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    Cifras & Letras

    Crítica

    Desafio à lei pavimentou sucesso de Uber e Airbnb, defende livro

    NATÁLIA PORTINARI
    DE SÃO PAULO

    09/09/2017 02h00

    "Nosso produto é tão superior ao status quo que, se dermos às pessoas a oportunidade de testá-lo em qualquer lugar onde o governo precise levar minimamente em consideração o que o povo quer, elas vão exigi-lo e defender o seu direito de existir."

    Em 2012, após a Uber ganhar uma batalha regulatória em San Francisco, sua cidade natal, essa é a filosofia que circulava entre seus advogados e lobistas, apelidada de "lei de Travis".

    Travis Kalanick, então presidente da start-up, tinha definido nos últimos meses o expediente que iria se repetir em mais de 600 cidades pelo mundo –conquistar usuários, ignorar as autoridades e bancar as consequências.

    Quem conta a história é o jornalista Brad Stone, autor de "As Upstarts" (Intrínseca). O livro é uma densa reportagem sobre a Uber e o Airbnb de 2009 a 2016, desde a fundação até quando passaram a valer, respectivamente, US$ 68 bilhões e US$ 30 bilhões.

    O que une as duas empresas? Já é clichê, mas vale repetir: "A maior empresa de táxis do mundo não tem nenhum carro, e a de hotéis não tem nenhum imóvel".

    Hoje, Kalanick está queimado. Foi forçado a renunciar em junho, acusado de invasão de privacidade dos clientes, machismo, espionagem industrial, gritar com um motorista, passar a perna em investidores e, o pior, apoiar Donald Trump.

    É de esperar que um executivo cujo objetivo era "acabar com os babacas dos taxistas" metesse os pés pelas mãos quando a Uber chegasse à maturidade, mas as críticas pessoais são enganadoras.

    Quem ler "As Upstarts" descobrirá que o Airbnb partilha do mesmo despeito pelas autoridades da Uber, mas apela às boas intenções.

    Existe o "bom Airbnb" e o "mau Airbnb", nas palavras de Stone. O primeiro pendura, no escritório, frases motivacionais sobre hospitalidade, amizade e comunhão.

    O segundo é acusado de expulsar moradores pobres dos centros das grandes cidades para abrir caminho para turistas, patrocinando a concentração imobiliária nas mãos de alguns proprietários.

    Em um evento em uma incubadora de start-ups em 2015, Brian Chesky enuncia algo próximo à "lei de Travis": "Você precisa crescer muito, muito depressa. Você deve ficar abaixo do radar da lei ou ser grande o bastante para virar uma instituição. Você precisa alcançar o que eu chamo de velocidade de escape."

    A palavra "upstart", escolhida por Stone para o título, resume: "Pessoa que iniciou há pouco uma atividade, fez sucesso e não demonstra o devido respeito para com as pessoas mais velhas e experientes ou para com a maneira tradicional de fazer as coisas".

    Se algum país foi pego de surpresa pela audácia dessas companhias, não deveria ter sido o caso no Brasil. O transporte paralelo, em lotações, mototáxis e Kombis, é um velho conhecido nas metrópoles do país, muitas vezes associado ao crime organizado.

    Mas os donos das lotações ilegais brasileiras não têm o telefone de meia dúzia de investidores de capital de risco salvos na agenda nem nasceram na Califórnia, o que prejudica o empreendimento.

    O que, de fato, diferenciou essas start-ups das outras?

    Stone não responde, mas pode ser a própria tecnologia. O Vale do Silício é obcecado com o verbo "to scale" —se você tem 40 clientes, precisa de um software que execute a mesma tarefa para 40 milhões sem nenhum atrito.

    Há, ainda, outros fatores distintivos. Segundo Stone, os aplicativos rivais sofriam de "timing errado, teimosia ou bom-mocismo crônico".

    As Upstarts
    Berilo Vargas
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    Esse "bom-mocismo" foi, em alguns casos, seguir a lei ou consultar a prefeitura sobre como conduzir uma operação –santa ingenuidade.

    O único erro de Stone, repórter da Bloomberg, talvez seja tratar a trajetória das "upstarts" como regra, enquanto o compliance ficaria para os fracassados.

    AS UPSTARTS
    Editora Intrínseca
    Autor Brad Stone
    Quanto R$ 54,90 (384 págs.)

    Edição impressa
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