• Opinião

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    TATA AMARAL

    O legado de Fernando Haddad foi positivo? SIM

    07/01/2017 02h00

    ATRAVESSANDO AS PONTES

    Sou uma amante da vida na cidade. Como cineasta, é a vida urbana que me inspira. Talvez porque tenha nascido e vivido até minha adolescência no centro de São Paulo.

    Estou falando dos anos 1960. Da sala do meu apartamento, assistia ao vaivém da rua pela porta envidraçada. Para mim, o dentro e o fora sempre representaram camadas da mesma cena. Nunca foram espaços antagônicos, embora expresse a tensão entre eles nos meus filmes.

    Caminhar era uma experiência cotidiana. A cidade era minha casa e cresci sem medo de seus habitantes. Foi nos anos 1980 que a coisa começou a pesar: os noticiários não paravam de exibir cenas de violência nas ruas. Entramos em guerra com o outro e o noticiário a amplificava.

    A população ocupava lugares cada vez mais distantes sem que o poder público se preocupasse com ela. Vimos nossas casas e a rua se transformarem em espaços antagônicos. As ruas foram dominadas por carros e, inclusive nas periferias, era perigoso estar nelas. O espaço público se converteu no lugar do abandono.

    Foi esse paradigma que o ex-prefeito Fernando Haddad ousou transformar quando propôs um projeto de cidade para as pessoas. Toda uma lógica de gestão foi invertida e seu resultado está de tal maneira incorporado ao nosso cotidiano que nem mesmo nos lembramos de que, há quatro anos, nossa experiência com a cidade era diferente.

    O alcance desse projeto é imenso e atingiu saúde, educação, moradia, políticas para as mulheres, para população de rua, para imigrantes; finanças públicas, tecnologia, ocupação do espaço público, dentre outras.

    Hoje, podemos escolher nosso ônibus num aplicativo e saber exatamente onde e que horas passa; os corredores diminuíram inacreditavelmente o tempo de deslocamento; usamos a bicicleta; sentamos em parklets e praças e, sobretudo, recuperamos a experiência de caminhar sem medo, através do programa Ruas Abertas, 29 delas espalhadas pela cidade, e da iluminação a LED nas periferias.

    O Carnaval de Rua e o Festival de Direitos Humanos são exemplos de ações culturais que proporcionam o convívio entre as pessoas. O Transcidadania e o Braços Abertos nos levam a um olhar amoroso para pessoas marginalizadas.

    Um marco inovador foi sua compreensão da importância do patrimônio imaterial para os laços afetivos das pessoas com sua cidade: o tombamento, reforma e reativação do Cine Caixa Belas Artes reconheceram o papel desta sala na tradição de lazer dos paulistanos.

    A criação da Spcine, empresa dedicada ao audiovisual paulistano, atendeu à mesma lógica. Em menos de dois anos, 20 salas de cinema com tecnologia de ponta foram construídas nos quatro cantos da cidade e proporcionaram acesso ao cinema a 285 mil pessoas.

    Ainda na área da cultura, incentivos aos grupos de teatro, dança, performance e grafite favoreceram nosso acesso a esta produção. A Lei de Fomento à Periferia cria a possibilidade da produção e difusão da cultura periférica.

    A gestão Haddad compreendeu algo que vivenciei ao realizar o filme "Antônia" (2006): a necessidade de atravessar as pontes físicas e simbólicas. Estas têm mão dupla e permitem o ir e vir, a troca cultural entre habitantes de distintas regiões. Permitem que os habitantes das periferias possam frequentar o centro não apenas para trabalhar.

    Esse sentimento positivo de pertencimento é ainda frágil e talvez possa ser abalado pela retomada dos paradigmas anteriores. Mas a experiência de uma cidade onde as pessoas são o foco das políticas públicas chegou para ficar.

    Valeu, Haddad!

    TATA AMARAL é cineasta. Dirigiu "Um Céu de Estrelas", "Através da Janela" e "Antônia". Seu filme "Hoje" venceu o prêmio de melhor filme do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2011

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