) para 12,1% em 2014. Reflexo desse movimento, a participação brasileira nas exportações mundiais de manufaturados caiu de 0,82% para 0,59%.

    "No fim da década de 1990, o Brasil era uma plataforma de re-exportação. As empresas importavam muito e exportavam muito, se estabelecendo aqui para vender para o mercado doméstico e latino. Isso acabou", afirma Renato da Fonseca, gerente-executivo de pesquisa e competitividade da CNI e um dos autores do estudo, ao lado de Samantha Cunha.

    CONTRADITÓRIO

    A princípio, o movimento é contraditório: pesquisas apontam que aumento na importação de insumos leva à melhora na produtividade, supondo que esses produtos são mais variados, baratos e de melhor qualidade do que as opções nacionais.

    O estudo aponta duas explicações para o aumento na presença de insumos importados: desvalorização do dólar entre 2002 e 2011 e a ampliação do mercado consumidor brasileiro, resultado das políticas de redistribuição de renda e acesso ao crédito.

    A ascensão de uma massa voraz por consumo também pode ter impulsionado a indústria tanto a buscar insumos fora do país, após ter esgotado a oferta interna, quanto a priorizar esse público em detrimento do externo.

    "O industrial vê o mercado aqui crescendo muito, sabe que tem uma dificuldade de competir lá fora e que tem o pessoal de fora tentando entrar aqui dentro. A empresa muda a estratégia para o mercado doméstico, porque aqui ele consegue competir melhor", diz Fonseca.

    Volatilidade do câmbio, burocracia alfandegária, falta de infraestrutura, sistema tributário e legislação trabalhista –questões frequentemente apontadas pela indústria para justificar o mal desempenho— são também apontadas como possíveis explicações para a perda de competitividade no período.

    No entanto, Fonseca admite existir também um problema interno ao setor no Brasil: boa parte da indústria é mal gerida. Segundo o World Management Survey, projeto da London School of Economics que avalia a gestão de indústrias de 35 países, o Brasil está na 23ª posição.

    Um projeto-piloto feito pela CNI com 23 empresas conseguiu um aumento de produtividade física de 40% a 60% apenas reorganizando a produção, "sem gastar um tostão com máquina", diz o executivo da entidade.

    Com a alta recente do dólar e a recessão, o setor tem se reorientado para o exterior, tentando suprir a queda na demanda nacional com a estrangeira. A virada tem ajudado a indústria a sobreviver à crise, mas não é suficiente —embora a fatia exportada tenha crescido desde 2014, isso acontece sobre uma produção menor.

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