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    Coreia do Norte leva vizinhos a reconsiderarem armas nucleares

    DAVID SANGER
    CHOE SANG-HUN
    MOTOKO RICH
    DO "NEW YORK TIMES"

    30/10/2017 02h00

    KCNA/Reuters
    Ditador norte-coreano Kim Jong-un examina míssil em foto divulgada por seu governo
    Ditador norte-coreano Kim Jong-un examina míssil em foto divulgada por seu governo

    A Coreia do Norte está correndo para produzir uma arma que seria capaz pela primeira vez de ameaçar cidades nos Estados Unidos, e seus vizinhos começaram a debater se necessitam desenvolver arsenais nucleares próprios.

    As capacidades cada vez mais desenvolvidas da Coreia do Norte perturbaram o cálculo militar na região, e crescem as dúvidas de que os Estados Unidos serão capazes de manter o gênio das armas nucleares preso na garrafa.

    Pela primeira vez em muitos anos, há um debate constante no Japão e na Coreia do Sul - em certas instâncias público, mas em geral privado —sobre a opção nuclear, propelido pela preocupação de que os Estados Unidos poderiam hesitar em sair em defesa de países aliados caso isso acarretasse o risco de um ataque por mísseis nucleares norte-coreanos a Los Angeles ou Washington.

    Na Coreia do Sul, pesquisas de opinião pública demonstram que 60% da população favorece a produção de armas nucleares. E quase 70% querem que os Estados Unidos reintroduzam as armas nucleares táticas para uso nos campos de batalha, retiradas do país um quarto de século atrás.

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    No Japão, a única nação a sofrer ataques nucleares, existe muito pouco apoio público às armas nucleares, mas diversos especialistas acreditam que essa situação possa se reverter rapidamente caso as duas Coreia s passem a contar com arsenais nucleares.

    O primeiro-ministro Shinzo Abe vem propondo um reforço das forças armadas, contra a ameaça norte-coreana, e o Japão conta com estoques de material atômico suficientes para produzir até seis mil armas. No domingo, Abe conquistou maioria decisiva nas eleições legislativas japonesas, o que alimenta sua esperança de reformar a constituição pacifista de seu país.

    O cálculo brutal sobre como responder à Coreia do Norte vem acontecendo em uma região na qual diversos países contam com os materiais, a tecnologia, o conhecimento especializado e o dinheiro para produzir armas nucleares.

    Além da Coreia do Sul e do Japão, já há debate em curso na Austrália, Mianmar, Taiwan e Vietnã sobre se faz sentido continuar rejeitando as armas nucleares caso outros países se equipem com elas - o que reforça o medo de que a Coreia do Norte possa causar uma reação em cadeia sob a qual país após país se sentiria ameaçado e assim construiria a bomba.

    Em entrevista recente, Henry Kissinger, um dos poucos estrategistas nucleares dos dias iniciais da guerra fria que ainda sobrevive, disse que tinha pouca dúvida sobre a direção em que as coisas estavam se encaminhando.

    "Se eles continuarem a ter armas nucleares", ele disse sobre o Coreia do Norte, "elas se espalharão pelo resto da Ásia".

    "Não há como a Coreia do Norte ser o único país coreano do planeta a ter armas nucleares sem que os sul-coreanos tentem acompanhá-la. E o Japão tampouco assistirá sem reagir", ele acrescentou. "Assim, portanto, estamos falando de proliferação nuclear".

    Temores como esse já haviam sido discutidos no passado, na Ásia e em outras regiões, sem se materializarem, e o consenso mundial contra a difusão das armas nucleares talvez seja ainda mais forte hoje do que no passado.

    Mas a Coreia do Norte está testando o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos - o compromisso norte-americano de defender os países aliados com armas nucleares, caso necessário - de uma maneira que país algum fez em décadas. Medos semelhantes de abandono diante do crescente arsenal da União Soviética levaram o Reino Unido e a França a desenvolver armas nucleares nos anos 50.

    O presidente Donald Trump, que parte sexta-feira para uma visita à Ásia, intensificou a insegurança na região. Durante sua campanha presidencial, ele falou abertamente sobre permitir que Japão e Coreia do Sul construam armas nucleares, e argumentou que eles deveriam contribuir com mais dinheiro para o sustento das bases militares norte-americanas em seus territórios.

    "Chegará um ponto em que não podermos mais manter essa situação", ele disse ao "New York Times" em março de 2016. Os acontecimentos, ele insistiu, estavam levando os dois países a pensar em desenvolver arsenais nucleares próprios, de qualquer forma.

    Trump não mencionou essa possibilidade em público desde que assumiu. Mas abalou a região ao usar retórica belicosa com relação à Coreia do Norte e descartar negociações como "perda de tempo".

    Em Seul e Tóquio, muita gente já concluiu que a Coreia do Norte manterá seu arsenal nuclear - porque o custo de deter o programa de armas do país será grande demais - e por isso está ponderando suas opções.

    CAPACIDADE

    Muito antes que a Coreia do Norte detonasse seu primeiro aparato atômico de teste, diversos dos países vizinhos já haviam estudado secretamente a opção nuclear.

    O Japão considerou brevemente a criação de um arsenal nuclear "defensivo" nos anos 60, apesar de sua constituição pacifista. A Coreia do Sul por duas vezes lançou programas de desenvolvimento de uma bomba nuclear, nos anos 70 e nos anos 80, e nas duas vezes recuou, sob pressão dos Estados Unidos. Até mesmo Taiwan conduziu um programa nuclear clandestino antes que os Estados Unidos interviessem para cancelá-lo.

    Hoje, não há questão de que Coreia do Sul e Japão dispõem dos materiais e conhecimentos especializados para construir uma arma nuclear.

    Tudo que os impede são os sentimentos políticos e o risco de sanções internacionais. Os dois países assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear, mas não está claro como os demais signatários puniriam duas das maiores economias do mundo caso elas violem o acordo.

    A Coreia do Sul tem 24 reatores nucleares e um grande estoque de combustível nuclear gasto do qual poderia extrair plutônio - o suficiente para mais de 4,3 mil bombas, de acordo com um estudo conduzido por Charles Ferguson, presidente da Federação de Cientistas Americanos, em 2015.

    O Japão no passado prometeu que jamais estocaria mais combustível nuclear gasto do que seria capaz de queimar. Mas jamais completou a reciclagem necessária e tem 10 toneladas de plutônio armazenadas no país e mais 37 toneladas armazenadas no exterior.

    "Lembramos sempre os japoneses de seu compromisso", disse Ernest Moniz, presidente-executivo da Nuclear Threat Initiative e secretário da Energia no governo Obama, apontando que demoraria anos, se não décadas, para que o Japão consumisse seu material físsil, porque quase todas as usinas nucleares do país estão fora de linha desde o acidente de Fukushima, em 2011.

    A Coreia do Sul pode estar em situação ainda mais favorável, porque conta com uma linha de mísseis avançados capazes de carregar ogivas convencionais. Em 2004, o governo do país revelou que seus cientistas haviam trabalho experimentalmente no reprocessamento e enriquecimento de material nuclear sem primeiro informar a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), tal como requer o tratado de não proliferação.

    "Se decidirmos agir por conta própria e mobilizarmos nossos recursos, podemos construir armas nucleares em seis meses", disse Suh Kune-yull, professor de engenharia nuclear na Universidade Nacional de Seul. "A questão é se o presidente tem a vontade política para tanto".

    APELO POR ARMAS

    O presidente Moon Jae-in vem sendo firme em sua oposição às armas nucleares. Ele insiste em que construí-las, ou permitir que os Estados Unidos voltem a armazenar armas nucleares táticas na Coreia do Sul, tornaria ainda mais difícil convencer os norte-coreanos a que abandonem seu arsenal.

    Ainda que os índices de aprovação a Moon venham sendo bem altos desde sua eleição, em maio, a opinião dele sobre as armas nucleares está se tornando cada vez mais minoritária.

    Os apelos pelo desenvolvimento de armas nucleares costumavam ser minimizados como uma causa que apelava apenas à minoria nacionalista sul-coreana. Mas isso mudou. Agora as pessoas muitas vezes se queixam de que a Coreia do Sul não pode mais depender dos Estados Unidos, que protegeram o país por sete décadas.

    O partido Liberdade Coreia, de oposição, apelou aos norte-americanos pela reintrodução de armas nucleares táticas na Coreia do Sul, em agosto, depois que a Coreia do Norte testou um míssil balístico intercontinental capaz de atingir o território continental dos Estados Unidos.

    "Se o Conselho da Segurança da ONU não consegue controlar a Coreia do Norte com suas sanções, não nos resta opção a não ser abandonarmos o Tratado de Não Proliferação", disse Won Yoo-chul, um dos líderes do partido, em setembro.

    Dado o fracasso das sanções, ameaças e negociações em deter os norte-coreanos, os sul-coreanos estão cada vez mais convencidos de que o vizinho ao norte jamais abrirá mão de suas armas nucleares. Mas também se opõem a arriscar uma guerra, com a opção por uma solução militar.

    A maioria deles acredita que o governo Trump, apesar da retórica dura, terminará por aceitar as armas nucleares norte-coreanas, talvez negociando um congelamento que permitiria que a Coreia do Norte mantivesse um pequeno arsenal. E muita gente teme que isso significaria dar aos norte-coreanos a arma definitiva de chantagem - e uma forma de manter os Estados Unidos sob controle.

    "O motivo para a Coreia do Norte esteja desenvolvendo uma bomba de hidrogênio e mísseis intercontinentais não é ir à guerra com os Estados Unidos", disse Cheong Seong-chang, analista do Instituto Sejong, perto de Seul. "É impedir que os norte-americanos intervenham em escaramuças armadas ou em um conflito militar mais amplo na península coreana".

    Quanto mais a Coreia do Norte se aproxima de demonstrar que é capaz de atacar os Estados Unidos, mais nervosos os sul-coreanos se sentem com a possibilidade de se verem abandonados. Há quem questione se Washington correrá o risco de ver uma cidade dos Estados Unidos destruída como resposta a uma intervenção militar na Coreia, por exemplo caso os norte-coreanos ocupem uma ilha da Coreia do Sul, uma operação que as forças armadas do país já ensaiaram.

    Muita gente na Coreia do Sul acredita que a solução seja uma força nuclear dissuasória própria.

    "Se não respondermos com nossa dissuasão nuclear, de alguma espécie, nosso povo será refém atômico da Coreia do Norte", disse Cheon Seong-whun, antigo secretário de segurança estratégica da presidência sul-coreana.

    DEBATE CAUTELOSO

    A discussão é mais discreta no Japão do que na Coreia do Sul, o que não surpreende depois de 70 anos de esforços de educação pública sobre os horrores dos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki.

    Mas o Japão vem considerando periodicamente o desenvolvimento de armas nucleares, a cada década desde os anos 60.

    Em 2002, um importante assessor do então primeiro-ministro Junichiro Koizumi, causou furor ao dar a entender que o Japão poderia um dia abandonar sua política de jamais produzir, deter ou permitir armas nucleares em seu território. A Coreia do Norte reabriu essa questão.

    O público japonês em geral se opõe a armas nucleares. Pesquisas de opinião pública indicam que apenas 10% dos japoneses apoiam o desenvolvimento de armas nucleares.
    Mas o relacionamento entre Japão e Coreia do Sul é difícil há muito tempo, e caso Seul se arme, esses números podem mudar.

    Alguns analistas dizem que o debate visa a obter garantias adicionais de Washington. "Sempre fazemos o mesmo quando nos sentimos um pouco incomodados quanto à credibilidade da dissuasão nuclear norte-americana", disse Narushige Michishita, professor do Instituto Nacional de Pós-Graduação em Estudos Políticos de Tóquio.

    Tobias Harris, analista de assuntos japoneses na Teneo Intelligence, uma consultoria de risco político, disse que o Japão repensaria sua posição sobre as armas nucleares caso suspeite que os Estados Unidos o abandonarão.

    "Estamos em terra incógnita, no que tange a isso", ele disse. "É difícil saber exatamente qual seria o limiar que levaria a opinião pública japonesa a mudar de posição, caso cruzado".

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

    Edição impressa
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