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    Análise: Se a emenda passasse, Ulysses provavelmente teria sido eleito

    MARCELO COELHO
    COLUNISTA DA FOLHA

    25/01/2014 03h20

    O candidato natural à Presidência, caso a emenda das Diretas-Já tivesse sido aprovada, era Ulysses Guimarães, do PMDB. A opção por Tancredo Neves, mais moderada e conciliatória, estava reservada no caso de fracasso. O exercício de imaginar o que aconteceria com Ulysses na Presidência pode ser arriscado, mas não difícil.

    O primeiro impulso seria o de imaginar uma ruptura mais clara com o regime militar; seria inimaginável uma Vice-Presidência ocupada pelo ex-arenista José Sarney, ou um ministério tão heterogêneo quanto o que se produziu depois, abrigando velhos defensores da ditadura militar como Antonio Carlos Magalhães, Marco Maciel e Aureliano Chaves.

    Mas este é só o primeiro impulso. Para aprovar a emenda das diretas, seria necessário ter feito uma composição mais ampla no Congresso. Mais raposas ligadas ao antigo regime teriam de dobrar-se à vontade popular.

    Parlamentares como Siqueira Campos (então GO), Edison Lobão (MA), Sebastião Curió (PA), José Carlos Martinez (PR), Reinhold Stephanes (PR) ou Nelson Marchezan (RS) precisariam desvencilhar-se mais cedo de seus compromissos com o autoritarismo.

    Siqueira Campos hoje é governador tucano de Tocantins, Edison Lobão é ministro de Dilma, José Carlos Martinez foi presidente do PTB quando se deu o acordo do mensalão com Lula, Reinhold Stephanes foi ministro de Collor, FHC e Lula, e Nelson Marchezan terminou sua carreira nos braços do PSDB. Ou seja, o adesismo geral que marcou a transição para a democracia nas mãos de Tancredo e Sarney teria provavelmente apenas começado antes, com Ulysses.

    O espírito político, mas aqui entramos no impalpável, teria sido diferente. A vitória do movimento das diretas representaria um estímulo maior à participação popular, produzindo a sensação de que as elites políticas são um pouco mais dependentes dos desejos da praça pública.

    Ao mesmo tempo, é possível pensar que a Constituição de 1988 teria sido menos "cidadã" e ambiciosa na formulação dos direitos sociais. Sua elaboração, sob a influência de Ulysses Guimarães, foi de certo modo uma válvula de escape para as frustrações da esquerda e, sem dúvida, uma arma permanentemente apontada contra a Presidência de Sarney.

    Ir mais além na especulação já seria delirante. Qual teria sido o comportamento da inflação num governo eleito diretamente? Teria havido um Plano Cruzado? Provavelmente sim; tanto Sarney quanto Ulysses não teriam como propor algo mais ortodoxo em política econômica. O fracasso em controlar a inflação teria levado fatalmente ao surgimento de Collor?

    As alternativas dramáticas do passado parecem, com o passar do tempo, convergir para o mesmo lugar; os políticos brasileiros em geral sabem disso, e se adiantam ao processo.

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