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    o brasil que dá certo - economia criativa

    Indústrias criativas crescem no país, mas ainda falta investimento

    DE SÃO PAULO

    25/08/2017 02h00

    Mais do que imaginação, criatividade é negócio -e bilionário. Em 2015, as indústrias criativas geraram uma riqueza de R$ 155,6 bilhões para o país, de acordo com levantamento da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro).

    A participação desses setores no PIB brasileiro subiu de 2,56% para 2,64% de 2013 a 2015, ainda segundo o mapeamento, publicado em dezembro do ano passado.

    "É um crescimento que parece mínimo, mas muito relevante se considerarmos o momento de crise profunda", afirma Thamilla Talarico, especialista em desenvolvimento setorial do Sistema Firjan.

    Novas Ideias - Participação do PIB criativo no PIB brasileiro, em %

    Todas as atividades econômicas inovam de alguma forma. No entanto, são consideradas indústrias criativas apenas as que fazem da criatividade a sua matéria-prima.

    Uma empresa de contabilidade, por exemplo, até pode ser inovadora na hora de resolver seus problemas, mas o foco do seu trabalho não é esse. Já um escritório de arquitetura só existe porque vende sua capacidade criativa aos clientes.

    Arquitetura, design, moda, audiovisual, gastronomia, música, desenvolvimento de softwares e pesquisa e desenvolvimento: tudo isso compõe a economia criativa.

    "São produtos e serviços vinculados tanto à cultura e arte quanto à ciência e tecnologia, os dois grandes campos nos quais a criação humana faz a diferença e gera valor agregado", diz Ana Carla Fonseca, professora do curso de economia criativa e cidades criativas da FGV.

    O conceito surgiu na Austrália, em 1994. Mas foi o Reino Unido, em 1997, o primeiro a entender o seu potencial como estratégia de desenvolvimento e criar políticas específicas para esses setores.

    "Naquele momento, o governo britânico percebeu que a participação da indústria fonográfica no PIB havia sido maior do que a da automobilística", diz Caio Bianchi, professor de economia criativa e compartilhada da ESPM.

    Esses segmentos ganham agora um papel estratégico, já que, hoje, sai na frente quem consegue migrar da lógica da produção em massa e da concorrência pelo preço baixo para a lógica da diferenciação e da experiência.
    "Se o Brasil tivesse investido nesses setores, eles poderiam ter crescido muito mais", afirma Bianchi. "O meu receio é que o país esteja dando murro em ponta de faca apostando em segmentos tradicionais, que claramente estão caindo."

    NOVAS IDEIAS - Participação estimada do PIB criativo nos Estados em 2015, em %

    Em 2011, a Secretaria de Economia Criativa surgiu dentro do Ministério da Cultura. Extinta em 2015, deu lugar à Secretaria de Economia da Cultura, que ainda existe, com importância reduzida. Os movimentos se deram no governo de Dilma Rouseff.

    Com a posse do novo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, em julho, a promessa é que a economia criativa se torne uma prioridade.

    Porém, para Talarico, da Firjan, a preocupação em desenvolver a economia criativa deveria estar no Mdic (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços).

    "Estamos falando de estratégia de desenvolvimento econômico, e cultura é a primeira coisa que é cortada em tempos de crise", diz.

    *

    O QUE É ISSO

    Divisões da economia criativa

    CONSUMO

    • Design
    • Arquitetura
    • Publicidade
    • Moda

    TECNOLOGIA

    • Pesquisa e desenvolvimento
    • Biotecnologia
    • Tecnologia da Informação e da Comunicação (desenvolvimento de softwares e sistemas, consultoria em TI e robótica)

    MÍDIAS

    • Editorial
    • Audiovisual

    CULTURA

    • Expressões culturais (artesanato, folclore e gastronomia)
    • Patrimônio e artes (serviços culturais, museologia, produção cultural e patrimônio histórico)
    • Música
    • Artes cênicas

    Fonte: Mapeamento da Indústria Criativa da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) - Dezembro/2016

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    Visão de negócio e educação são maiores desafios

    Para desenvolver a economia criativa no país, ideias novas, claro, são fundamentais, mas não bastam. "Há uma leitura de que brasileiro é criativo e, então, está tudo resolvido", afirma Ana Carla Fonseca, professora do curso de economia criativa e cidades criativas da FGV.

    "Lógico que não depende só disso. Estamos falando de negócios, e há toda uma carga de preparo que não necessariamente é levada em conta", afirma.

    Umas das instituições que tenta suprir essa lacuna no Brasil é o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas): está investindo R$ 65 milhões em 104 projetos de economia criativa até 2018. "Não vou ensinar o cara a criar. Ele está com a cabeça nas nuvens, no bom sentido. Nosso papel é ser a linha da pipa, e ajudá-lo na capacitação de gestão", explica Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae.

    O Estado de São Paulo cedeu à instituição o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo entre 1912 e 1965, que abrigará o Centro Nacional Referência em Empreendedorismo, Tecnologia e Economia Criativa a partir de outubro. Segundo Domingos, será um espaço para conectar criativos e investidores.

    ESTÍMULO
    Se empreender é difícil, ser criativo também não é assim tão simples. As dificuldades do país até ajudam a estimular a capacidade dos brasileiros de inventarem soluções, mas o grande diferencial para formar profissionais criativos é a educação.

    "O Brasil está tão preocupado em vencer desafios de uma educação do século 19 que não pensa no século 21", diz Fonseca. "Talento criativo será um dos únicos perfis de trabalho que sobreviverá à inteligência artificial."

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