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    Brasileiros desvendam mistério de 9 espécies de pássaros quase idênticas

    REINALDO JOSÉ LOPES
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    24/05/2017 16h50

    Se tivesse a chance de reescrever seu clássico "A Origem das Espécies" no século 21, Charles Darwin (1809-1882) bem que poderia falar de nove passarinhos brasileiros para exemplificar como a evolução usa variações minúsculas para forjar novos tipos de seres vivos.

    Comparações genômicas detalhadas entre as nove espécies de caboclinhos (membros do gênero Sporophila) revelaram pequenas diferenças no DNA que provavelmente estão ligadas à plumagem dos machos, a qual, por sua vez, teria levado à formação dessas espécies ao longo de milhares de anos.

    "É uma diversidade única", disse à Folha um dos autores do novo estudo sobre as aves, Luís Fábio Silveira, do Museu de Zoologia da USP. "Se Darwin tivesse estudado o caso dos caboclinhos, e não o dos tentilhões das ilhas Galápagos, que evoluíram vários formatos diferentes do bico com rapidez, ele certamente teria se encantado", brinca o biólogo, que é curador de ornitologia do museu.

    A pesquisa assinada por Silveira e por colegas como Carla Fontana e Márcio Repenning (ambos da PUC-RS) acaba de sair na revista especializada americana "Science Advances". Ao analisar o genoma dos bichos, os cientistas conseguiram vencer uma frustração antiga: o DNA das nove espécies é tão parecido que até hoje ninguém tinha conseguido achar diferenças genéticas significativas entre eles.

    E, o que é mais irritante ainda para quem estuda as avezinhas, é virtualmente impossível achar diferenças entre fêmeas e filhotes dos diferentes Sporophila. "É um horror", resume Silveira. "A gente já tentou luz ultravioleta, infravermelho, e nada."

    Essa confusão dos infernos só desaparece quando os ornitólogos examinam os machos de cada espécie. Muito mais vistosos que suas parceiras e seus filhos, eles apresentam ampla gama de padrões coloridos, misturando tons como o amarelo, o preto, o cinza e o canela.

    Mais importante ainda, na hora de acasalar não há bagunça alguma –os machos parecem saber muito bem quais são as fêmeas "certas", e não há sinal de hibridização ("mestiçagem") entre as diferentes espécies, ainda que várias delas costumem viver nos mesmos ambientes (como os pampas do Rio Grande do Sul e da Argentina) e se reproduzam no mesmo espaço.

    PALETA DE CORES

    Depois de analisar milhões de "letras" químicas de DNA no genoma dos caboclinhos, o grupo finalmente conseguiu flagrar algumas áreas pequenas que variam de forma considerável de espécie para espécie.

    Algumas dessas regiões do genoma não têm função conhecida por enquanto, mas grande parte delas está ligada ao sistema de produção de melanina –basicamente o pigmento ou "tinta" biológica que dá às penas suas cores. Um desses genes, por exemplo, faz com que os melanócitos, as células produtoras de pigmento, deixem de produzir eumelanina (que tem cor preta ou marrom) e comecem a fabricar feomelanina (que é amarela).

    Outro detalhe importante é que as variações achadas por eles normalmente não estão nos genes propriamente ditos (ou seja, os trechos de DNA que contêm a receita para a produção de uma proteína), mas nas regiões regulatórias desses genes.

    Trocando em miúdos, são as áreas do DNA que ajudam a definir quando e como um gene é ativado, mais ou menos como os botões de um equalizador de som regulam os graves e os agudos de uma música. Alterações aparentemente insignificantes nessas áreas regulatórias poderiam produzir mudanças significativas na aparência dos caboclinhos do sexo masculino num tempo relativamente curto.

    A questão, claro, é saber como as diferenças surgiram originalmente. É bem provável que o ancestral comum das nove espécies tenha chegado à América do Sul durante a Era do Gelo, quando o frio levou à expansão das áreas de vegetação aberta das quais elas dependem para viver.

    Uma possibilidade, segundo o pesquisador da USP, é que diferentes populações desse ancestral tenham ficado isoladas em certas regiões. Em cada lugar, as fêmeas desenvolveram predileções distintas por certo tipo de macho "bonitão" –com o padrão de plumagem que acabaria se tornando típico de cada espécie. Trata-se do processo conhecido como seleção sexual, que também foi estudado por Darwin.

    CRIANDO EM CASA

    Para conseguir acompanhar melhor os cruzamentos entre os bichos, Silveira obteve autorização do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão federal) para criar os caboclinhos em casa. "Eles se dão bem em cativeiro, e essa a maneira ideal de se fazer um estudo evolutivo de longo prazo", diz o pesquisador.

    Está nos planos dele obter amostras das penas bem no momento em que os machos ganham a coloração adulta, para ter uma ideia mais clara dos genes que estão ativos na formação da plumagem dos pássaros.

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