• Mundo

    Thursday, 23-Nov-2017 05:20:42 BRST

    Governo Trump

    Investigação sobre seus negócios é a maior ameaça a Trump

    TIMOTHY L. O'BRIEN
    DA BLOOMBERG

    31/10/2017 17h25

    Andrew Harnik/Associated Press
    Former Trump Campaign Chairman Paul Manafort, left, leaves his home in Alexandria, Va., Monday, Oct. 30, 2017, in Washington. Manafort, and a former business associate, Rick Gates, have been told to surrender to federal authorities Monday, according to reports and a person familiar with the matter. (AP Photo/Andrew Harnik) ORG XMIT: DCAH102
    Paul Manafort deixa sua casa em Alexandria, Virgínia, após se entregar ao FBI

    O procurador especial Robert Mueller revelou na segunda-feira (30) seu primeiro indiciamento, no inquérito que está conduzindo sobre possível conluio entre Donald Trump, sua equipe de campanha e a Rússia, apresentando acusações federais por fraude contra Paul Manafort, consultor político internacional que foi diretor da campanha de Trump e cujos negócios incluem trabalho para aliados do Kremlin.

    Em um indiciamento de 31 páginas, Manafort e um de seus sócios de negócios, Rick Gates, foram acusados de diversos crimes financeiros ocorridos entre 2006 e 2016, entre os quais lavagem de dinheiro, fraude tributária, pagamentos não declarados recebidos de empresas estrangeiras, e de não terem se registrado (nos Estados Unidos] como agentes do governo da Ucrânia. Como o indiciamento mostra, em detalhes reveladores, que Manafort "conspirou para fraudar os Estados Unidos"(de acordo com a rede de notícias CNN, Manafort e Gates se declararam inocentes, na audiência de instrução).

    O que o indiciamento não fez (pelo menos até o momento, já que novas acusações contra Manafort podem ser incluídas mais tarde), foi colocar o presidente dos Estados Unidos em perigo judicial imediato. Assim, todos os democratas, críticos de Trump e adeptos do hashtag ImpeachTrump que estão celebrando alegremente o indiciamento de Manafort como o dia do acerto do contas deveriam relaxar. A hora ainda não chegou.

    Vale mencionar que o trabalho de Manafort na campanha de Trump não é mencionado no indiciamento, ainda que declarações que ele fez durante seus três meses no comando da campanha, em 2016, sejam citadas. Nesse contexto, as maracutaias financeiras de Manafort na Europa Oriental e seus métodos divertidos de ocultar pagamentos que não desejava declarar (US$ 655 mil em paisagismo, US$ 849 mil em roupas) ainda não criam um elo com o Salão Oval.

    Manafort além disso não é alguém com quem Trump deva estar muito preocupado. Sim, o indiciamento dá a Mueller e sua equipe do Departamento da Justiça uma alavanca para extrair mais informações de Manafort sobre Trump. Mas, se considerarmos que o inquérito gira em torno de um conluio com a Rússia para inclinar a eleição de 2016 em favor de Trump, bem, quanto a isso o presidente está muito menos exposto. Conluio não é crime sob as leis federais dos Estados Unidos (ainda que certas atividades de campanha eleitoral relacionadas a conluios o sejam). Ele também seria capaz de resistir a uma batalha sobre conluio no tribunal da opinião pública, especialmente se considerarmos o quanto sua base é dedicada.

    Mas Trump tem outros motivos para preocupação, porque o indiciamento de Manafort talvez represente uma indicação sobre o tipo de acusação que Mueller pode um dia apresentar contra o presidente —crimes como lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, expostos aos olhos da nação em detalhes dolorosos.

    A equipe de Trump está promovendo a ideia de que as transações nebulosas de Manafort são problema só dele, mas também o retrata como um típico associado do presidente. Trump nunca gostou de respeitar regras, e ao longo dos anos fez negócios com diversos criminosos de carreira, como Felix Sater, do Bayrock Group. Sater, que imigrou da antiga União Soviética para os Estados Unidos, tem elos com o crime organizado e conexões com a Rússia, e isso tudo certamente está no radar de Mueller.

    Assista ao vídeo

    Que Mueller siga a trilha do dinheiro é o que Trump mais teme, no inquérito sobre a Rússia, e não a acusação de conluio. Uma investigação sobre seu histórico financeiro e de negócios, bem como sobre os negócios de membros de sua família, como seu genro Jared Kushner e seus três filhos mais velhos —Donald Jr., Ivanka e Eric— é ameaça maior do que quase qualquer outra coisa que Mueller possa estar considerando.

    Desde antes da posse de Trump, Kushner vem correndo para obter financiamento para o problemático projeto 666 Fifth Avenue, um arranha-céu em Manhattan. Seus contatos incluíram investidores chineses, e ele se reuniu com um conhecido banqueiro russo no mesmo período (embora negue ter discutido negócios com o russo). Mueller aparentemente tem Kushner em foco como parte de sua investigação.

    Um barômetro de o quanto tudo isso preocupa Trump é, como sempre, o Twitter. Trump vem promovendo sua campanha contra a mídia e os investigadores no Twitter há mais de uma semana, tentando mudar o foco, dele e da Rússia para a "Malévola Hillary" e os muitos negócios escusos em que ele a acusa de estar envolvida.

    Isso se deve em parte à recente revelação de que o infame dossiê Steele, que estuda possíveis conflitos de interesse de Trump com relação à Rússia, foi bancado pelos democratas, fato conhecido há cerca de um ano.

    Trump explorou a notícia para sugerir que toda a investigação sobre a Rússia surgiu por conta do dossiê e que, assim, ela não passa de uma "caça às bruxas" orquestrada pelos democratas.

    O indiciamento apresentado por Mueller, assim como a maior parte dos fatos que cercam o inquérito sobre a Rússia, põe fim à ideia de que o dossiê Steele serve como única base base aos investigadores e aos agentes dos serviços de inteligência que estudam as conexões entre Trump e a Rússia. Fica claro que os investigadores estão seguindo diversas trilhas.

    Trump (e fiéis escudeiros como Roger Stone e Sebastian Gorka) partiram para a ofensiva freneticamente, neste final de semana no Twitter, depois que a CNN anunciou na noite de sexta-feira que Mueller estava a ponto de apresentar acusações contra alguém na órbita de Trump.

    Isso se estendeu até a manhã de segunda-feira, quando surgiu a notícia sobre o indiciamento de Manafort. Trump tuitou que "desculpe, mas isso aconteceu anos atrás, antes que Paul Manafort fosse parte da campanha de Trump. Porque a Malévola Hillary e os democratas não são o foco???? E além disso, não houve conluio".

    É útil para o presidente reconduzir o foco ao "conluio", e desviá-lo de outros assuntos como "obstrução" ou "fraude", mas ele não estaria usando tanto o Twitter se não estivesse seriamente preocupado. E o presidente talvez esteja furioso porque, ao contemplar o indiciamento de Manafort, ele se preocupa com a possibilidade de que esteja se olhando no espelho.

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

    Trump emparedado

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2017