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    Ferreira Gullar

    Sonho no papel

    05/07/2015 02h00

    Quando digo que, na minha opinião, cada um deve fazer o que lhe parece certo, estou sendo sincero. Mas acho, também, que os demais não estão obrigados a gostar daquilo que alguém faça, e muito menos aplaudi-lo.

    Digo isto porque, com frequência, opino aqui sobre certos tipos de manifestações artísticas que não me agradam. Não obstante, se tivesse poder para proibi-las, não o faria, muito embora tenha dificuldade de entender por que alguém, dotado de talento artístico, abre mão dele para realizar coisas que não ganham a admiração das pessoas e que, com frequência, as chocam ou as fazem rir.

    Mas tudo bem. Como disse, se alguém prefere chocar a fascinar, é um direito que lhe assiste. Eu não sairia de casa para ir ver casais nus num museu ou urubus engaiolados numa Bienal, mas sairia, sem dúvida alguma, para ver os desenhos de Wilma Martins.

    Aliás, não preciso sair, porque ela acaba de editar dois livros, reunindo seleções de seus desenhos: um deles se chama "Caderno de Viagem" e o outro, "Cotidiano".

    Não resta dúvida de que desenho não está na moda, como tampouco a pintura, muito embora –conforme dizem os que atuam no mercado de arte– a pintura continue a ser o gênero mais vendido. O desenho talvez não, e menos ainda a gravura, segundo ouvi dizer.

    Isso, porém, é relativo, porque conheço gente que faz pintura de excelente qualidade e não vende quase nada. É que o mercado funciona na base da fama e do prestígio. Se há quem compre porque se encanta pelas obras que vê, há quem as compre como investimento, pensando em revendê-las no futuro por preços muito mais altos do que o que pagou.

    De qualquer forma, casal nu é que ninguém compra, mas torna famosa a autora da piada que, então, vende outras coisas. A artista brasileira mais cara, no mercado nacional e internacional, é uma pintora: Beatriz Milhazes, que só pinta.

    Apesar disso, como os pintores, os desenhistas e gravadores não gozam do mesmo prestígio de que desfrutavam algumas décadas atrás.

    Quem não se lembra da admiração e apreciação crítica altamente positiva que consagraram as obras gravadas de um Oswaldo Goeldi (1895-1961), de um Lívio Abramo (1903-1993), Marcelo Grassmann (1925-2013), Anna Letycia Quadros, Darel Valença, para só falar desses?

    Tinham suas obras amplamente divulgadas em exposições e revistas de arte.

    Esse tempo passou, mas não a importância estética e o prazer que possibilitam a gravura e o desenho, em suas distintas manifestações. Penso essas coisas ao me encantar com a qualidade poética dos desenhos de Wilma Martins.

    A arte de desenhar de Wilma consiste numa recriação dos objetos da casa ou, melhor dizendo, numa poetização das coisas domésticas, como cadeiras, mesas, gavetas, xícaras, pratos, toalhas, moedores de carne, baldes, bacias, bancos, camisas, chinelos, bidês, vasos sanitários, escovas, facas, pratos, livros, bolsas, jarros de plantas, liquidificadores, copos, panelas de pressão.

    Ela realiza uma poética do ambiente doméstico, em que pressente o mistério e nos mostra.

    Onde você vê um simples balde, ela vê –como tudo mais em volta, ou seja, a casa onde vivemos– a beleza da forma pura, da coisa sem matéria, feita de linha e o branco da folha de papel. Esse papel branco que não é mais papel, não é mais matéria e, sim, a essência do mundo.

    Sim, é um universo sem matéria que ela inventa com seu desenho, linha e luz apenas. E, ao constatá-lo, penso comigo: se o desenho acabasse, se artistas como Wilma Martins não mais existissem, não tenho dúvida nenhuma de que nossa vida seria mais pobre.

    Essa é a razão por que costumo dizer que o artista, de fato, não revela a realidade; ele a inventa, e os desenhos de Wilma são prova disso: esse mundo poético só existe neles.

    E, como se não bastasse, para nos encantar, ela faz surgir nele ramos verdes, tufos de capim, a nos lembrar que a realidade tem cores e, mais, tem também bichos, alguns menores que uma colher.

    O que aumenta a irrealidade com que Wilma transforma em sonho a banalidade (aparente) das coisas que nos cercam.

    ferreira gullar

    Escreveu até dezembro de 2016

    Cronista, crítico de arte e poeta.

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