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    DW

    O desmedido interesse dos brasileiros pela Coreia do Norte

    DA DEUTSCHE WELLE

    06/09/2017 18h08

    KCNA/Reuters
    People react as members who have contributed to the success of the hydrostatic test for intercontinental ballistic rockets arrive in Pyongyang in this undated photo released by North Korea's Korean Central News Agency (KCNA) in Pyongyang September 6, 2017. KCNA
    Recepção para os responsáveis pelo teste da suposta bomba de hidrogênio na capital Pyongyang

    No disputado noticiário nacional, tomado por escândalos de corrupção, aumento da violência e casos de estupro, um assunto distante desperta o interesse dos brasileiros: a ameaça representada pela Coreia do Norte.

    Desde de o início da série mais recente de testes nucleares e de mísseis conduzidos pelo pequeno país asiático, o Google mostra que os brasileiros estão entre os que mais pesquisam termos relacionados ao assunto.

    Esse interesse mexeu com o cotidiano de Thiago Mattos. Ele cursou o último ano de graduação em Relações Internacionais na vizinha e rival Coreia do Sul e nunca foi tão solicitado para dar palestras sobre sua experiência.

    "As pessoas querem saber como é de fato a vida das pessoas na Coreia do Norte –se elas são mandadas para campos de concentração, por exemplo–, se o país pode mesmo provocar uma Terceira Guerra Mundial, ou têm interesses gerais na cultura de lá", diz Mattos sobre os motivos dos convites.

    Ele transformou a experiência asiática em tema de pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e se prepara para compor um pequeno time de especialistas na península coreana.

    A GUERRA LÁ E AQUI

    Como a maioria dos cidadãos do mundo, o brasileiro também pode estar tentando entender como um país menor que o estado do Acre e tão isolado se atreve a desafiar a maior potência bélica do mundo, os Estados Unidos.

    É o que Paulo Watanabe, professor de Segurança Internacional da Universidade Estadual Paulista (Unesp), chama de "conflito tradicional", ou um Estado ameaçando diretamente outro Estado, o que não acontece desde a Guerra Fria.

    "Nos últimos anos, temos a Coreia do Norte como principal questionador do poder americano. Os norte-coreanos deixaram claro que, depois dos testes, estão em pé de igualdade com os Estados Unidos, ou querem ser considerados dessa forma", afirma.

    Num cenário de guerra, o que significaria o fim de um dos lados, principalmente da Coreia do Norte, a repercussão seria imediata em todo o mundo –inclusive no Brasil. "Vai afetar a economia, principalmente a China. E a China é basicamente a raiz de todo comércio internacional, sobretudo quando se fala do Brasil. Existem riscos para a estabilidade aqui também", pontua Watanabe.

    Por enquanto, o conflito é percebido com uma lógica binária: democracia x ditadura, racionalidade x irracionalidade, globalização x isolamento, capitalismo x comunismo. "Quando a gente olha para o momento atual do Brasil, essa polarização encontra bastante eco na nossa sociedade", comenta Cláudia Marconi, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

    A polarização separada por milhares de quilômetros de distância estimula os brasileiros a traçarem paralelos com a política local. "Foi como o que aconteceu com o 'vai pra Cuba', tão usado nos momentos mais acirrados da crise política brasileira", arrisca Mattos, mencionando a expressão que virou símbolo do embate entre direita e esquerda.

    Assista ao vídeo

    CATÁSTROFE NUCLEAR E VIOLÊNCIA

    José Paulo Fiks recorre à imprensa internacional para se manter atualizado. Psiquiatra e pesquisador do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele se lembra da paranoia dos tempos da Guerra Fria quando viveu na Europa, na década de 1980.

    Na interpretação de Fiks, especialista em estudo de traumas, os brasileiros estão tentando entender o que se passa naquele universo fechado da Coreia da Norte, onde as informações divulgadas nunca podem ser comprovadas em qualquer fonte.

    Embora não haja um trauma coletivo com experiências de guerra no Brasil, como na Coreia do Norte, a ditadura já reinou no país sul-americano. "Mas essa memória do medo da ditadura não existe aqui. A memória para esse tipo de terror de Estado, de terror político, é muito pequena", comenta Fiks.

    O medo do brasileiro é do dia a dia, ao sair de casa. "Os nossos receptores cerebrais e sistemas de alarme estão mais voltados para essa realidade brasileira, típica da violência urbana latino-americana, a maior do mundo", ressalta o psiquiatra.

    Diante da violência urbana, o medo se mostra de maneira distinta em diferentes níveis da sociedade brasileira. Estudos mostram que, quanto menor a renda, maior é o temor de se tornar vítima. Entre os brasileiros que ganham mais, esse medo é menor – carros blindados e casas vigiadas aumentam a sensação de segurança.

    Mas quando a ameaça é de uma catástrofe nuclear, como a provocada após o recente teste de uma suposta bomba de hidrogênio pela Coreia do Norte, tudo muda. "Essa ameaça ativa uma percepção de que somos todos vulneráveis. O que não deixa de capturar os brasileiros", sugere Marconi.

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