• Opinião

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    Aldo Cordeiro Sauda e Marcia Camargos: Bienal da destruição

    22/07/2014 02h00

    Jogar bola na praia é algo que todos já fizemos. Brincadeira saudável, atrai qualquer criança. Mas não será assim que as peladas à beira- -mar serão lembradas pela família Bakr. Foi em meio a uma delas que os irmãos Zakaria e Ahed, além de dois primos chamados Mohamed, morreram após um bombardeio de navios de guerra israelenses à costa da faixa de Gaza na última quarta-feira (16). Os meninos tinham entre 9 e 11 anos. Somam-se aos mais de 500 mortos da atual agressão orquestrada por Israel.

    A verdade é que a vida em Gaza nunca foi fácil, mas desde que os palestinos da região elegeram o Hamas, em 2006, o cotidiano tornou-se impossível. Assistimos à terceira guerra de Tel Aviv contra a faixa de Gaza, em meio a um cerco por ar, terra e mar que sufoca os palestinos há sete anos.

    Muito se fala sobre as ditaduras do Oriente Médio. Porém, quando experiências democráticas produzem governos antipáticos a Israel, passa a prevalecer a tese da "guerra ao terrorismo", que justifica qualquer ação, até mesmo uma campanha consciente de destruição por completo de uma sociedade.

    Segundo a Anistia Internacional, o bloqueio não somente impede a maioria da população de Gaza de sair ou exportar mercadorias, como permite apenas a importação bastante restrita de itens básicos. Não por acaso, materiais como cimento, madeira, canos, vidro, barras de aço, alumínio e peças de reposição são extremamente raros ou indisponíveis. Mas a par de insumos para a construção civil, a lista de proibições israelenses barra produtos tão perigosos quanto grão-de-bico, chá, macarrão, geleia, biscoitos, molho de tomate, quebra-cabeça, lápis e canetinhas de colorir.

    A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à política de sufocar Gaza, que se tornou um campo de concentração a céu aberto. De dois em dois anos, Israel bombardeia, invade e destrói o máximo possível da faixa. De acordo com o relatório Goldstone, produzido a pedido da Assembleia Geral da ONU, e de documentos de organizações internacionais de direitos humanos como a Human Rights Watch, destruir Gaza parece ter-se convertido em um dos objetivos preferenciais de Tel Aviv.

    Ao longo da incursão israelense de 2009, além de mais de 1.400 mortos e de dezenas de milhares de feridos, Israel destruiu ou danificou 58 mil casas, 280 escolas e creches (18 das quais foram inteiramente pulverizadas junto de seis prédios universitários), 1.500 fábricas e oficinas, as principais instalações de água e esgoto, 80% dos grãos armazenados e quase um quinto da terra cultivável. Os bombardeios israelenses resultaram em 600 mil toneladas de entulho, US$ 900 milhões em destruição e aproximadamente US$ 3,5 bilhões em prejuízo aos palestinos, segundo a Unctad, braço da Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento.

    Já em Israel, cuja destruição física em seu território custou em torno de US$ 15 milhões, segundo documento divulgado pelo Estado de Israel, os foguetes do Hamas, conforme a Anistia Internacional, danificaram "diversas casas de civis e outras estruturas, uma foi quase inteiramente destruída".

    Ainda segundo a entidade, "ao contrário das afirmações dos representantes israelenses sobre a utilização de 'escudos humanos', [...] não foram encontradas provas de que o Hamas ou que outros grupos armados locais utilizaram-se de civis para proteger objetivos militares dos ataques".

    O problema, explica o relatório, é que neste território de 360 km², com 1,8 milhões de habitantes, caracterizando uma das mais densas concentrações humanas do planeta, as instalações do Hamas e os guerrilheiros palestinos misturam-se naturalmente aos civis.

    A nova aventura israelense em Gaza certamente seguirá seus padrões de destruição bienal, a despeito das críticas que ecoam de todo o mundo. Resta saber se a repetida estratégia vai ter sucesso em minar a independência e a autodeterminação palestinas.

    ALDO CORDEIRO SAUDA é cientista político e MARCIA CAMARGOS, jornalista e escritora, tem pós-doutorado em história pela USP

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