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    Como Trump deixou de ser o herói da extrema direita europeia

    ISHAAN THAROOR
    DO "WASHINGTON POST"

    10/11/2017 13h13

    Um ano atrás, as democracias ocidentais estavam cambaleando depois de sofrerem seu maior choque em décadas. Os eleitores dos Estados Unidos haviam acabado de transformar um astro de reality show na pessoa mais poderosa do planeta.

    Um candidato que fez campanha com uma plataforma divisiva que atraiu aplausos dos nacionalistas brancos passaria a liderar a mais venerável democracia do planeta. Um neófito hostil ao establishment político em breve estaria no comando do arsenal nuclear americano. Os principais estadistas europeus mal conseguiam esconder sua estupefação.

    Entre as pessoas que celebraram a vitória estavam os membros da extrema direita europeia. O improvável triunfo do presidente Trump representou para eles um dramático repúdio ao status quo liberal que sempre detestaram. O populismo de direita de Trump era uma validação de suas agendas ultranacionalistas, anti-imigração e antimuçulmanas. Diversos partidos de extrema direita europeus começaram a se preparar para eleições nacionais em 2017 encarando Trump como um arauto do que estava por vir.

    "O mundo deles está desmoronando", tuitou Florian Philippot, então vice-presidente da Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês, um dia depois da vitória eleitoral de Trump. "O nosso está sendo construído".

    Um ano depois, no entanto, o establishment não exatamente desmoronou, na Europa Ocidental. Partidos de extrema-direita conquistaram frações sem precedentes dos votos em eleições na Holanda, França e Alemanha, mas não estão mais próximos de tomar o poder —e possivelmente já esbarraram nos limites de seu potencial político. Além disso, os últimos 12 meses também viram muitos dos políticos europeus que exultaram com a vitória de Trump agora tentando se distanciar de um presidente norte-americano que se provou chocantemente impopular dos dois lados do Atlântico.

    Geert Wilder, político holandês cuja causa principal é o combate à imigração, cobriu Trump de elogios depois de sua vitória, mas foi muito mais contido no período que precedeu a eleição em seu país, em março. Houve algum medo inicial de que seu Partido da Liberdade, inimigo do islamismo e da União Europeia, saísse vitorioso, mas ele terminou derrotado pelo partido governista de centro-direita, que se posicionou como um baluarte contra o avanço das ideias de Trump.

    "Os eleitores agora encaram de modo negativo as medidas tomadas pelo presidente Trump", disse um pesquisador de opinião pública holandês à agência de notícias Bloomberg na metade de março.

    Na França, Emmanuel Macron, 39, um centrista que se posicionou fora do espectro político tradicional, esmagou a Frente Nacional de Marine Le Pen na eleição presidencial.

    O partido de extrema-direita francês teve seu melhor desempenho eleitoral de todos os tempos, mas continuou a ser firmemente minoritário. Da mesma forma que aconteceu na eleição presidencial francesa de 2002, quando o pai de Marine Le Pen chegou ao segundo turno, a constelação de partidos tradicionais franceses, conservadores e de esquerda igualmente, declarou que uma vitória de Le Pen seria ameaça à república, e endossou Macron. E o ímpeto que a vitória de Trump pode ter dado a Le Pen se dissipou há muito tempo.

    E Trump já não é tão herói para a extrema direita francesa. Em recente entrevista ao HuffPost, Cécile Alduy, especialista em política francesa da Universidade Stanford, avaliou que o ataque de mísseis lançado por Trump contra o regime do presidente sírio Bashar Assad e a visita amistosa que fez a Macron alguns meses atrás devem ter conquistado pouca simpatia da parte da base da Frente Nacional.

    "Desde que se tornou presidente, Trump decepcionou quanto a algumas questões —entre as quais o ataque à Síria. O partido de Marine Le Pen se opõe a intervenções, apoia Assad, e sua política é de que os países não devem interferir nos assuntos alheios", disse Alduy.

    Ela acrescentou que "também existe uma sensação de que Trump, apesar de todas as suas bravatas, foi seduzido e acalmado por um presidente de 39 anos de idade. Isso abala a imagem dele junto aos eleitores da Frente Nacional".

    Enquanto isso, disputas entre facções abalaram o partido. Philippot, que se vangloriou do "desmoronamento" da ordem liberal, foi alijado da Frente Nacional e forçado a deixá-la em setembro. E continua a haver especulação quanto à capacidade de liderança de Le Pen, depois de duas campanhas presidenciais fracassadas.

    Na Alemanha, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), causou choque no sistema político ao chegar ao Bundestag (câmara baixa do legislativo do país) como terceira maior bancada, depois da eleição de setembro. Os críticos do AfD, direitista e xenófobo, o vinculam ao sombrio passado nazista do país. Mas até mesmo os líderes da agremiação veem o comportamento de Trump como ocasionalmente inaceitável.

    A resposta vacilante de Trump às manifestações nacionalistas brancas em Charlottesville, Virgínia, foi "completamente desnecessária", disse Alice Weidel, uma das líderes do AfD, quando perguntada a respeito em agosto por jornalistas alemães. Ela também afirmou que Trump "deveria se concentrar mais na política pública e menos nos tuites e no Twitter", acrescentando que "se eu pudesse escolher, desejaria que Donald Trump tivesse mais foco... cuidasse mais de manter sua casa em ordem e se devotasse mais às suas responsabilidades de governo".

    Mas embora os atrativos de Trump possam ter se reduzido devido ao caos de seus primeiros meses de mandato, a influência da extrema-direita na Europa só cresceu. O avanço do populismo que se opõe às elites tradicionais —tanto na direita quanto na esquerda— está mudando a política no continente. E os partidos tradicionais de centro-direita estão se inclinando mais para a direita, adotando parte das plataformas nacionalistas linha dura dos xenófobos de ultradireita. Na Áustria, por exemplo, o Partido da Liberdade, de extrema-direita, está participando de negociações para fazer parte de um novo governo de coalizão.

    Cas Mudde, especialista em populismo europeu na Universidade da Geórgia, alerta que essa acomodação pode resultar no fim dos partidos tradicionais, mencionando a guerra interna que vem consumindo o Partido Republicano dos Estados Unidos.

    "Ao levar suas políticas mais e mais para a direita, [os partidos de centro-direita] só terão uma escolha: manter a fidelidade para com seu cerne ideológico e enfrentar a ira do eleitorado radicalizado, ou dar aos eleitores o que eles querem e se tornarem partidos de direita radical", escreveu Mudde em artigo para o jornal "Guardian". "Podemos ver como essa situação se desenrola, com base no que vem acontecendo nos Estados Unidos. É imperativo que os partidos tradicionais da direita europeia não cometam o mesmo erro".

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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