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    entrevista da 2ª

    Prisão de delatores terá consequências graves, diz ministro da Justiça

    CAMILA MATTOSO
    DE BRASÍLIA

    11/09/2017 02h00

    Renato Costa - 08.set.2017/Folhapress
    BRASILIA, DF, BRASIL, 17-03-2017, 12h00: O ministro da Transparência, Fislcalização e CGU Torquato Jardim em seu gabinete. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) ***ESPECIAL*** ***EXCLUSIVO***
    O ministro da Justiça, Torquato Jardim, em Brasília

    O ministro da Justiça, Torquato Jardim, 67, se diz "surpreso" com o que considera falta de preparo dos procuradores que fizeram a delação da JBS. Para ele, a prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud trará "consequências graves" para o caso.

    Torquato assumiu o cargo em maio logo após as revelações feitas pelos delatores da empresa, o que levantou suspeitas de que poderia tentar influenciar a Lava Jato. Três meses depois, classifica a afirmação como "ridícula".

    Em entrevista à Folha, ele confirma a mudança no comando da Polícia Federal, mas evita adiantar nomes.

    Diz ainda ser "chocante" a descoberta dos R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um "bunker" ligado a Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Lula e Temer.

    *

    Folha - Como o sr. avalia a prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud?
    Torquato Jardim - Terá consequências graves para a credibilidade do processo. Razoável presumir que depoimentos e provas fiquem sob suspeição de manipulação pelos agora presos. O MPF por certo será ainda mais cuidadoso e minucioso ao examinar os fatos e os documentos pertinentes

    O senhor considera o caso da JBS como uma vergonha?
    Não é uma vergonha. A delação é um instituto novo no Brasil. O que me surpreende é que haja vazamento. Isso quebra a dignidade do instituto. Outra coisa que não foi aprendida é a técnica de interrogatório. Basta ver cinema, que um interrogador experiente sabe ler os olhos, as narinas, a movimentação de boca, as carótidas, a respiração, tudo é indicativo de estado de espírito.
    Não é possível, não seria razoável admitir, que esses dois delatores e outros mais tenham enganado tão bem tantos, tanto tempo. Agora foram pegos no tropeço. O triste, além de todas as consequências jurídicas para quem foi envolvido, é que a delação esteja sendo colocada em prática por pessoas que não se preparam para essa tarefa.

    Isso joga suspeita sobre o Ministério Público?
    Suspeita é uma palavra muito forte. Prefiro crer que houve só pouco preparo profissional de quem atuou.

    Defende a anulação dos benefícios dos delatores?
    Não me cabe opinar.

    O senhor acha correto o empresário Joesley Batista ter imunidade?
    Faz parte do acordo, não é? Se vai continuar, é o Ministério Público que vai decidir.

    'Enquanto houver bambu, lá vai flecha', frase dita pelo procurador-geral Rodrigo Janot. O senhor acha que tem mais bambu ou mais flecha?
    Não sou índio, nunca usei flecha. Tem uma ali decorando o gabinete. Essa aqui machuca, as outras eu não sei.

    O sr. acha que há clima para uma segunda denúncia contra o presidente Michel Temer?
    Isso é de competência exclusiva do procurador-geral.

    Um aliado de Temer, Rodrigo Rocha Loures, é filmado com uma mala de dinheiro (R$ 500 mil, da JBS). É possível não vincular isso ao presidente?
    Não tem nada a ver. Nem a denúncia consegue fazer a relação. É mera ilação. Eu diria até indigna com o presidente.

    Qual é a data de anúncio do novo diretor da Polícia Federal?
    Não há.

    Quem são os três nomes que sr. disse ter para substituir Leandro Daiello?
    Não são.

    E qual o papel do general Sérgio Etcghoyen, ministro do gabinete de Segurança Institucional, nessa escolha?
    É conselheiro do presidente, pode opinar em todos os assuntos que o presidente pedir.

    A Polícia Federal cometeu erros na Lava Jato?
    Não que eu saiba.

    A troca no comando tem a ver com algum erro cometido?
    Não.

    Tem a ver com o quê?
    Com a transição natural da vida. O delegado [Leandro] Daiello está há sete anos no posto, trabalho excepcional. Ele próprio já disse que quer deixar o posto, que quer tirar férias e se aposentar.

    O governo procura um nome alinhado para que as operações diminuam?
    Não existe essa hipótese.

    É possível desenvolver projetos considerando que o senhor é o terceiro a sentar nesta cadeira na Justiça em um ano?
    É razoável que haja ceticismo, mas não quer dizer que não possamos definir uma política nacional de segurança pública, como política de Estado, e, portanto, que transcenda governos.

    Três anos e meio de Lava Jato e a PF encontra R$ 51 milhões em espécie ligados ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. Não choca?
    Claro que sim. Pelo tempo, que não foi possível esgotar a investigação, e terá todo o apoio do governo e do Ministério da Justiça, nunca houve e nem haverá intenção de inibir o trabalho da PF.
    E que estejam acontecendo casos ainda dessa dimensão, que é chocante. Choca a cidadania, choca qualquer um.

    O momento é de pânico no Palácio do Planalto com a prisão de Geddel?
    Não. Nenhuma relação de causa e efeito.

    Há relatos de pressão do governo nesse caso. O senhor foi chamado para tentar intervir na operação?
    Especulação.

    O senhor esteve com o presidente Temer um dia após a apreensão, não foi para falar desse assunto?
    Não comigo.

    O procurador Rodrigo Janot disse que o seu ministério está atrapalhando acordos de cooperação com outros países.
    A nota do Ministério da Justiça é extremamente didática e qualquer pessoa com mínimo de boa alma e boa compreensão tê-la-á entendido muito bem. Quem assina acordos internacionais é o Estado brasileiro. Ninguém está atravancando nada.

    O presidente foi gravado duas vezes em um ano (por Joesley e pelo ex-ministro Marcelo Calero). Falta segurança institucional ao governo?
    Não sei.

    O que o senhor acha dos encontros de Temer fora da agenda?
    Não existe encontro fora da agenda. O presidente é presidente sete dias por semana, 24 horas por dia.

    É defensável um presidente encontrar um investigado tarde da noite em sua casa?
    Não há problema algum.

    O senhor chegou como quem iria salvar o presidente do processo no TSE e quem poderia frear a Lava Jato. Acha que conseguiu mudar essa imagem?
    Essa sempre foi uma assertiva completamente ridícula e eu nunca me preocupei com ela.

    Raquel Dodge, nova procuradora-geral, indicada por Temer, terá o mesmo trabalho do senhor, de tentar mudar a imagem em relação a freio à Lava Jato?
    Isso eu não sei. Pergunte à doutora Raquel. O Ministério Público continuará sendo Ministério Público. O que varia é o método operacional. Quem poderá falar é a doutora Raquel.

    O senhor não foi à pré-estreia do filme da Lava Jato. Algum motivo?
    Não. Eu gosto de ficar em casa à noite.

    A direção do filme diz que é uma trilogia. Com tantos fatos, o senhor acha que precisaria de quantos?
    Depende. A história da família Gambino [do filme O Poderoso Chefão] foi contada em três episódio do Coppola. Todos necessários. Depende de quem escreve e de quem conta.

    As decisões do STF de libertar investigados não são uma forma de frear a Lava Jato?
    Não. "Bad people make a good law". São cinco palavras mágicas do direito constitucional libertário. Gente ruim faz bom direito. O bandido ajuda a construir o direito constitucional.

    É possível acabar com a corrupção?
    Depende. A corrupção começa a acabar quando um pai ou a mãe tirar da cama o filho preguiçoso para ir à escola e mandá-lo para fazer prova, em vez de deixar o filhinho dormindo e pedir atestado médico para justificar a falta.

    O senhor tem viajado muito. Pretende ser candidato a alguma coisa?
    Eu seria candidato à presidência do Atlético Mineiro se em Minas estivesse meu título eleitoral.

    O governo fez promessas a deputados para barrar a primeira denúncia contra Temer. Qual é a conta que o presidente deixou para o senhor pagar?
    Nada nos envolve e não sei do que se trata.

    *

    RAIO X

    NASCIMENTO
    Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1949

    FORMAÇÃO
    Advogado, pós-graduado pela Universidade de Michigan (EUA)

    CARREIRA
    Ministro da Justiça (desde maio), ministro da Transparência (junho de 2016 a maio de 2017) e ministro do TSE (1988-1992 e 1992-1996)

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