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    Editorial: Nota madura

    02/03/2015 02h00

    Ainda que com anos de atraso e escondida sob cacoetes diplomáticos, é bem-vinda a mudança de tom do Brasil em relação à escalada autoritária na Venezuela.

    Ao afirmar, em nota publicada na terça-feira (24), que está preocupado com medidas "que afetam diretamente partidos políticos e representantes democraticamente eleitos", o Itamaraty enfim demonstra discordar da crescente perseguição a opositores no país vizinho. No caso mais recente, a prisão do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma.

    É patente a diferença em relação ao comunicado assinado pelo Brasil e pelos demais membros do Mercosul um ano atrás. Na época, o bloco transformou a onda de protestos oposicionistas em "ações criminosas de grupos violentos que querem disseminar a intolerância e o ódio", endossando, sem mais nem menos, o discurso maniqueísta do presidente Nicolás Maduro.

    Na atual agudização da crise, o Mercosul ainda não se manifestou, o que sugere uma cisão interna do grupo de países a respeito dos desmandos do aprendiz de caudilho.

    O Itamaraty, de todo modo, não ficou parado, e seu discurso em boa hora se descolou daquele reproduzido pelo PT. O partido da presidente Dilma Rousseff avaliza as pouco consistentes denúncias de golpe feitas por Maduro e prefere ignorar que a crise decorre de anos de política econômica suicida e do projeto autoritário chavista.

    Rompida essa barreira, o Brasil, respeitando a etiqueta internacional, deveria pressionar o governo venezuelano a assegurar que as eleições parlamentares no segundo semestre deste ano (sem data definida) transcorram da forma mais livre e democrática possível.

    Com a popularidade de Maduro rondando 22%, as fileiras chavistas decerto consideram desvirtuar o pleito. Não por acaso, José Mujica, líder esquerdista uruguaio e aliado de Maduro, manifestou preocupação com a possibilidade de um "golpe militar de esquerda".

    Embora o sistema de votação venezuelano seja confiável, as recentes campanhas eleitorais têm sido manchadas por mudanças casuísticas das regras do jogo e pelo abuso da máquina estatal.

    Se o Itamaraty atuar para impedir a repetição dessa rotina, terá dado um passo importante no sentido de mostrar que o compromisso do Brasil com a democracia está acima de adesões ideológicas.

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