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    Brasil quer retirar crítica a álcool e biodiesel de relatório do clima

    RAFAEL GARCIA
    DE SÃO PAULO

    24/03/2014 02h50

    O governo brasileiro vai pedir ao IPCC (painel do clima da ONU) para apagar de seu novo relatório uma crítica à política do uso de biocombustíveis como forma de atenuar o aquecimento global.

    Na introdução não técnica da parte do documento sobre impactos e adaptações ao aquecimento global, uma frase sugere que o cultivo de vegetais para álcool e biodiesel pode incentivar desmate (que por sua vez gera mais emissão de gases do efeito estufa).

    A afirmação desagradou a delegação brasileira, que pedirá uma correção no texto.

    O trecho contestado afirma que "aumentar o cultivo de plantações para bioenergia implica riscos para ecossistemas e para a biodiversidade, apesar de contribuições da energia de biomassa para a mitigação [do aquecimento global] reduzirem riscos relacionados ao clima."

    Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress

    A frase está no "sumário para formuladores de política" –resumo não técnico do documento– do relatório do grupo 2 do IPCC, que trata de impactos e adaptações à mudança climática. A delegação brasileira diz considerar injusto atacar os biocombustíveis sem que outras formas de energia tenham seus impactos relatados.

    "Eles destacaram isso do nada" disse à Folha um representante do governo para a área de clima. Para ele, qualquer forma de energia tem algum impacto ambiental. "Naquela frase seria possível trocar biocombustíveis por produção de painéis solares, turbinas eólicas ou até o aumento das hidrelétricas."

    O novo relatório do grupo 2 do IPCC deve ficar pronto no dia 30, após cinco dias de debate no encontro em Yokohama, no Japão. Os tópicos do sumário para formuladores de política tendem a ser disputados palavra a palavra, pois servem de base para negociações internacionais.

    O documento subsidia a discussão sobre a criação de mecanismos de financiamento para países afetados pela mudança climática e o debate de um acordo global para cortes de emissões, que terá uma rodada crucial em 2015.

    CONEXÃO PECUÁRIA
    Para o ecólogo David Lapola, da Unesp, a demanda do Brasil é razoável, pois o plantio de cana e soja no país causa pouco desmate direto. O que ocorre é agricultores comprarem terras de pastagem e levarem pecuaristas a adquirirem terras florestadas baratas para desmatar.

    "Isso implicaria um pouquinho de desmate para colocar na conta da cana-de-açúcar e da soja, mas como o desmatamento está caindo, fica óbvio que a pecuária está se intensificando (usando pastagens com gado mais concentrado)", diz Lapola.

    Gustavo Luedemann, negociador do Brasil no encontro de Yokohama, não quis comentar dados específicos do relatório do IPCC, mas diz que está bastante tranquilo com o texto do documento. "Não há pontos de conflito", afirma. "O que há são correções que nós sugerimos em relação à forma com que as coisas são escritas."

    Leia trechos do documento:

    INTERFERÊNCIA
    "Está ocorrendo uma interferência humana no sistema climático, e o clima apresenta riscos para sistemas naturais e humanos"

    ÁGUA DOCE
    "A mudança climática vai reduzir significativamente a água renovável de superfície e a água subterrânea na maioria das regiões subtropicais secas, exacerbando a competição por água entre setores"

    BIODIVERSIDADE
    "Grande fração das espécies terrestres e de água doce encaram maior risco de extinção sob a mudança climática projetada para o século 21 e além"

    CIDADES
    "Hipertermia, precipitação extrema, enchentes na costa e no interior, seca e falta d'água implicam riscos em áreas urbanas para pessoas, bens, economias e ecossistemas, com risco amplificado para quem vive em áreas expostas e carece de serviços e infraestrutura essenciais"

    ADAPTAÇÃO
    "Adaptação é altamente dependente de contexto específico, regionalmente, sem que haja uma abordagem única para reduzir riscos apropriadamente ao longo de todas as localidades"

    Editoria de Arte/Folhapress

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