• Mundo

    Sunday, 19-Nov-2017 02:48:15 BRST
    BBC

    Quem é o príncipe multimilionário que já trocou farpas com Donald Trump e foi preso por corrupção na Arábia Saudita

    DE SÃO PAULO

    05/11/2017 14h00

    Amer Hilabi-11.mai.2017/AFP
    O príncipe saudita Alwaleed bin Talal foi um dos presos
    O príncipe saudita Alwaleed bin Talal foi um dos presos

    O herdeiro do trono da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, de 32 anos, transformou-se numa ameaça não apenas para setores mais conservadores como também para a elite política e empresarial do reino comandado por Salman desde 2015.

    O novo comitê anticorrupção liderado pelo príncipe Salman ordenou, no sábado à noite, a prisão de 11 príncipes, quatro ministros e dezenas de ex-ministros.

    Entre os detidos está o príncipe Alwaleed bin Talal, um multimilionário que investe na Apple e no Twitter e é considerado um dos homens mais ricos do mundo.

    A revista "Forbes" estima em US$ 17 bilhões (R$ 56,2 bi) a fortuna de Bin Talal, que também é dono do sofisticado hotel Savoy, em Londres.

    Depois da notícia de sua prisão, as ações de sua empresa de investimentos, a Kingdom Holding - uma das principais do país -, caíram 9,9% na bolsa de valores saudita.

    ESTRUTURAS ABALADAS

    Frank Gardner, correspondente da BBC para assuntos de segurança, descreveu a iniciativa da agência de anticorrupção como "uma jogada atrevida" do príncipe Salman que vai abalar as estruturas sauditas.

    "Com uma jogada atrevida do príncipe herdeiro, de 32 anos, se livrou de todos os obstáculos para o controle total de um dos principais produtores de petróleo do mundo que abriga os lugares mais sagrados do Islã", destacou Gardner.

    "Apresentadas ao mundo como parte de uma campanha anticorrupção, as prisões dos príncipes, ministros e do multimilionário príncipe Alwaleed bin Talal sacudiram os sauditas, pouco acostumados a mudanças", completou.

    HOTEL E IATE DE TRUMP

    Apesar do número de detidos, foi a prisão do multimilionário príncipe Alwaleed que chamou a atenção.

    Por meio da empresa de investimentos, ele tinha ações em diferentes segmentos. Investia no banco Citigroup, em empresas do conglomerado de comunicação de Rupert Murdoch, na rede de hotéis Four Seasons, no serviço de transporte Lyft, além do Twitter e da Apple.

    O príncipe também comprou um hotel e um iate de Donald Trump. Mas os dois trocaram farpas pelo Twitter em 2015, quando o americano decidiu disputar a presidência dos EUA.

    Na ocasião, Alwaleed escreveu que Trump era "uma desgraça" não apenas para o Partido Republicano como também para todos os EUA.

    "Retire sua candidatura presidencial porque nunca vai ganhar", escreveu o príncipe.

    Trump, que nasceu milionário, respondeu criticando a fortuna do saudita. "O tolo príncipe Alwaleed quer controlar políticos americanos com o dinheiro do papai. Não fazer isso quando eu for eleito", escreveu Trump em 2015.

    No entanto, depois que Trump ganhou a disputa presidencial, em novembro do ano passado, o príncipe usou o Twitter para parabenizar o americano.

    Fayez Nureldine/AFP
    O príncipe herdeiro saudita Mohamed bin Salman
    O príncipe herdeiro saudita Mohamed bin Salman

    REFORMA ACELERADA

    O novo comitê anticorrupção saudita tem poder para ordenar prisões e proibir a saída de suspeitos do país.

    A investigações, segundo a rede saudita de televisão al Arabiya, dizem respeito à inundações em Jida em 2009 e à Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers) - vírus observado pela primeira vez, em 2012, na Arábia Saudita, onde um surto deixou centenas de mortos e mais de mil infectados.

    Analistas, contudo, encaram as prisões como uma tentativa do príncipe herdeiro de fortalecer a própria base de poder.

    Mohammed bin Salman está empenhado em modernizar a Arábia Saudita.

    "O príncipe herdeiro é bastante popular, especialmente entre os sauditas mais jovens, mas muitos cidadãos mais velhos e conservadores pensam que ele está movendo rápido demais", avalia Gardner.

    As mudanças são motivadas, principalmente, pela queda no preço do barril de petróleo, que reduziu à metade as receitas do país e agora molda uma abertura social e econômica.

    A Arábia Saudita, por exemplo, é um dos países mais rígidos do mundo em termos de segregação de gênero e há muitas atividades cotidianas que mulheres simplesmente não podem fazer ou precisam de autorização do pai ou marido - elas precisam de permissão de um homem para tirar um passaporte ou sair do país.

    Essas restrições se devem ao sistema político e religioso vigente. O wahabismo, uma interpretação mais rígida de lei islâmica, é a fé dominante na Arábia Saudita há dois séculos.

    Mas, recentemente, o príncipe concedeu às mulheres o direito de dirigir e de frequentar arenas esportivas. Ele também defendeu a volta do "islã moderado" como chave para modernizar o país e prometeu acabar com "vestígios de extremismo".

    FORÇAS DE SEGURANÇA

    No sábado, além das prisões, o rei saudita Salman bin Abdulaziz Al Saud também ordenou mudanças no comando da guarda nacional e das Forças Armadas.

    O ministro responsável pela guarda nacional, príncipe Miteb bin Abdullah, e o almirante Abdullah bin Sultan bin Mohammed Al-Sultan foram substituídos sem nenhuma explicação oficial.

    O príncipe Miteb é filho do falecido rei Abdullah e já tinha sido cotado como um possível sucessor do trono saudita.

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2017