• Opinião

    Monday, 29-Apr-2024 14:05:11 -03

    Editorial: Venezuela no abismo

    17/02/2014 03h30

    O saldo de três mortos a tiros e dezenas de feridos durante protestos estudantis na semana passada são mais uma evidência de que o governo Nicolás Maduro aposta na repressão para debelar a crescente insatisfação na Venezuela, imersa no desabastecimento crônico, na inflação galopante e na insegurança generalizada.

    A passeata reuniu milhares de universitários no centro de Caracas e em outras cidades do país, no maior ato oposicionista desde a eleição de Maduro, há dez meses.

    Estudantes pretendiam ser recebidos pela procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz. Reivindicavam a liberação de três colegas que, durante protestos anteriores, haviam sido presos, levados a um quartel e depois transferidos a um presídio a 500 km de distância.

    Irritados com a chefe do Ministério Público, que se recusava a recebê-los, manifestantes atacaram policiais e o prédio da instituição.

    A reação à condenável violência estudantil foi desproporcional. Imagens mostram que agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência) utilizaram armas de fogo e que os estudantes foram atacados também por "coletivos", organizações civis que apoiam a defesa armada da "revolução bolivariana".

    Fora das ruas, a atuação de Nicolás Maduro foi lamentável. O presidente justificou a truculência como resposta a um fantasioso "golpe de Estado planejado".

    O embate serviu ainda para tirar do ar o canal a cabo NTN24, que transmitia os confrontos ao vivo. Com isso, aumentou ainda mais o controle estatal sobre os meios de comunicação críticos ao governo, hoje praticamente reduzidos a um punhado de jornais impressos –entre os quais se destacam "El Universal" e "El Nacional".

    Eleito na esteira da morte de Hugo Chávez e tendo superado seu adversário por apenas 1,6 ponto percentual, Maduro se mostra incapaz de enfrentar a situação econômica extremamente delicada. A inflação do ano passado chegou a 56%, estimulada pelo desabastecimento de produtos básicos.

    Sem coragem para enfrentar os gargalos da Venezuela, Maduro aprofunda os erros de Chávez, com uma política econômica suicida e uma dependência cada vez maior das Forças Armadas.

    Protestos oposicionistas, intolerância política e dificuldades econômicas empurram a Venezuela para o fundo de um abismo que ela própria criou –e do qual não sabe como escapar.

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2024