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    entrevista da 2ª

    Bônus pagos a executivos estimulam corrupção, diz conselheiro da Odebrecht

    MARIO CESAR CARVALHO
    DE SÃO PAULO

    30/10/2017 02h00

    Zanone Fraissat/Folhapress
    Fundador da Transparência Internacional, Jermyn Brooks
    Fundador da Transparência Internacional, Jermyn Brooks

    Uma das ferramentas essenciais para reduzir corrupção é mexer nos bônus que os altos executivos ganham para atingir metas financeiras.

    A opinião é de um dos maiores especialistas mundiais em combate à corrupção, o inglês Jermyn Brooks, 70, integrante da Transparência Internacional e conselheiro de empresas como Siemens e Odebrecht.

    "Promoção tem de seguir padrões não financeiros. De outro modo, você está incentivando a corrupção", disse Brooks à Folha em São Paulo, onde veio para participar de um conselho global da Odebrecht.

    Outra maneira de reduzir a corrupção, segundo ele, é o governo dar incentivos às empresas, e não apenas punição, para que sejam éticas.

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    Folha - Por que a Transparência Internacional escolheu combater corrupção?

    Jermyn Brooks - O fundador da Transparência, o alemão Peter Eigen, trabalhava para o Banco Mundial e era responsável por dar crédito para os países da África Oriental e descobriu que metade do dinheiro emprestado se perdia. Há estimativas similares até hoje. Metade dos empréstimos para os países muito pobres são perdidos para a corrupção ou uma mistura de corrupção com ineficiência. A Transparência foi criada para mudar essa situação. Meu foco foi trabalhar com uma série de empresas para criar uma política para países que pagam propina.

    O senhor sabe por que a corrupção tornou-se uma questão central em países tão diferentes quanto Brasil, China, Guatemala, Itália e Grécia?

    Há uma série de razões. Para combater a corrupção de verdade, você precisa ter uma série de freios e contrapesos. A tentação é dizer que, se você tem uma democracia funcionando, é fácil combater a corrupção. Democracia significa separação de Poderes, imprensa livre, com bons jornalistas investigativos, e uma sociedade civil ativa, para lembrar aos políticos que eles têm responsabilidades, e transparência com as coisas públicas. Quando uma dessas peças quebra ou não funciona bem, a corrupção cresce.

    Nossa definição de corrupção é o abuso de poder para obter ganhos pessoais, para um partido ou companhia.

    No Brasil, após a Operação Lava Jato, a população acredita que corrupção é a questão mais importante. Faz sentido?

    Corrupção no Brasil é um problema muito sério, que está minando a democracia, com dinheiro fluindo para os parlamentares e comprando decisões políticas. A Lava Jato mostrou que os políticos querem só se reeleger e manter o poder. Isso é minar o processo democrático no Parlamento.

    Mas eles fazem mais coisas inacreditáveis: querem ficar ricos com a política. Isso aumenta a desigualdade na democracia. Vamos pegar um exemplo do serviço público. Quando uma companhia corrupta não paga impostos, você está retirando dinheiro que deveria aplicar em educação, hospitais, habitação ou esgoto para as favelas.

    O brasileiro também acredita que o Brasil é o país mais corrupto do mundo. É mesmo?

    Essa percepção pode estar correta porque, todo dia, os jornais e a televisão estão falando de corrupção.

    Claro que há muitos países mais corruptos que o Brasil, mas aqui há imprensa livre e os processos são julgados na Justiça, o que é positivo.

    Não adianta culpar as pessoas dizendo que corrupção não é um grande problema porque é um grande problema. Essa percepção das pessoas leva elas a dizer: agora queremos políticos limpos, queremos reformas nas leis, queremos negócios limpos.

    A percepção das pessoas sobre corrupção leva a demandas por reformas.

    A Siemens tem uma longa história de corrupção desde a Segunda Guerra. A empresa prometeu outras vezes abandonar essa prática, mas não o fez. Por que devemos acreditar na empresa agora?

    Empresas como a Siemens dizem defender valores como integridade e honestidade. O que nós encontramos na Siemens? A empresa, em alto nível, defendia integridade. Mas, em parte por ingenuidade, em parte por fechar os olhos deliberadamente, alguma coisa estava acontecendo.

    A empresa pagava grandes bônus para fazer negócios em países em desenvolvimento sem saber como era feita a venda. Eles usavam agências corruptas, faziam pagamentos na Suíça numa estrutura extremamente complexa, similar às encontradas pela Operação Lava Jato.

    Agora sabemos que a primeira coisa que você tem de fazer quando introduz uma política anticorrupção é mudar a sua política de pessoal.

    Porque política de pessoal é o suporte de uma política anticorrupção. É preciso mudar essa política.

    Que tipo de mudança?

    Você tem que mudar a forma como avalia as pessoas, como promove e como paga, além de manter todos os princípios anticorrupção.

    Você tem de alterar a forma como faz os pacotes de vantagem e como paga bônus no final do ano.

    As empresas pagam salários de US$ 1 milhão por ano e, provavelmente, dois terços desse valor são bônus. A empresas dão incentivos errados às pessoas pelo modo como pagam os funcionários de alto escalão.

    O senhor propõe a extinção de bônus?

    Você tem de ser extremamente cuidadoso no modo de contratar e promover. A avaliação anual não pode ser baseada apenas em metas financeiras. A Shell, por exemplo, decidiu anos atrás que 20% da avaliação não seria ligada a resultados financeiros. Tem empresas em que é 50%. Depende da indústria.

    Promoção tem de seguir padrões não financeiros. De outro modo, você está estimulando a corrupção. Respondendo à sua pergunta [sobre por que a Siemens continuou corrupta apesar das promessas de extinguir essa prática], acho que era um pouco de ingenuidade e cegueira deliberada. Eles eram muito ingênuos. Diziam: se você for para a África, tem de se adaptar".

    Por que o senhor é um entusiasta da ideia de pagar recompensa a quem denuncia corrupção?

    Sou um entusiasta de denunciadores de corrupção, principalmente no setor privado. Porque é muito difícil obter as informações por meio de outras fontes.

    Quando os americanos começaram a pagar a empregados para obter informações sobre corrupção, isso me deixou desconfortável. Eu achava que era moralmente errado pagar por algo que a pessoa deveria fazer.
    Mas nos Estados Unidos esse programa faz um sucesso inacreditável. Eu tive de me dobrar: é justificável, mas não fico feliz quando alguém denuncia corrupção para ganhar US$ 10 milhões.

    Há algum outro problema além da restrição moral?

    Há. Para denunciar corrupção você precisa ser extremamente corajoso. Seja numa empresa ou no setor público, quem denuncia é visto como desleal.

    Conheci uma série de denunciadores. Após a primeira bolha na internet, no começo dos anos 2000, apareceram uma série deles. Havia um denunciador, praticamente, em cada uma das empresas de internet.

    O "Financial Times" fez uma reportagem sobre o que aconteceu com os denunciadores. Foi muito sofrido: metade deles perdeu o emprego.

    As companhias dizem que não vão punir os denunciadores, mas isso não é verdade. É parte da mentalidade humana punir quem delata.

    O que funciona melhor: punir empresas que corrompem ou incentivá-las a não subornar?

    Uma universidade em Berlim fez uma pesquisa sobre incentivos e concluiu que o que mais funciona é uma combinação de estímulo e punição. A minha ideia era apresentar novas ideias para a Siemens. O problema é que governos não gostam dessa ideia de incentivo. Só pensam em prisão e multa.

    Os governos poderiam dar incentivos fiscais para empresas que tenham bom comportamento. Podem dar subsídio.

    Se uma empresa tem um bom sistema anticorrupção, ela poderia ter vantagens numa licitação. Poderia se criar uma competição entre empresas para ver quem faz o melhor programa anticorrupção.

    Os bancos podem emprestar dinheiro com taxas mais baixas de juros para empresas que tenham um bom programa anticorrupção. Os governos são muito lentos para entender a influência que eles podem ter para implementar padrões éticos nos negócios.

    *

    RAIO-X
    Jermyn Brooks, 70

    > Trabalhou na PriceWaterhouseCoopers de 1962 a 2000

    > Fundou a iniciativa contra corrupção do Fórum Econômico Mundial

    > Ex-diretor-executivo da Transparência Internacional, é membro da organização

    > É integrante de conselho de ética da Siemens

    > Participa do conselho de governança da Odebrecht

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