• Opinião

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    MARCOS BUCKERIDGE

    Etanol brasileiro pode ajudar o mundo ante mudanças climáticas

    03/11/2017 08h00

    Joel Silva/Folhapress
    LUIZ ANTONIO,SP, BRASIL- 12-05--2017 : **ATENCAO NAO UTILIZAR SEM AUTORIZACAO DA FOTOGRAFIA*** Caminhao carregado com cana colhida mecanicaente, trafega em canavial proximo a usina Central Energetica Moreno na cidade de Luiz Antonio interior de Sao Paulo. Mecanizacao no corte de cana e crise no setor de usinas de producao de alcool e acucar, provoca mudancas na migracao de trabalhadores rurais no interior de Sao Paulo.. ( Foto: Joel Silva/Folhapress ) ***ESPECIAL*** ( ***EXCLUSIVO FOLHA***)
    Caminhão carregado com cana trafega em canavial no interior de São Paulo

    Mais uma vez o Brasil tem a chance de se tornar um país estratégico para o planeta. Um grupo de pesquisadores americanos, brasileiros e europeus acaba de publicar na revista "Nature Climate Change" o potencial brasileiro de produzir etanol e, com isso, auxiliar o planeta a enfrentar as mudanças climáticas globais.

    Os pesquisadores calculam que até 2045 o etanol brasileiro tem o potencial de substituir até 13,7% da gasolina mundial e evitar até em 5,6% as emissões de CO2 no planeta. Eles reportam que tudo isso pode ser feito por meio da expansão do plantio de cana no país sem utilizar áreas de preservação ou de produção de alimentos.

    Mais do que isso, esse cálculo considera, inclusive, o aumento na demanda de comida nas próximas décadas devido ao aumento populacional.

    As estimativas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU preveem que, se o mundo não se mobilizar em vários setores imediatamente, nós passaremos de 2oC (em relação ao que tivemos durante a Revolução Industrial) já em 2030.

    Isso terá consequências socioeconômicas drásticas em todo o planeta. Por isso, o potencial do Brasil em produzir bioenergia de forma sustentável é uma das medidas cruciais de adaptação para evitar o aumento na temperatura.

    O Brasil é o único país de mundo que melhor pode contribuir nessa área. A partir da década de 70 nos tornamos o país mais avançado do planeta na produção de energias renováveis. Tudo graças ao etanol.

    Desenvolvemos primeiro o chamado etanol de primeira geração (1G), que é o álcool produzido a partir da garapa. Aprendemos como transportar e como usar o álcool nos automóveis. Na última década, o investimento em pesquisa e tecnologia foi no etanol de segunda geração (2G), feito a partir do bagaço e da palha. Este tem potencial de dobrar a produção de etanol no Brasil, mas ainda estamos no meio do processo de aprendizado de como fazer.

    Já há etanol 2G no Brasil, mas temos como melhorar muito, com pesquisa básica e desenvolvimento tecnológico. Temos ainda como aumentar a produtividade, se aprofundarmos as pesquisas em como a cana responde à seca, principalmente no Nordeste, onde o efeito das mudanças climáticas promete ser maior.

    Por saber como plantar cana, como produzir etanol 1G e 2G, por ter uma indústria já montada e por ter o maior grupo de cientistas do planeta trabalhando no sistema de produção de cana e de álcool, o Brasil tem uma enorme responsabilidade perante o mundo. Ao mesmo tempo, tem uma enorme oportunidade.

    Para chegar lá, no entanto, será necessário que o país passe a considerar o setor como estratégico novamente. A janela de oportunidade está aberta, e não teremos muito tempo para tomar as decisões.

    A produção de etanol como combustível tem que passar a ser um programa de Estado, e não de governo. Isso porque teremos que trabalhar com grande eficiência até 2050 se quisermos cumprir o potencial que sabemos existir.

    MARCOS BUCKERIDGE é professor-titular da USP, presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, coordenador do Instituto de Ciência e Tecnologia do Bioetanol e um dos autores do Relatório Especial "1,5oC Warming World, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

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