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    500 anos de reforma protestante

    Eventos na Alemanha celebram 500 anos da Reforma Protestante

    ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
    ENVIADA ESPECIAL À ALEMANHA

    05/10/2017 02h00

    O que você sabe sobre Martinho Lutero? A dona de casa Sarah Quincy, 37, confessa: não muito. Ela é protestante, assim como toda a sua família, assim como a maioria dos 45 presidentes que seu país, os EUA, já teve (John Kennedy foi a exceção católica, e a filiação religiosa de Abraham Lincoln é tida como enigma).

    "Até pouco, eu acharia que estavam falando do Martin Luther King e diria, ué, mas ele não foi o cara dos negros?", diz, segurando no colo seu bebê gorducho de bochechas tão rosadas quanto as dela. Só recentemente Sarah aprendeu em sua igreja que o pastor e ativista de direitos civis no século 20 foi batizado em homenagem a um monge que travou batalha própria na Alemanha medieval, 500 anos atrás.

    Em 31 de outubro de 1517, Luther (Lutero, em português) iniciou o cisma que abalaria para sempre a Igreja Católica, até então um monopólio de fé no Ocidente. A narrativa que entrou para a história: o monge pregou na porta do castelo que abrigava a Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg (1h30 de Berlim), o documento conhecido como "95 Teses".

    O quanto disso é mito –se o fez com martelo ou não, por exemplo– está aberto a discussões. Mas fato é que suas críticas provocaram um racha no mundo cristão, que passaria a ter vários ramos protestantes (de quem protestou contra o Vaticano), até chegar aos neopentecostais de hoje.

    As mais célebres questionam a ideia de que alguém (leia-se: ricos) poderia se livrar "de toda a pena" comprando indulgências do papa. Outra questiona por que a abastada Igreja "não constrói com seu próprio dinheiro" uma basílica, "em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis".

    Sarah, marido e filho viajaram à Alemanha nas férias. Numa quinta-feira de agosto, a família enche a cesta numa loja de souvenires em Wittenberg, que busca capitalizar em cima do quinto centenário do marco zero da Reforma Protestante. Levam biscoitos e cervejas com o rosto de Lutero nos rótulos. Outro freguês, o britânico Joel Bennett, 48, gostou de um copo com uma caricatura do alemão martelando suas teses no castelo.

    Inscrita no plástico azul, a expressão: "He nailed it!" ("ele pregou", no português literal, mas que em inglês vira "ele acertou em cheio!").

    Os 500 anos do movimento iniciado pelo conterrâneo estão sendo comemorados por toda a Alemanha, com eventos e exposições concentradas sobretudo em Berlim, Wittenberg e Eisleben –cidade onde Lutero nasceu, em 1483, mesmo ano de inauguração da suntuosa Capela Sistina.

    O filé deste turismo religioso está em Wittenberg, que preserva a casa –hoje um museu– onde o primeiro protestante viveu a maior parte da vida. Conhecer o lar de Lutero e da mulher, Catarina de Bora, pais de seis filhos, custa € 12 (R$ 44). De lambuja, uma mostra contígua traz obras de arte e objetos que reproduzem o cotidiano no século 16.

    Não era só na riqueza de espírito que a família acreditava. Passados 25 anos do ato de rebeldia contra o Vaticano, Lutero e Catarina tinham dez porcos, cinco vacas, três leitões, nove bezerros, uma cabra, vários cavalos e o cão Tölpel. A média, na época, era de quatro porcos por domicílio.

    CRENDICES

    Um badulaque metálico com substâncias aromáticas e imagens de santos, para "ser usado no terço ou numa corrente para o pescoço", era tido como defesa contra a peste bubônica, que dois séculos antes dizimou um terço da Europa. Crença popular na época: ar ruim, demônios e bruxas provocavam a doença. Vetor real: pulgas de ratos.

    Há também a "pá da punição", que se parece com uma colher de pau e servia para castigar crianças. Já adulto, Lutero defendeu que a autoridade paterna deveria ser mais amorosa do que punitiva, reflexo da sua visão de Deus.

    Na porta da casa-museu, a atriz Alexandra Husemeyer, 42, apresenta-se vestida como a mulher do reformador. "Catarina tinha autoestima tão alta que pediu Lutero em casamento", diz.

    Ela não é a única a se caracterizar à moda antiga. Quem quiser gastar 75 minutos e € 250 (R$ 925) pode ser escoltado por três atrizes no papel de "fofoqueiras" dispostas a contar todos os "babados" de 1535.

    Em outro passeio, por quatro horas e € 46 (R$ 170), o turista é conduzido por uma intérprete que faz as vezes de criada de Lucas Cranach (1472-1553), pintor que retratou o amigo Lutero e também "nudes" renascentistas de mulheres. Roteiro: "Numa hora tardia, vá a lugares dos sacerdotes e prostitutas. [...] Seguindo esta caminhada noturna, você será recebido em um cardápio erótico e moderado de seis pratos".

    As banalidades do dia a dia também estão na atração "Os Frívolos das Casas de Banho", que reconstrói o então popular banho público –das "fornicações" às "pomadas para prevenir a gravidez indesejada" (€ 225, ou R$ 833).

    As ruas de paralelepípedo que abrigam essas trupes, no centro histórico de Wittenberg, não levam apenas a igrejas e construções antigas. Há ao menos três estúdios de tatuagem. Marcar na pele a silhueta de Lutero é um hit, diz o dono do estabelecimento com um adesivo da melindrosa Betty Boop na vitrine.

    MOSTRA EXPLICA IMPACTO DAS IDEIAS DO RELIGIOSO HOJE

    Por que os americanos têm mania de carregar suas bebidas alcoólicas naqueles sacos de papel pardo? Comum em cidades dos Estados Unidos, o veto a beber álcool na rua, e até a predisposição a esconder garrafas que nem sequer abertas estão, teria a ver com as raízes de um país 50% protestante. Para um fiel, afinal, o ato de se embriagar não é de Deus.

    A teoria das sacolas é uma das curiosidades contadas em "Der Luthereffekt" (o efeito Lutero). A mostra no museu Deutsches Historisches Museum, em Berlim, remonta a globalização do movimento iniciado meio milênio atrás por Martinho Lutero, o monge alemão que rompeu com a Igreja Católica e jogou a Europa em séculos de sangrentas guerras religiosas.

    A partir de 1517, fortaleceu-se no mundo cristão a ideia de que cada um que carregue sua cruz: o Vaticano não deveria monopolizar o poder (por meio do papa) nem a interpretação da Bíblia (então restrita ao latim). Esse marco zero da Reforma Protestante é fundamental para entender um mundo que hoje testemunha o milagre da multiplicação de templos evangélicos.

    ASCENSÃO

    A América Latina fica fora dos cinco países que a exposição elege para contar o avanço protestante no planeta: Alemanha, Suécia, EUA, Coreia do Sul e Tanzânia.

    O afã cristão dos sul-coreanos pode surpreender. Quase 30% da população se declara seguidora de Jesus Cristo –protestantes são dois terços desse grupo.

    No telão do museu, nada muito diferente do que se vê em templos brasileiros: um coral com robe de cetim canta sobre "preferir Jesus a casas e terras" após a pregação de um pastor de paletó e cabelo lambido por gel.
    Na Suécia, a fusão entre Estado e Igreja Luterana se desfez em 2000. A Constituição sueca ainda prevê que o chefe de Estado (o rei ou a rainha) deve ser "de pura fé evangélica".

    Ex-colônia alemã, a Tanzânia abriga a segunda maior concentração de luteranos no mundo (mais de 6 milhões).

    A parte histórica da exposição, que vai até 5 de novembro, é farta –assim como a variedade de souvenires à venda na loja do museu, da forma de pão com a silhueta de Lutero ao boneco Playmobil inspirado no monge.

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