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    Friday, 24-Nov-2017 05:34:59 BRST

    Refugiados usam truque para escapar de Trump e pedir asilo no Canadá

    DA ASSOCIATED PRESS

    10/08/2017 11h00

    Eles vieram de todo os EUA, desembarcando de táxis, empurrando carrinhos de bebê e puxando malas, para chegar ao fim de uma estrada rural nas matas do norte.

    Onde o asfalto termina, eles carregam as crianças menores e conduzem as mais velhas com mochilas de Mickey Mouse ao redor de uma placa de "Estrada fechada", contornam arbustos, cruzam uma vala e passam por outra placa que diz em francês e inglês: "Proibido para pedestres". Então eles são presos.

    Sete dias por semana, 24 horas por dia, migrantes que vieram do mundo todo –da Síria, do Congo, Haiti e outros lugares– para os EUA chegam aqui no final da Roxham Road para poderem entrar no Canadá, esperando que suas políticas lhes deem a segurança que o atual clima político nos EUA não dá.

    "No país de Trump, eles querem nos devolver ao nosso país", disse Lena Gunja, uma menina de 10 anos do Congo, que até esta semana vivia em Portland, no Estado do Maine. Ela viajava com sua mãe, seu pai e a irmã menor. "Então, nós não queremos que isso aconteça com a gente, queremos uma vida boa. Minha mãe quer uma vida boa para nós."

    A passagem ficou tão lotada neste verão que a polícia canadense montou um centro de recepção em seu lado da fronteira, na comunidade de Saint-Bernard-de-Lacolle, no Quebec, a cerca de 50 km ao sul de Montreal, ou quase 480 km ao norte da cidade de Nova York.

    Ela inclui tendas que brotaram nas últimas semanas, onde os migrantes são processados antes de ser entregues à Agência de Serviços de Fronteira do Canadá, que cuida de suas solicitações de refugiados.

    A Polícia Montada Real do Canadá está instalando eletricidade e banheiros portáteis. Há uma bandeira canadense ao lado da primeira tenda, onde os policiais montados revistam os imigrantes que acabam de "prender" e verificam seus documentos de viagem.

    Os migrantes também recebem comida e são registrados, e depois levados de ônibus a seu próximo destino. Caminhões carregam a bagagem em separado.

    Ninguém sabe como este lugar, que não é um cruzamento oficial de fronteira, se tornou o ponto preferido de entrada no Canadá. Mas quando os migrantes começaram a ir para lá a notícia se espalhou nas redes sociais.

    Sob o Acordo do País Seguro de 2002 entre os EUA e o Canadá, os migrantes que pedem asilo devem solicitá-lo no primeiro país ao qual chegarem. Se eles tivessem ido a um porto de entrada legal no Canadá, seriam devolvidos aos EUA e mandados solicitar lá.

    Em um truque na aplicação da lei, porém, se os migrantes chegarem ao país em um lugar que não é um porto de entrada, como a Roxham Road, podem pedir o status de refugiados.

    Muitos pegam ônibus para Plattsburgh, no Estado de Nova York, a cerca de 32 km ao sul. Alguns pegam aviões e outros o trem Amtrak. Às vezes táxis transportam as pessoas até a fronteira. Outras são deixadas no meio do caminho e têm de caminhar, puxando suas malas.

    Passagens de ônibus usadas cobrem o chão, com os pontos de origem geralmente borrados pela chuva que caiu em noites anteriores. Numa delas se lia "Jacksonville".

    Uma família síria disse que chegou a Nova York de avião com vistos turísticos e então foi para Plattsburgh, onde pegou um táxi até a fronteira.

    Os migrantes disseram que foram movidos pela ideia de que a era do presidente republicano Donald Trump, com seus pedidos de proibição de pessoas de alguns países de maioria muçulmana, significa que os EUA não são mais o destino dos despossuídos do mundo.

    Em suas mentes, esse lugar foi ocupado pelo Canadá do primeiro-ministro Justin Trudeau, membro do Partido Liberal de seu país.

    A maioria das pessoas que faz a travessia hoje é originária do Haiti. O governo Trump disse neste ano que pretendia encerrar em janeiro um programa humanitário especial aprovado depois do terremoto de 2010 que deu a cerca de 58 mil haitianos autorização para ficar temporariamente nos EUA.

    Andando até a fronteira em um grupo na segunda-feira (14), a haitiana Medyne Milord, 47, disse que precisa trabalhar para sustentar sua família.

    "Se eu voltar ao Haiti, o problema duplicará", disse ela. "O que eu espero é ter uma vida melhor no Canadá."

    Jean Rigaud Liberal, 38, contou que passou sete meses nos EUA e morou na Flórida depois que deixou o Haiti. Ele soube da Roxham Road pelo Facebook e disse que acha que "o Canadá será melhor que os EUA".

    "Não ficamos à vontade nos EUA", disse Liberal. "Estamos à procura de uma vida melhor; não queremos voltar ao Haiti."

    No lado de Nova York, agentes da Patrulha de Fronteiras dos EUA às vezes verificam se os migrantes estão legalmente no país, mas eles dizem que não têm recursos para fazê-lo constantemente.

    Além disso, segundo Brad Brant, um supervisor de operações especiais da Patrulha de Fronteiras, "nossa missão não é impedir que as pessoas saiam".

    Um pequeno número de pessoas continua cruzando para o Canadá em outros lugares, mas a vasta maioria pega a Roxham Road. As autoridades americanas disseram que começaram a notar no último outono, mais ou menos na época da eleição presidencial, que mais pessoas estavam atravessando ali.

    Francine Dupuis, diretora de um programa financiado pelo governo do Quebec que ajuda os que solicitam asilo, disse que sua organização calcula que ao todo 1.174 pessoas entraram na província no mês passado, em comparação com 180 em julho de 2016.

    Autoridades americanas e canadenses estimaram que só no último domingo (6) cerca de 400 pessoas cruzaram a fronteira na estrada rural.

    "Tudo o que elas precisam fazer é atravessar", disse Dupuis. "Não podemos controlar isso. Elas chegam às centenas, e a coisa parece estar aumentando dia a dia."

    O Canadá disse na semana passada que pretendia abrigar alguns migrantes no Estádio Olímpico de Montreal. Ele pode conter milhares de pessoas, mas os planos atuais pedem apenas 450.

    Na maioria dos casos, quando os migrantes estão no Canadá eles são livres e podem viver à vontade enquanto seus pedidos de asilo são processados, o que pode demorar anos. Entretanto, eles têm direito a solicitar ajuda pública.

    Brenda Shanahan, deputada do Partido Liberal que representa a área, visitou o local na segunda-feira (14). Ela está orgulhosa de seu país por se dispor a aceitar os despossuídos, segundo disse, mas não há garantia de que eles poderão ficar no Canadá.

    "Não é um ingresso grátis para a situação de refugiado, de modo algum", afirmou.

    A deputada conservadora de oposição Michelle Rempel disse que o governo Trudeau não tem um plano para lidar com as entradas ilegais, apesar de ter previsto um aumento no verão.

    "Tudo o que ouvimos dizer é que estamos monitorando a situação", disse ela. "O governo precisa fazer um plano imediatamente para lidar com isto."

    A situação vai emperrar ainda mais um sistema em que alguns refugiados já esperam por audiências há 11 anos, disse Rempel. Os canadenses vão questionar a integridade do sistema de imigração se continuar a "tendência perigosa" das entradas ilegais, disse ela.

    O próprio Trudeau disse recentemente que seu país tem postos de controle na fronteira que precisam ser respeitados.

    "Temos um país aberto e compassivo, mas temos um sistema forte que seguimos", afirmou ele. "Proteger a confiança dos canadenses na integridade de nosso sistema nos permite continuar sendo abertos, e isso é exatamente o que precisamos continuar fazendo."

    Inancieu Merilien, do Haiti, mudou-se para os EUA em 2000, mas atravessou para o Canadá no final do mês passado. As autoridades americanas, segundo ele, estão tentando assustar os haitianos recusando-se a garantir que eles poderão ficar.

    "Há uma grande diferença aqui. Eles nos receberam muito bem", disse Merilien depois de deixar o Estádio Olímpico para começar a procurar uma casa na grande comunidade haitiana de Montreal. "Eles vão nos dar moradia em apartamentos. Espero que tudo corra bem."

    Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

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