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    Para esconder celular, Cabral usou doméstica como laranja, diz MPF

    ITALO NOGUEIRA
    ENVIADO ESPECIAL A MARICÁ

    04/12/2016 02h00

    Raquel Cunha/Folhapress
    Nelma de Sá Saraça, doméstica, em sua casa em Maricá (RJ)
    Nelma de Sá Saraça, doméstica, em sua casa em Maricá (RJ)

    Era para um celular em nome da doméstica Nelma de Sá Saraça, 42, que executivos de empreiteiras ligavam para Sérgio Cabral (PMDB).

    Segundo o Ministério Público Federal, por este telefone o ex-governador do Rio marcava encontros em locais como o Palácio Laranjeiras, residência oficial do chefe do Executivo estadual, para discutir propinas em obras públicas.

    A residência real de Nelma é um apertado quarto e sala de cerca de 30 metros quadrados na zona rural de Maricá, município da região metropolitana do Rio.

    Ela divide o imóvel com cinco parentes (dois filhos, a irmã, sobrinho e neto).

    É um espaço pouco maior do que a cela de 16 metros quadrados ocupada por Cabral e outros cinco suspeitos presos pela Operação Calicute em Bangu 8.

    Enquanto o peemedebista dorme numa das camas das três beliches da cela, Nelma divide o colchão de casal com os dois filhos e o neto. Irmã e sobrinho dormem na sala.

    Indicado numa nota de rodapé do pedido de prisão do ex-governador, o nome gerou uma série de especulações sobre a inspiração para o que se supôs ser apenas um personagem falso criado pelo ex-governador para dificultar investigações a seu respeito.

    Apontou-se como possível inspiração o nome de uma secretária, Nelma Quadros, que trabalhara no jornal "O Pasquim", fundado pelo jornalista Sérgio Cabral, pai do ex-governador.

    Segundo outra hipótese levantada, os sobrenomes Sá Saraca (na petição dos procuradores, aparece sem cedilha) seriam referência ao musical "Sassaricando", também criado por Cabral pai.

    NELMA REAL

    Nelma, contudo, existe. Acorda de segunda a sábado às 6h para ir ao centro de Maricá. Vai (e volta, dez horas depois) andando por 50 minutos para economizar os R$ 2,70 cobrados de tarifa da van.

    Com o salário de R$ 1.100, diz bancar os seis ocupantes do apartamento com telhado de amianto que não aguenta as fortes chuvas de verão. Pelo aluguel, paga R$ 450.

    "Isso aqui tudo alaga quando chove. É terrível", disse ela, apontando para a cozinha, uma extensão da sala.

    A doméstica diz não ter ideia sobre como seu nome e CPF foram parar no cadastro de um número usado pelo ex-governador –investigadores confirmaram à Folha que o registro do telefone foi feito com o CPF. Ela reagiu à informação, que soube pela reportagem na sexta-feira (2), com uma única frase.

    "Que sem-vergonha", disse no portão da casa onde trabalha.

    O número que Nelma diz nunca ter usado foi fornecido aos investigadores pelo delator Alberto Quintaes, da Andrade Gutierrez.

    Outros dois suspeitos apontados pela Procuradoria como operadores do esquema também usaram artifício semelhante. Carlos Emanuel Miranda, operador financeiro, tinha telefone em nome da empresa Boomerang Comércio de Veículos, e Wilson Carlos, de Luis Cláudio Maia.

    Dificilmente o mistério sobre como os dados da doméstica foram usados será esclarecido. Este eventual crime é considerado irrelevante pelos investigadores frente aos indícios de corrupção e lavagem de dinheiro que envolvem Cabral. O tempo de apuração poderia prejudicar o esclarecimento de crimes mais graves.

    Procurada pela Folha, a defesa de Cabral não respondeu.

    Reprodução
    Foto do ex-governador Sérgio Cabral ao dar entrada em presídio
    Foto do ex-governador Sérgio Cabral ao dar entrada em presídio

    'NÃO ROUBEI'

    Nelma conta que já sabia da prisão do ex-governador. Mas não acompanhou o noticiário subsequente, em que seu nome apareceu. "Meu filho quebrou minha televisão e ficou desse jeito mesmo. Não segui mais", disse.

    Seus comentários sobre política são monossilábicos. Afirma não lembrar se votou em Cabral em alguma eleição –disse que nem sequer compareceu às urnas nos últimos anos, tendo que pagar uma multa para regularizar sua situação eleitoral.

    Sua preocupação é mostrar-se alheia à aparição de seu nome na Operação Calicute. "Trabalhei muito nessa vida. Já fiz de tudo. Só não roubei, matei ou me prostituí. Tudo isso para passar esse constrangimento?", disse.

    Ela conta que começou a trabalhar aos 14 anos servindo café num cassino em Niterói. Depois disso, trabalhou como auxiliar em padaria, ajudante de cozinha e bordou por encomenda. É empregada doméstica há quatro anos.

    "Minha mãe sempre me ensinou a não depender de marido. Sempre me sustentei sozinha", conta ela que, em razão do início precoce no trabalho, estudou apenas até a quarta série do ensino fundamental –atual quinto ano.

    Viveu em Campo Grande e Paciência, zona oeste do Rio, e em Itaboraí. Mora há quatro anos em Maricá com dois dos quatro filhos, que têm entre 2 e 19 anos. "É uma vida boa. É a que eu tenho."

    Maricá entrou no cenário político nacional em março, quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), em gravação com o ex-presidente Lula, chamou a cidade de "uma merda de lugar".

    Informado pela reportagem sobre o paradeiro da laranja de Cabral, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), afirmou: "É muito estranha essa relação do PMDB com Maricá".

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