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    folha, 95 anos

    ANÁLISE

    Imprensa independente funciona como contrapeso ao poder do Estado

    HÉLIO SCHWARTSMAN
    COLUNISTA DA FOLHA

    26/02/2016 02h00

    O jornalismo precisa ser de oposição? "Precisar" talvez seja um verbo muito forte. Não há nada na teoria do jornalismo que obrigue a imprensa a ser contra os governantes de turno.

    Mas, quando consideramos toda a ecologia do sistema, é quase inevitável que surjam chispas, quando não animosidade aberta, entre órgãos de comunicação empenhados em levar informação relevante ao público e representantes dos três Poderes, em especial do Executivo.

    Bons exemplos dessa irresistível tendência à divergência apareceram no segundo debate do Encontro Folha de Jornalismo, que foi realizado na manhã do dia 18.

    Com mediação do colunista e membro do Conselho Editorial da Folha Clóvis Rossi, a mesa foi aberta pelo venezuelano Eugenio Martínez, especializado na cobertura eleitoral do país. Em seguida falaram o argentino Hugo Alconada Mon, do jornal "La Nación", que investiga casos de corrupção, e o brasileiro Lúcio Flávio Pinto, criador do "Jornal Pessoal", que desde 1987 cobre a região amazônica a partir de Belém (PA).

    Os três fizeram relatos bastante vívidos das dificuldades que enfrentaram por não se alinhar aos interesses dos poderosos. Houve até situações de agressões físicas e ameaças de morte.

    É verdade que o fato de lidarmos aqui com governos messiânicos, no caso da Venezuela bolivariana e da Argentina sob os Kirchner, e com uma região onde impera a lei do Velho Oeste, como é a Amazônia, torna os conflitos potencialmente mais sangrentos, mas é importante notar que a relação de desconfiança entre imprensa e autoridades ocorre mesmo nas democracias maduras.

    A situação de Julian Assange, do WikiLeaks, asilado na embaixada do Equador no Reino Unido, porque teme ser extraditado para a Suécia e daí para os Estados Unidos, é uma prova disso.

    PERSPECTIVA
    O problema de base é simples: o jornalismo tem interesse em revelar coisas que dirigentes querem esconder. Mesmo nos casos em que a oposição não é tão dramática, surgem diferenças de perspectiva.

    Uma imprensa que discuta ideias em algum momento questionará os pressupostos teóricos com os quais o governo opera numa determinada área. E as pessoas em geral não gostam de ser questionadas.

    Vale observar aqui que o fenômeno não é exclusivo da esfera oficial, mas diz respeito à natureza humana.

    Ele se repete em todas as áreas do jornalismo. O repórter esportivo que não se limite a enaltecer o time, na vitória e na derrota, poderá ser malvisto nos vestiários do clube. O colunista social que revele algum segredinho de celebridade entrará em sua lista de desafetos. A diferença é que, enquanto alguns dos segredos de celebridades devem mesmo permanecer secretos, contam-se nos dedos as situações em que o Estado pode legitimamente esconder algo dos cidadãos.

    DEBATE
    A luz do sol é o melhor desinfetante, na expressão celebrizada pelo juiz da Suprema Corte dos EUA Louis Brandeis. Isso vale não apenas para revelar casos de corrupção e outros crimes que autoridades possam ter cometido mas também para qualificar o debate público de ideias, que podem e devem ser questionadas por todos os ângulos possíveis.

    Como o caminho mais fácil é o de aliar-se aos poderosos, a imprensa independente adquire papel especial ao possibilitar que as ideias que fazem as vezes de contrapeso circulem mesmo sem dispor do impulso proporcionado pelo fato de estarem ao lado de consensos momentâneos e da máquina pública.

    Não é um acaso que os primeiros teóricos da democracia, notadamente os "founding fathers" dos EUA, tenham dado tanto destaque à liberdade de imprensa.

    Thomas Jefferson chegou a escrever: "Se me fosse dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última". A frase incorre num tremendo exagero, mas que dá bem a medida da importância que esses primeiros pensadores da democracia americana atribuíam a um sistema de freios e contrapesos ("checks and balances") ao poder do Estado.

    ERROS
    Vale reforçar que essas considerações não implicam que a imprensa precise necessariamente ser de oposição. Jornais chapa-branca ou apenas pouco críticos são perfeitamente legítimos. Eles apenas acrescentam institucionalmente pouco. Raramente ajudam a identificar falcatruas e não enriquecem o debate público.

    Essas observações não implicam que a mídia seja boa ou não cometa injustiças. Ao contrário, ela erra muito e pode destruir injustamente a vida de uma pessoa.

    Mas, como é humanamente impossível produzir um jornalismo à prova de erros, é melhor que o viés seja o de errar contra o governo. Em primeiro lugar, porque ele mais do que ninguém tem as condições de defender-se.
    Em segundo, porque o risco de a sociedade ser prejudicada por tramoias ou políticas equivocadas de dirigentes supera o das eventuais injustiças que a imprensa possa cometer.

    Reescrevendo a frase de Jefferson, poderíamos dizer: "Se me fosse dado decidir se devemos ter um jornalismo apenas favorável ou apenas contrário ao governo, não hesitaria um momento em preferir a última —mesmo que eu fosse um simpatizante desse governo".

    Veja os bastidores do Encontro Folha de Jornalismo:

    Encontro Folha

    Edição impressa
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