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Folha de S.Paulo

Noel Devos e o valor do fagote


Conheci Noel Devos, fagotista francês radicado no Brasil desde 1952, em 1985, aos 15 anos, em um encontro de Orquestras Jovens de Tatuí. Para sua surpresa, apresentei em aula o primeiro movimento da "Sonatina" de Alexandre Tansman. Era difícil ver fagotistas começarem tão cedo e ainda mais difícil tocar tal obra, e em um fagote de plástico.

Ser um grande intérprete nem sempre implica ser um bom professor do instrumento. Devos, no entanto, revelou já naquele primeiro contato ser um mestre de notável paciência, didática e carinho com os alunos, além de artista de habilidade extraordinária. Eu, que descobria apaixonadamente o repertório e as particularidades do fagote, aproveitava com entusiasmo e admiração a oportunidade de aprender com um ícone do instrumento. Todavia, ainda adolescente e relativamente principiante, não tinha a real noção de seu papel no surgimento de inúmeras obras brasileiras para fagote.

Não sabia, por exemplo, que, alguns anos antes de nosso primeiro encontro, em 198

Devos havia gravado a série de "16 Valsas para Fagote Solo", obras que lhe haviam sido dedicadas por Francisco Mignone entre 1979 e 1981.

Embora não fossem as últimas obras escritas por Mignone para o instrumento, pode-se afirmar que as "Valsas" coroavam uma colaboração entre compositor e intérprete que havia se iniciado em 1957, com a criação do "Concertino para Fagote e Pequena Orquestra", estreado por Devos e pelo próprio Mignone à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

O virtuosismo de Devos permitiu-lhe algumas proezas. O disco com as "16 Valsas" foi gravado sem qualquer edição no intuito de "manter a espontaneidade da interpretação", segundo relato do fagotista. O "Concertino" foi estreado apenas alguns dias após a conclusão da obra. E falamos aqui de trabalhos de notáveis desafios técnicos.

Isso justifica a quantidade tão espantosa de obras para fagote de Mignone, que, vale ressaltar, não foi o único grande compositor brasileiro a escrever para o instrumento. No Brasil, o repertório para fagote é bastante generoso se comparado à média internacional. Noel Devos certamente influenciou, direta ou indiretamente, a construção dessa literatura.

Após nosso primeiro encontro, estive em vários cursos de férias sob a orientação do professor Devos e viajei eventualmente ao Rio para aulas particulares. Esse contato não só propiciou lições de técnica e musicalidade, em abundância, mas me levou a compreender, paulatinamente, que tipo de intérprete eu gostaria de me tornar. Talvez, naquele momento, já pudesse de alguma forma pressentir que, anos mais tarde, eu mesmo viria a interpretar e gravar algumas das obras a ele dedicadas, como as 16 valsas de Mignone.

O fagote é um instrumento de vital importância na orquestra sinfônica, mas um tanto incomum em solos. Na história da música, não houve casos de compositores que tenham escolhido gratuitamente esse instrumento como solista. Todos eles escreveram sob a inspiração de um grande virtuose. O caso de Mignone não é diferente: o autor não escreveu para o fagote, escreveu para Devos.

É especialmente gratificante quando alguém do público comenta, com espontaneidade: "Você tocou tão bem que não parecia um fagote" ou "emocionei-me tanto que esqueci que ouvia um fagote". Alguns colegas, ainda mais fanáticos do que eu, talvez sentissem ofendida a honra de nosso querido instrumento. Eu, ao contrário, me sinto lisonjeado. Afinal, o grande intérprete deve transcender os limites de seu instrumento. No momento da performance, em última instância, não tocamos fagote, oboé, piano ou violino, tocamos obras, reproduzimos estilos e concepções das mais contrastantes e procuramos envolver o público nessa viagem por nossas fantasias, intelecto e emoções.

O exemplo de Devos me levou a encarar o fagote como um instrumento da expressão, e não simplesmente um instrumento musical.

FÁBIO CURY, 46, é professor de fagote da USP e fagotista solista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo