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    Lava Jato

    Odebrecht diz que Bendine já pedia propina na presidência do BB

    ANA LUIZA ALBUQUERQUE
    DE CURITIBA

    09/11/2017 14h41

    O executivo Marcelo Odebrecht disse, em depoimento ao juiz Sergio Moro, nesta quinta-feira (9), que já havia recebido pedido de propina de Aldemir Bendine no primeiro semestre de 2014.

    Na época, Bendine ainda era presidente do Banco do Brasil. Em fevereiro de 2015, veio a se tornar presidente da Petrobras.

    Aldemir Bendine é acusado pelo Ministério Público de solicitar R$ 3 milhões em propina para executivos da Odebrecht, a fim de proteger a empreiteira em contratos da estatal. Ele está preso preventivamente desde o final de julho.

    No depoimento, Marcelo Odebrecht afirmou que Bendine nunca o abordou diretamente sobre o tema. Segundo ele, os pedidos eram feitos por meio do publicitário André Vieira da Silva para o diretor da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis. Além de Bendine, os três também são réus no processo.

    De acordo com Marcelo, Bendine pedia, em 2014, por meio de André, 1% sobre a reestruturação de uma dívida da Odebrecht com o Banco do Brasil.

    "Eu não dei muita 'bola' para esse achaque. Achava que ele não teria condições de atrapalhar. Neguei", disse.

    Alan Marques - 14.out.2015/Folhapress
    BRASÍLIA, DF, BRASIL, 14.10.2015. O presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine, depõe na CPI da Petrobrás sobre o escândalo de corrupção na empresa.(FOTO Alan Marques/ Folhapress) PODER
    O ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil Aldemir Bendine

    O executivo afirmou que começou a levar Bendine mais a sério em janeiro de 2015, após uma reunião com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). No encontro, Marcelo disse ter pedido à petista que ela definisse um interlocutor para interagir com as empresas afetadas financeiramente pelo avanço da Lava Jato. Dilma, então, teria nomeado o ex-ministro Aloizio Mercadante, para quem Marcelo, em seguida, teria enviado algumas notas.

    No mesmo mês, o empreiteiro afirmou ter tido uma reunião com Bendine. "Quando cheguei lá, as mesmas notas que mandei para o Mercadante estavam em uma pasta", disse a Moro. "Ele se colocou como indicado pela Presidência para resolver os problemas derivados da Lava Jato."

    Marcelo disse que, quando Bendine assumiu a presidência da Petrobras, "a coisa mudou um pouco de figura". "Ele tinha uma posição que, de fato, poderia atrapalhar a gente".

    Em maio de 2015, houve, segundo o empresário, uma reunião na casa de André Vieira da Silva, com Bendine e Fernando Reis.

    "O Fernando chegou antes, eu não conhecia o André até então. (...) Me disseram: 'Olha, ele [Bendine] vai, em um contexto da reunião, falar isso como se fosse uma senha, dessa forma vai ficar evidenciado o pedido que André está fazendo."

    Durante a conversa, sobre Lava Jato e Petrobras, Marcelo afirmou que Bendine "trouxe claramente aquelas palavras", como André disse que faria. Ele afirmou não se recordar exatamente qual era a senha, mas que fugia do contexto da conversa. Foi então que o executivo disse ter orientado Fernando Reis a pagar a propina "aos poucos", "avaliando a capacidade dele atingir a gente".

    "A gente fez três pagamentos de um milhão cada. Eu fui preso logo depois do primeiro pagamento", contou Marcelo a Moro.

    Condenado em 2016 a 19 anos, Odebrecht está preso desde junho de 2015. Como parte de acordo de colaboração premiada homologado em janeiro de 2017, o executivo deve cumprir pena em regime fechado até o mês que vem.

    Questionado pelo juiz se houve extorsão por parte de Bendine, o empresário afirmou que o ex-presidente da estatal nunca foi ameaçador. "Se mostrou disposto a ajudar a empresa, dizia que uma das razões que tinha sido nomeado presidente era para acabar esse clima de embate. Na hora que você quebra financeiramente as empresas, facilita que comecem a colaborar com a Justiça", disse.

    Segundo Marcelo, a postura com Bendine era "muito mais positiva" do que com a antecessora Graça Foster. "Se mostrou muito mais aberto."

    Em depoimento a Moro no fim de outubro deste ano, Dilma reafirmou várias vezes que não queria que Graça Foster se afastasse da direção da estatal. "Tentava evitar o máximo possível [a saída dela]", disse.

    Segundo a ex-presidente, Bendine foi aprovado para a presidência da Petrobras por causa do "desempenho significativo" que teve à frente do Banco do Brasil.

    OUTRO LADO

    Bendine tem negado as suspeitas e diz nunca ter recebido vantagens ilícitas.

    A defesa de Vieira da Silva sustenta que seu cliente realizou serviços para a Odebrecht, e que, por isso, teria recebido o valor de R$ 3 milhões em consultoria.

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