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    Em carta da prisão, Roberto Jefferson critica postura de Joaquim Barbosa

    ANDRÉIA SADI
    DE BRASÍLIA

    25/05/2014 02h00

    "Cadeia, 19/05/14". É assim que Roberto Jefferson começa uma carta à Folha, escrita à mão, do Instituto Penal Coronel PM Francisco Spargoli Rocha, em Niterói (RJ).

    Condenado a sete anos e 14 dias por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do mensalão, o petebista completou três meses de prisão neste sábado (24).

    A pedido da reportagem, ele descreveu pela primeira vez como se sente atrás das grades. Na carta, Jefferson, que em 2005 revelou o mensalão em entrevista à Folha, fala da saúde, da conjuntura política na América Latina, dos novos escândalos no Brasil e da rotina na prisão.

    Ao citar o desafeto José Dirceu, uma surpresa: "Sobre o Dirceu, penso que o JB está exagerando e vitimizando a turma do PT".

    O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Joaquim Barbosa, o ''JB'' a que Jefferson se refere, negou no começo do mês o pedido do petista para trabalhar fora da cadeia durante o dia.

    Dirceu está preso desde novembro no complexo da Papuda, em Brasília, acusado de comandar o mensalão, escândalo definido pelo STF como um esquema de compra de apoio político no Congresso no primeiro mandato do ex-presidente Lula.

    "Você sabe que eu não gosto do José Dirceu, mas a coisa está demais", afirmou.

    DUELO

    Depois, o presidente do STF revogaria o direito de sair da prisão para o trabalho de outros condenados no escândalo sob o argumento de que eles ainda não completaram um sexto da pena, requisito da Lei de Execuções Penais para o benefício.

    Desde que o escândalo do mensalão veio à tona, Jefferson patrocinou publicamente uma espécie de duelo com Dirceu -então ministro da Casa Civil e um dos principais auxiliares de Lula-, a quem sempre acusou de ter comandado o esquema do mensalão.

    Agora, faz coro com o petista em relação à negativa de Barbosa ao trabalho externo.

    "Ele [Barbosa] monocraticamente revogou uma jurisprudência consagrada em todas as comarcas e tribunais do Brasil. Até no STJ [Superior Tribunal de Justiça] os condenados no semiaberto trabalham desde o primeiro dia da execução da sentença. Nitidamente o JB tem diferenças pessoais com a Turma do PT."

    Jefferson diz estar sendo bem tratado na prisão.

    "A diretora é uma mulher muito sensível e atenciosa. Tenho mantido minha dieta, estou em cela individual por recomendação médica, dada a minha condição mais delicada de saúde", escreve ele na carta.

    O petebista precisa de alimentos especiais, sem gordura, por causa das cirurgias a que foi submetido para o tratamento de um câncer, que acabaram reduzindo seu aparelho digestivo.

    A defesa de Jefferson agora espera que o STF vote seu pedido para cumprir a pena em casa, por motivos de saúde, pleito feito desde a sua condenação.

    Editoria de arte/Folhapress

    Sobre sua rotina na cadeia, diz ler todos os dias a Folha e os jornais "Valor Econômico", "O Globo" e "O Estado de S. Paulo".

    E fala sobre Pasadena, Lava Jato e CPIs, temas que mais têm movimentado o mundo político recentemente.

    "A temperatura subiu. Para mim, o pior poderá vir pelo TCU [Tribunal de Contas da União], se convocarem a Dilma para depor, numa franca contestação à sua qualidade gerencial. Esse caminho técnico e jurídico é muito mais poderoso que o político. Esse caminho sim poderá resultar em danos graves à imagem do governo", discorre.

    FUTURO

    Na carta, Jefferson ainda faz considerações sobre o "desgaste das esquerdas na América Latina".

    "Argentina, Venezuela, Brasil, a coisa começa a decantar. Nada como a democracia e liberdade da imprensa, as coisas ficam mais nítidas aos olhos do povo", afirma o petebista.

    "Na Venezuela, o movimento liberal, de resistência à brutalidade da esquerda bolivariana, nasce com os estudantes. Existe um espaço de cinquenta anos entre os meninos de hoje e aqueles da luta contra os militares, que golpearam a liberdade".

    O texto do petebista também alude ao futuro.

    "Tudo passa. Tudo tem seu tempo. Nada e ninguém é para sempre".

    E termina citando a família: "Sobre minha Ana Lúcia (sua mulher), digo que Deus reserva a poucos uma companheira como ela".

    Daniel Marenco 24.fev.13/Folhapress
    O ex-deputado e delator do mensalao, Roberto Jefferson (PTB-RJ), aparece na varanda de sua casa em Levy Gasparian na véspera de sua prisão
    O ex-deputado e delator do mensalao, Roberto Jefferson (PTB-RJ), aparece na varanda de sua casa em Levy Gasparian na véspera de sua prisão

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