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    Governo Trump

    Interferência russa azeda namoro entre gigantes tec e políticos nos EUA

    SILAS MARTÍ
    DE NOVA YORK

    22/10/2017 02h00

    Quando o Facebook criou uma carinha vermelha de raiva dentro de sua opção de curtir, executivos da empresa não imaginavam que o ódio fosse respingar neles.

    Em vez de rostinhos sorridentes, a rede social e outros gigantes do Vale do Silício, entre eles Google e Twitter, enfrentam agora a maior crise de imagem de sua história, um reflexo do escândalo de anúncios e perfis falsos usados por russos para rachar o espectro político americano.

    Steven Senne - 25.mai.2017/Associated Press
    O presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, participa de evento na Universidade Harvard
    O presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, participa de evento na Universidade Harvard

    Na visão de analistas políticos e de parte dos eleitores do país, os tentáculos de Moscou estrangularam a campanha presidencial da democrata Hillary Clinton e pavimentaram a chegada inesperada de seu rival republicano, Donald Trump, à Casa Branca.

    Também ajudaram a sepultar de vez uma era que David Banks, autor que pesquisa a influência das redes sociais em eleições americanas na Universidade do Estado de Nova York, gostava de chamar de "lua de mel" entre o Vale do Silício e Washington.

    "Essas empresas de tecnologia nunca foram alvo de desconfiança, mesmo controlando grande parte de nossas vidas", diz Banks. "Mas agora está claro que as redes sociais têm um apetite voraz por dinheiro, o que levanta questões sobre o perigo que elas representam quando manifestam interesses políticos."

    Esses interesses, no caso, costumavam dar as caras na forma de doações polpudas ao Partido Democrata, defensor de uma agenda progressista que eles viam como uma extensão natural do liberalismo ensolarado da Califórnia.

    Empresários do Vale do Silício, por exemplo, sempre defenderam leis mais brandas de imigração. Nas últimas eleições, quase todos os cerca de R$ 26 milhões doados por trabalhadores do setor tecnológico foram para Hillary Clinton, enquanto Trump ficou com menos de R$ 1 milhão, segundo o site de monitoramento Crowdpac.

    Mas o escândalo do envolvimento russo no pleito parece ter virado de vez esse jogo.

    Executivos dessas empresas vêm perdendo prestígio entre progressistas e já vêm doando mais dinheiro a congressistas republicanos, movimento que analistas entendem como uma tentativa de barrar o esfoço, caro aos democratas, de regular a compra de anúncios e controlar a disseminação de notícias falsas pela internet.

    AMBIÇÕES POLÍTICAS

    "Os democratas estão furiosos com a maneira como o Facebook agiu durante as eleições", diz o analista político Franklin Foer. "A briga em torno dos anúncios russos vai causar muito estrago."

    Mark Zuckerberg, dono do Facebook que ensaiava se lançar à Casa Branca com uma série de viagens recentes pelos EUA, já sabe disso.

    "Estou convencido de que eles sabiam o que estava acontecendo durante as eleições, mas é a visão de mundo deles que permite isso", diz Foer. "A plataforma que inventaram se tornou campo de possibilidades infinitas para malfeitores. Virou algo selvagem e incontrolável, por isso eles estão vulneráveis."

    O ponto final dessa derrocada, aliás, passa por uma mudança de atitude. Na visão de outros pesquisadores, as ambições políticas de empresas de tecnologia serão relegadas a um segundo plano agora, enquanto o dinheiro deve falar bem mais alto.

    "Os executivos donos dessas firmas são, acima de tudo, empresários", diz Lawrence Norden, pesquisador da Universidade de Nova York, em sua sala no centro financeiro de Manhattan.

    "O público vê essas empresas de outro jeito. A dinâmica mudou, e há outro entendimento sobre como elas ganham dinheiro, em especial o modelo econômico criado em torno das 'fake news'. Quanto mais escandalosa uma história, mais cliques."

    Nesse ponto, as estratégias do Vale do Silício em Washington se voltam para manter a liberdade que permitiu o atual modelo de negócios, evitando que o governo, a exemplo de países europeus, feche o cerco contra eles.

    "Regulamentar é uma possibilidade, mas há muitas perguntas sem resposta", diz Lina Khan, pesquisadora da Universidade Yale. "O que se questiona é o domínio dessas empresas. Os eventos recentes deixaram a conversa mais séria."

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