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    Helmut Kohl, o arquiteto da reunificação alemã

    DA DEUTSCHE WELLE

    16/06/2017 13h57

    Anos atrás, ao ser indagado sobre o que achava de todos os memoriais erigidos em sua honra, Helmut Kohl reagiu com humor: quando os visitantes vão embora, primeiro vêm os pombos, depois os cães, e "o que ambos fazem, sabe-se bem", disse.

    Com a queda do Muro de Berlim e a forma enérgica como ele organizou a Reunificação da Alemanha, o ex-chanceler federal, morto nesta sexta-feira (16), foi alçado ao posto de figura histórica. O fato de ter ganhado um memorial ainda em vida por si só já o destaca no meio de tantos poderosos.

    Na verdade, porém, no histórico ano de 1989 o democrata-cristão já se encontrava no fim de sua trajetória política. Os críticos dentro de seu partido fizeram campanha contra ele, num verdadeiro motim. Só com muito esforço ele retomou as rédeas de sua União Democrata Cristã (CDU): mesmo com a saúde abalada, uma grande força de sobrevivência o caracteriza.

    Além disso, Kohl foi um realizador astuto, que soube combinar um infalível instinto de poder com um modo de proceder estratégico. A isso, acrescente-se a chegada do momento certo, o destino e a história, com o colapso da Alemanha Oriental e a queda do Muro. Kohl reconheceu a oportunidade única e age. E agiu certo.

    UNIDADE INTERNA

    Apenas três semanas depois da acorrida às fronteiras em Berlim, Kohl apresentou no Parlamento o roteiro para a reunificação alemã: seu plano de dez pontos é um trabalho de mestre. Sua meta, a unificação do país até então dividido entre o comunismo e o capitalismo, ainda despertava reações mistas no exterior.

    Mas o então chanceler alemão enfrentou os céticos na qualidade de europeu. Por exemplo, em 19 de dezembro de 1989 em Dresden, diante de dezenas de milhares de alemães orientais eufóricos. Na manifestação não planejada, ele escolhe com cuidado as palavras diante da multidão e gera confiança. A ênfase no discernimento e na moderação ganha força, as reações contrárias se esvaziam, em grande parte.

    Ao lado da configuração da Reunificação da Alemanha, a política externa foi também um ponto alto dos 16 anos de Kohl no governo federal. A amizade com a França, a reconciliação com a Polônia e uma relação marcada por compreensão e sensibilidade com a debilitada União Soviética foram características de sua política prudente em relação às nações vizinhas.

    EUROPA COMO TAREFA ALEMÃ

    A experiência da Segunda Guerra Mundial marcou de forma definitiva a biografia de Kohl. A morte como soldado do irmão mais velho, Walter, o ocupou por toda a vida. A divisão da Europa em Leste e Oeste também foi decisiva para ele, que tinha 15 anos de idade ao fim do conflito mundial.

    Sendo tão jovem, ele não se tornara culpável na Alemanha nazista. Esse fato o político denominava "a bênção do nascimento tardio", o que por muito tempo lhe valeu críticas severas.

    Tendo passado a infância na guerra e a juventude entre os escombros, Kohl foi um clássico representante da "geração nunca mais". Consequentemente, a integração da Alemanha na Europa, em especial da nação expandida a partir de 1990, é uma espécie de segunda linha mestra na vida do homo politicus.

    Com sua característica habilidade de unir política e simbolismo histórico, o conservador alemão estendeu a mão ao socialista francês François Mitterrand por sobre as trincheiras da Primeira Guerra Mundial em Verdun.

    Kohl encarou a Europa como uma tarefa alemã. Ele empregou seu poder na luta pelo euro, visando tornar irrevogável a unificação do bloco. E impôs a ampliação da União Europeia com os países do Leste –mesmo ao preço de uma sobrecarga das estruturas europeias.

    SIMPLESMENTE ALEMÃO

    Também fica na lembrança o ser humano Helmut Kohl. Ao contrário de seus antecessores social-democratas –o visionário Willy Brandt e o perito em economia Helmut Schmidt–, durante muitos anos ele permaneceu subestimado, como homem e político.

    Também devido a sua origem provinciana, que nunca tentou esconder, e a seu jeito um tanto desengonçado de caminhar, grande parte da sociedade alemã não o considera digno de ser levado a sério como personalidade pública. Ele é visto como um tipo inadequado à época –e isso apesar de a CDU ter apresentado nessas décadas resultados eleitorais com que hoje só pode sonhar.

    O sucesso de Kohl no período anterior à reunificação alemã deveu-se justamente a sua qualidade de alemão mediano –na melhor acepção do termo, de quem se identifica com os gostos e o jeito de ser da média da população. Ele incorporou a essência do homem alemão na segunda –e melhor– metade do século 20. E por isso revelou tanto sobre o seu povo.

    "Helmut Kohl é uma parte considerável de mim", comentou certa vez um colaborador próximo. A descrição procede: ele era simplesmente alemão. E, no entanto, um grande europeu.

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