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    Análise

    João Lourenço governará petro-Estado arruinado em Angola

    MATHIAS ALENCASTRO
    COLUNISTA DA FOLHA

    23/08/2017 02h00

    De mãos atadas, João Lourenço assumirá em Angola um petro-Estado em ruínas.

    Natural de Malange, Lourenço surgiu como uma obviedade para a sucessão de José Eduardo Dos Santos pelo seu bom transito dentro do aparelho militar e do MPLA, partido no poder desde 1975.

    Sua mulher, Ana Dias Lourenço, ex-executiva do Banco Mundial, é a garantia de qualidade do candidato para a comunidade internacional.

    A vitória de Lourenço no pleito desta quarta (23) é dada como certa. Seu partido, que controla a máquina, continua popular num país traumatizado por quase três décadas de violência contínua.

    Ampe Rogerio/AFP
    João Lourenço, atual ministro da Defesa e favorito para ser o próximo presidente de Angola
    João Lourenço, atual ministro da Defesa e favorito para ser o próximo presidente de Angola

    A retirada de Santos, no poder desde 1979, contempla a reivindicação histórica da sociedade civil. A alternância de partidos pode esperar.

    O bom desempenho da Casa-CE será a provável surpresa da eleição. Sob Abel Chivukuvuku, o jovem partido disputa com a histórica Unita o papel de líder da oposição no novo ciclo político.

    Lourenço assumirá instituições desenhadas para servir um homem e o seu clã durante décadas. A totalidade dos ministérios, governos provinciais e da máquina partidária está subordinada ao todo poderoso Futungo de Belas, nome da residência oficial.

    As principais alavancas econômicas estão nas mãos da família Santos. A filha do presidente, Isabel, controla a petrolífera Sonangol, centro nevrálgico da economia do país, e o filho, Filomeno, comanda o opaco e bilionário Fundo Soberano de Angola.

    Antes de abandonar o poder, Santos tomou medidas para impedir Lourenço de alterar esse desenho institucional: renovou por decreto os mandatos dos chefes dos serviços de segurança e militar para garantir a continuidade dos seus aliados em posições-chave do aparelho do Estado.

    O candidato a vice na chapa de Lourenço, Bornito de Sousa, é um aliado histórico de Santos e um interlocutor essencial entre o MPLA e o resto do sistema político.

    De mãos atadas, Lourenço encontrará um Estado mergulhado numa crise sem precedentes desde o final da guerra civil, em 2002.

    A queda do preço do barril do petróleo em 2014 sufocou as contas públicas e provocou a deserção dos principais parceiros internacionais. Como outros países Brics, o Brasil passou em pouco mais de dois anos de financiador generoso a cobrador do regime.

    Imediatamente após tomar posse, Lourenço terá de negociar um pacote de ajuda com o Fundo Monetário Internacional. Tida como inevitável, a desvalorização do kwanza, a moeda local, aumentará as dificuldades da população, altamente dependente de importações. O período de graça do novo presidente promete ser curto.

    Apesar da situação emergencial, Lourenço sabe a importância de avançar paulatinamente. Afinal, sentiu na pele a aversão de Santos a mudanças radicas.

    Quinze anos atrás, quando Santos abriu o debate sobre a sucessão, Lourenço foi dos primeiros a manifestar publicamente interesse no cargo. Resultado, o presidente decidiu seguir no poder, e condenou Lourenço a uma travessia do deserto de dez anos pelo excesso de ambição.

    Por décadas, a política angolana foi uma disputa entre lideranças onde, no fim, Santos ganha. E em Angola, as tradições têm vida longa.

    Angola vai às urnas
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