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    Transgênero judia relata como mudar de sexo impactou sua religiosidade

    DIOGO BERCITO
    EM JERUSALÉM

    16/02/2015 02h00

    Yiscah Smith, 63, nasceu homem nos EUA, mas se sentia mulher. Professor de lei judaica em escolas tradicionais de Jerusalém, decidiu mudar seu corpo. No caminho, perdeu a fé —mas a reencontrou na ideia de que cada um tem seu lugar na Torá, livro sagrado do judaísmo. É autora de "Forty Years in the Wilderness" (40 anos no deserto, em tradução livre), sobre a experiência.

    Leia o depoimento de Yiscah Smith

    Às vezes me perguntam por que eu quero ser uma mulher. Eu respondo a eles na estrutura da tradição judaica, com uma pergunta: por que você quer ser um homem?

    Eu nasci uma mulher, mas no corpo de um homem. Eu acreditava ser uma menina desde pequena. Eu via meu corpo no espelho e me perguntava: é assim que eu sou? Um homem? Eu sempre pensei como uma mulher.

    Demorou até 1992 para eu descobrir que não era a única assim. Não havia internet naquela época, eu não sabia o que era transgênero. Pensava que estava presa por toda a minha vida em um corpo de homem. Então li um artigo e percebi que havia outras pessoas. Pesquisei.

    Dan Balilty/Associated Press
    A transgênero Yiscah Smith
    A transgênero Yiscah Smith

    Naquele momento, eu soube o que ia fazer. Ainda não tinha decidido fazer a transição, mas eu sabia que ia naquela direção quando estivesse pronta emocionalmente. Demorou nove anos.

    Eu estava pronta para qualquer preço, qualquer risco. Família, emprego, ser barrada pela sociedade. Não é entrar em uma máquina e acordar como uma linda mulher. É um processo longo. Hormônios, aulas de voz, retirada de pelos, troca de identidade.

    Conversei com a minha família. Eu havia me divorciado em 1991. Tenho seis filhos. Falei com cada um deles individualmente e com a minha ex-mulher. Escrevi uma carta para os meus pais.

    Sabia que ia ser muito difícil. Todos ficaram em choque. Foi muito difícil para eles. Por isso precisava estar pronta emocionalmente.

    Minha mãe me disse que olhava nos meus olhos e entendia. Ela sabia que alguma coisa em mim não estava certa antes. Eu estava sempre correndo, não via a hora de dormir. Tudo era um pesadelo. Agora estou viva.

    Não significa que eu não tenho problemas. Mas eu não estava bem comigo mesma. Hoje, me sinto abençoada pelo lugar onde estou.

    Escrevi meu livro para enviar a mensagem de que, se você se sacrificar, vai se descobrir. Projetamos imagens para sermos amados, abrindo mão de nossa autenticidade. Mas o que a sociedade vê, nesse caso, é uma ilusão.

    Algumas pessoas acreditam que elas foram criadas mais à imagem de Deus do que as outras. Isso é errado.

    De 1991 a 2001, eu estava afastada da religião. Por causa do divórcio, as escolas religiosas onde eu ensinava não me aceitavam mais.

    Eu me sentia rejeitada pelos rabinos. Não havia lugar para mim no mundo da Torá (o livro sagrado do judaísmo). Eu não sabia que existia um lugar para todas as pessoas. Voltar à Torá foi um processo não de me descobrir, mas de honrar o que eu era.

    Deus não comete erros. Ninguém nasce perfeito. Todos nascem com um "tikun" ["reparação", no vocabulário do misticismo judaico] para fazer. Se você fosse perfeito, não tinha razão para nascer.

    Deus nos dá alguma coisa única para trabalharmos. Pode ser físico, emocional, óbvio, sutil. Nasci em um corpo diferente do que eu sentia.

    Fiz a cirurgia para salvar a minha vida. Você não pede a autorização do rabino para isso. A lei judaica permite ser quebrada para ser mantida, nesses casos. Minha transição me trouxe de volta ao judaísmo. Hoje respeito as normas de alimentação judaicas.

    Essa é a minha experiência. Não falo em nome das pessoas transgênero. Sou um ser humano, e não posso ser resumida a apenas isso.

    Os primeiros 40 anos da minha vida foram um inferno. Mas hoje não sinto mais dor. Apenas a memória da dor, mas não dói.

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