• Opinião

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    Flavio Flores da Cunha Bierrenbach: Palestina

    06/07/2014 02h00

    Ainda que não exista um povo palestino, o pensamento politicamente correto, que não costuma frequentar a razão, adotou a expressão

    Não existe povo palestino. A Palestina é uma região geográfica, assim como a Patagônia ou o Pantanal. Seu nome vem do Império Romano. Era a forma como as legiões romanas se referiam aos sítios áridos do Oriente Médio, à estreita faixa de terra que se estende da franja do Mediterrâneo ao mar da Galileia e ao Mar Morto, delimitada ao norte pelas colinas de Golã e pelos montes do Líbano, e ao sul pelo deserto do Sinai e pelo golfo de Eilat. Antes, o pequeno território era conhecido pelos nomes atribuídos, desde tempos bíblicos, às suas sub-regiões, como a Galileia, a Judeia e a Samaria.

    A expressão "povo palestino" é nova. Fruto de jogada magistral de marketing de Yasser Arafat, foi incorporada aos poucos e acabou digerida a contragosto por Israel, na vã esperança da paz, no amplo contexto dos acordos de Oslo, do espetáculo da entrega simultânea dos prêmios Nobel da Paz e do cansaço.

    O preço tem sido caro, pois, embora seja fácil comprovar com argumentos históricos, geográficos, antropológicos, literários e até religiosos, a inexistência de um povo palestino, o pensamento único politicamente correto, que não costuma frequentar a razão, adotou-a.

    Entretanto, sob qualquer critério utilizado pelas ciências sociais, não se identificará nos agrupamentos humanos agora chamados de "povo palestino" característica capaz de incorporar conceitos elementares aplicados à tentativa racional de definir o que seja um povo.

    Como o Estado moderno afirma que todo poder vem do povo e em seu nome é exercido, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) não demorou a perceber que a utilização política da expressão "povo palestino" significaria a melhor fonte possível de legitimação do poder.

    Entretanto, não faz muito tempo, quando seus integrantes se dedicavam ao ofício de explodir aviões de passageiros, ninguém se atrevia a usá-la; naquela época, isso soaria estranho até à ética peculiar do Fatah. Expulsa da Jordânia e inadaptável a qualquer outro país árabe, a organização de Yasser Arafat buscava apenas um território para exercer poder político. Nele, abrigaria grupos díspares e dispersos (Jihad, Hizbullah, Hamas), cujo singular fator de unidade era e é o ódio a Israel.

    O antissemitismo é a mais antiga, renitente e perversa forma de preconceito. Foi matriz da diáspora, da Inquisição e do genocídio. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando sobreviventes do holocausto migraram para a Palestina, unindo-se aos milhares de judeus que já residiam lá, e com a instituição do Estado de Israel, o antissemitismo vestiu uma camuflagem conveniente; apenas mudou de nome. Passou a chamar-se antissionismo.

    Varrer Israel do mapa era um artigo programático do estatuto da OLP. Aniquilar os judeus, a "solução final" engendrada por Hitler, e executada em Auschwitz, Buchenwald, Dachau e alhures, continua a ser o objetivo de pessoas, grupos, organizações terroristas e até de Estados.

    A Constituição diz que o Brasil repudia o terrorismo, o racismo, preconceitos e discriminações. Seja nas Nações Unidas, seja em qualquer foro, mais do que identidades ideológicas fugazes ou laços pessoais oportunistas, são esses fatos irrefutáveis que devem ser levados em consideração na adoção de qualquer posição oficial brasileira que diga respeito à região denominada Palestina.

    FLAVIO FLORES DA CUNHA BIERRENBACH, 74, é ministro aposentado do Superior Tribunal Militar

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