• Opinião

    Sunday, 19-May-2024 00:34:53 -03

    editorial

    Francisco e a pedofilia

    02/07/2017 02h00

    Dylan Martinez - 8.mar.2013/Reuters
    ORG XMIT: DJM117 A cross rests on a cardinal's cassock as he arrives for a meeting in the Synod Hall at the Vatican March 8, 2013. REUTERS/Dylan Martinez (VATICAN - Tags: RELIGION)
    Cardeal caminha pelo Vaticano

    O indiciamento do cardeal australiano George Pell sob acusação de crimes sexuais reacende dúvidas sobre a eficácia das ações conduzidas pelo papa Francisco para banir dos círculos eclesiásticos práticas como o abuso de menores.

    Pell é tesoureiro do Vaticano, o que equivale a dizer que se trata do terceiro homem na hierarquia da Santa Sé. Nega com veemência as acusações, que deverá refutar no próximo dia 18, quando se apresentar à corte de Melbourne.

    Três anos atrás, o prelado teve de se haver com testemunhos segundo os quais havia encoberto casos envolvendo padres de seu país natal, chegando a subornar uma vítima em troca de silêncio.

    O episódio coincidiu com o anúncio pelo papa da criação de um tribunal para julgar bispos acusados de condescendência ou omissão diante de relatos de agressões. A iniciativa respondia a um pleito da comissão de proteção de menores estabelecida pelo pontífice na época.

    Ocorre que o ímpeto purgador arrefeceu. Desde então, uma das vítimas de ataques que integravam o colegiado desligou-se do grupo, e a outra foi, tudo indica, constrangida a se licenciar por tempo indeterminado. Ambas se queixaram do ritmo das reformas que haviam ajudado a formular.

    Segundo noticiou a imprensa estrangeira, setores contrários ao comitê se articularam para desidratar seu orçamento. A resolução inicial de fazer reuniões fora do Vaticano teve de ser revista.

    Em paralelo, a igreja teria ministrado cursos de formação de bispos em que se dizia aos participantes "não ser necessariamente" dever deles reportar às autoridades policiais abusos de menores perpetrados por clérigos.

    De seu lado, Francisco despertou incertezas sobre o valor de face de sua propalada "tolerância zero" com a pedofilia quando, em 2015, nomeou um bispo chileno ligado a um caso de violência sexual.

    Além disso, tardou mais de dois anos em aceitar a renúncia de um bispo americano condenado em 2012 por acobertar um padre.

    Hábil em vender o ideal de uma igreja despojada, distante de sua opulência imemorial, o papa tem centrado homilias e trabalho pastoral no aceno a pobres e segmentos vulneráveis. A cada intervenção, conclama os pares a construir uma instituição mais atenta às agruras mundanas dos fiéis.

    Urge inscrever zelo de outro feitio na cultura eclesiástica, em caráter irrevogável: aquele que garantirá a investigação e posterior punição de criminosos que integrem os quadros da corporação.

    editoriais@grupofolha.com.br

    Edição impressa

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2024