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    Além do juro menor, ajuste devolve lucro às empresas

    TATIANA VAZ
    DE SÃO PAULO

    07/12/2017 02h00

    Para as empresas, queda de juros significa crédito farto e mais barato, fator que determina muito do negócio. No entanto, nos dois últimos anos, outro aspecto pesou ainda mais para muitas delas: a revisão da própria companhia como um todo.

    "Crise é a hora de reduzir custos e despesas, alterar mix de produtos, rever a relação com fornecedores, o jeito de precificar e até repensar o futuro –e foi o que muitas fizeram", afirma Ana Paula Tozzi, da consultoria AGR.

    Exemplos de ajustes assim foram anunciados aos montes em 2015 e 2016. Enquanto a operadora de turismo CVC ampliou as ofertas de viagens corporativas, as varejistas Cnova e Extra, do Grupo Pão de Açúcar, e o Magazine Luiza entraram no marketplace, venda on-line de produtos de terceiros. Marisa e Riachuelo frearam os planos de abertura de lojas, e as companhias aéreas Latam, Azul e Gol reorganizaram rotas de voos.

    Tais mudanças as ajudaram a passar pelo período de pouca demanda e muita incerteza da economia, afirmam especialistas ouvidos pela Folha.

    JUROS EM QUEDA - Evolução da taxa básica Selic, em %

    "A queda da Selic e do desemprego também contribui para um cenário mais favorável, de menor custo de capital", diz Silvio Campos Neto, da Tendências consultoria.

    O economista aponta que, em tempos mais desafiadores, é comum que as companhias passem a olhar para dentro de casa, para decidir melhor sobre como irão reduzir dívidas, manter preços e acabar com estoques.

    LUCRO MAIOR

    O efeito positivo dos juros menores e a busca de eficiência das empresas listadas em Bolsa mostraram sinais de melhora no ambiente de negócios no terceiro trimestre.

    Segundo dados da consultoria Economatica, o lucro somado de 299 companhias de capital aberto atingiu R$ 32,3 bilhões, volume 29% maior que o de um ano antes.

    Ao mesmo tempo, a dívida total bruta encolheu, para R$ 1,15 trilhão, valor 2,47% inferior ao de julho a setembro de 2016. O levantamento deixa de fora Vale, Transmissão Paulista, Petrobras, Oi, AmBev, PDG e Dommo pelo fato de a variação de resultado delas distorcer o estudo geral.

    A melhora de resultados é atribuída mais aos esforços das companhias do que à recuperação isolada da economia, afirma André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos.

    "É preciso separar um pouco as coisas para não entrarmos em um otimismo irreal, sem fundamento."

    De acordo com ele, a inadimplência melhorou um pouco, mas ainda está em um patamar alto, e, em geral, muitos setores estão longe do nível de produtividade dos anos pré-crise. "Paramos de piorar, mas vamos demorar uns seis anos a voltar ao cenário favorável de antes."

    MELHORES E PIORES

    Pelos dados, os três setores de melhores resultados, com base nas empresas abertas, foram bancos, energia elétrica e seguradoras.

    Para Ricardo Bottas, vice-presidente de relações de investidores e controladoria da SulAmérica, a carteira diversificada de seguros facilita a compensação da alta da Selic, em momentos de crise.

    "Também fazemos ajustes no negócio com frequência, motivo pelo qual já estávamos bem preparados", diz.

    Segmentos baseados em exportação e commodities, como o de papel e celulose e mineração, já apresentam sinais claros de melhora, apontam os analistas, ao contrário do setor de construção.

    As 21 construtoras e incorporadoras com ações em Bolsa somaram perdas de R$ 381 milhões, o maior de todas as categorias. "O setor demora a se recuperar porque precisa muito da confiança do consumidor", diz Campos Neto.

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