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    Lava Jato

    Sistema que identificou digitais de Geddel em dinheiro está travado

    WÁLTER NUNES
    DE SÃO PAULO

    21/09/2017 19h03

    Uma das principais ferramentas de investigação da Polícia Federal (PF) está parcialmente inutilizada por falta de manutenção. O sistema AFIS (sigla da tradução do inglês de Sistema de Identificação Automatizada de Impressões Digitais), que identifica e cruza dados de impressões digitais, não consegue mais armazenar nem cruzar informações. O sistema foi essencial na identificação das digitais do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) nos pacotes de dinheiro encontrados em apartamento emprestado por seu amigo.

    O cancelamento da manutenção aconteceu porque desde o dia 4 de setembro encerrou-se o contrato da Polícia Federal com a IAFIS, empresa responsável pelo suporte do sistema. Atualmente os papiloscopistas (peritos que identificam impressões digitais) da PF não podem armazenar dados no sistema e nem fazer cruzamento de fragmentos de impressão com os dados armazenados. Foi esse tipo de cruzamento que permitiu encontrar a digital de Geddel nas notas apreendidas.

    Um memorando assinado pelo diretor do Instituto Nacional de Identificação, Brasilio Caldeira Brant, foi enviado aos diretores das superintendências regionais da Polícia Federal alertando sobre os problemas no sistema e indicando procedimentos.

    "Em função disso (cancelamento da manutenção) e diante do iminente esgotamento do banco de imagens do sistema, cuja manutenção ficava a cargo da empresa contratada, este Instituto Nacional de Identificação orienta a todos os usuários AFIS a não fazer nenhum tipo de inclusão, até que novo contrato seja assinado", diz o documento.

    "Tal precaução deve ser tomada já que, completando-se todo o espaço do banco de imagens, toda e qualquer funcionalidade do AFIS será interrompida, sem que seja possível estimar quais prejuízos isso traria ao sistema. Vale ressaltar que o sistema ainda poderá ser utilizado para consultas de impressões digitais constantes no banco de dados."

    PASSAPORTES

    Outra circular orienta os policiais a não utilizarem o sistema para checar passaportes ou a identidade de foragidos internacionais. "AFIS fora do ar e sem previsão (de retorno). Nesse período as consultas Interpol e todos os passaportes emitidos não serão consultados no sistema", diz a nota.

    A Folha ouviu papiloscopistas da Polícia Federal sobre o problema. Sob a condição do anonimato, eles disseram que o sistema está parado. Passaportes serão emitidos sem garantia de unicidade do cidadão, disse um papiloscopista. Segundo ele, todas as unidades da PF nos Estados que utilizam o sistema AFIS terão seus trabalhos de perícia papiloscópica (identificação de suspeitos, fragmentos de impressão digital encontradas em local de crime, identificação de estrangeiro) prejudicados.

    Outro perito diz que o sistema pode ser perdido de vez, caso não haja manutenção. Se não houver a atualização do software, segundo ele, o AFIS terá sobrevida até, no máximo, abril de 2018. O banco de dados do sistema hoje armazena as digitais de cerca de 23 milhões de pessoas.

    O policial federal Flávio Werneck, presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal, diz que o problema é de gestão. "O sistema vai parar por falta de manutenção. A emissão do passaporte terá o ciclo rompido do ponto de vista de segurança. As perícias serão prejudicadas. Os Estados não poderão fazer pesquisas de fragmentos. Mais um erro de gestão que afeta diretamente as investigações."

    DIGITAIS DO GEDDEL

    No processo de perícia que identificou a digital de Geddel Vieira Lima no dinheiro apreendido pela Polícia Federal vários equipamentos dos papiloscopistas falharam. A identificação foi possível mais pela persistência dos policiais do que pela eficiência dos instrumentos.

    Peritos ouvidos pela Folha sob a condição de anonimato contam que o equipamento de análise papiloscópica superaqueceu e parou de funcionar várias vezes durante a perícia. O aparelho usado para recolher as impressões digitais também parou de funcionar por superaquecimento, devido à quantidade de dinheiro a ser periciado combinado com o calor de Salvador. Foram apreendidos R$ 51 milhões no apartamento do amigo do ex-ministro.

    Vídeo mostra a contagem do dinheiro

    Contagem do dinheiro

    O trabalho começou pela manhã. No começo da noite, os papiloscopistas encontraram alguns fragmentos de digitais e passaram então para a fase de comparação com os dados arquivados no sistema AFIS, que não retornou nenhum candidato compatível com os fragmentos descobertos. Foi então que os peritos resolveram comparar o material com as digitais de alguns suspeitos.

    Os problemas, porém, continuaram. O leitor biométrico do AFIS parou de funcionar e os peritos levaram cerca de meia hora para conseguir reativá-lo. Depois que conseguiram fazer o sistema funcionar tentaram comparar os fragmentos com as digitais de quatro suspeitos, entre eles, Geddel. O AFIS, então, parou de funcionar novamente.

    Por volta de meia-noite o AFIS voltou a operar e, finalmente, confirmou que dois dos fragmentos das digitais encontradas no dinheiro eram do ex-ministro Geddel Vieira Lima. Duas da manhã o laudo foi enviado ao delegado do caso.

    OUTRO LADO

    A Polícia Federal divulgou nota em que diz que "o sistema AFIS –Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais– continua em funcionamento". Segundo a PF, "nenhum serviço prestado pela Policia Federal que dependa da pesquisa nessa base de dados será afetada. O processo de assinatura do novo contrato está em vias de finalização."

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