• Mundo

    Saturday, 04-May-2024 13:26:06 -03

    Aung San Suu Kyi rompe silêncio sobre perseguição de minoria rohingya

    DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

    19/09/2017 16h39

    A líder de fato do Mianmar, Aung San Suu Kyi, rompeu o silêncio sobre a situação da minoria muçulmana rohingya no país.

    Em seu primeiro discurso nacional desde o início da mais recente onda de violência, Suu Kyi afirmou que a "grande maioria" dos muçulmanos que moravam na região dos embates não deixou seus lares e que "mais de 50% dos vilarejos estão intactos".

    Ela convidou diplomatas a visitarem áreas afetadas e disse que o Mianmar não teme o escrutínio internacional.

    Aproximadamente 421 mil rohingyas cruzaram a fronteira para Bangladesh desde o final de agosto, segundo a ONU, fugindo de uma campanha de repressão do Exército birmanês em resposta a ataques de rebeldes da minoria muçulmana.

    Referindo-se às últimas duas semanas, Suu Kyi afirmou que "não houve nenhum confronto armado e nenhuma operação de remoção foi realizada". "De toda forma, estamos preocupados com o número de muçulmanos que estão fugindo para Bangledesh", declarou.

    "Queremos entender por que esse êxodo está acontecendo. Gostaríamos de conversar com aqueles que fugiram e também com aqueles ficaram [em Mianmar]", disse.

    Durante seu discurso na capital Naypyitaw, a líder de fato buscou tranquilizar diplomatas estrangeiros. Ela os assegurou de que as pessoas que fugiram para Bangladesh seriam autorizadas a regressar ao Mianmar, desde que passassem um teste de "verificação".

    O fundador da ONG Arakan Project (antigo nome do Estado de Rakhine), Chris Lewa, disse que as regras do governo para verificar a nacionalidade dos rohingya são muito rígidas, e exigem documentos emitidos há décadas.

    "Muitas pessoas já perderam seus documentos nos incêndios e muitas crianças nunca foram registradas", disse.

    Desde 1982 os rohingyas não são reconhecidos como cidadãos de Mianmar.

    Majoritariamente budistas, muitos birmaneses alegam que os rohingyas são uma etnia implantada durante a colonização britânica, que trouxe milhares de trabalhadores muçulmanos de Bangladesh.

    Em entrevistas realizadas em Bangladesh pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), rohingyas contaram que casas queimadas, estupros, torturas, assassinatos, detenções ilegais e desaparições forçadas são práticas recorrentes das forças armadas birmanesas.

    Imagens de satélite divulgadas pela ONG Human Rights Watch mostram que 700 construções foram queimadas em 17 vilarejos no Estado de Rakhine, que abriga a minoria, na primeira semana do conflito com o Exército, no fim de agosto.

    O diretor regional da ONG Anistia Internacional chamou as declarações de Suu Kyi de "uma mistura de inverdades e culpabilização das vítimas".

    "Há provas fartas de que as forças de segurança estão engajadas em uma campanha de limpeza étnica", afirmou Gomes. "Embora tenho sido positivo saber que Aung San Suu Kyi condena as violações de direitos humanos no Estado de Rakhine, ela continuar sem se pronunciar sobre o papel das forças de segurança", disse.

    No campo de refugiados de Kutupalong, Abdul Hafiz contou que os rohingyas confiaram mais em Suu Kyi do que nos militares que, além de terem governado o país por mais de cinco décadas, mantiveram Suu Kyi em prisão doméstica por muitos anos.

    Depois do ocorrido nas últimas semanas, ele a chama de "mentirosa" e diz que os rohingyas estão sofrendo mais do que nunca.

    Suu Kyi recentemente cancelou sua ida à Assembleia Geral da ONU –uma decisão vista como uma tentativa de evitar as críticas internacionais que vem sofrendo desde o início da onda de violência contra a minoria.

    Tanto o secretário-geral, Antonio Guterres, quanto o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, haviam denunciado que o tratamento de Mianmar aos rohingyas correspondia a uma limpeza étnica.

    Vencedora do prêmio Nobel da Paz de 1991 por sua resistência pacífica contra o regime ditadorial em Mianmar, Suu Kyi tem enfretado críticas da comunidade internacional.

    No ano passado, vários laureados com o Nobel –incluindo Malala Yousafzai, Desmond Tutu e 11 outros– assinaram carta aberta "alertando sobre o potencial genocídio" dos rohingyas.

    Críticos de Suu Kyi a culparam pela crise e pediram que seu prêmio Nobel fosse revogado.

    O governo de Bangladesh recentemente anunciou que construirá 14 mil novos abrigos para receber os milhares de rohingyas recém-chegados.

    Antes da escalada da violência, o país já contava com dois campos de refugiados que abrigavam cerca de 400 mil refugiados de Mianmar.

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2024