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    Mara Gama

    Prêmio Bloomberg coroa política de Haddad para agroecologia

    02/12/2016 09h07

    Bem estruturada, a agroecologia pode alavancar novos negócios, baratear e melhorar a qualidade dos orgânicos, incentivando a alimentação mais saudável da população, gerar empregos, aumentar a renda média dos produtores e, ao mesmo tempo, proteger os mananciais de São Paulo contra a poluição e a especulação.

    Esse é o cenário imaginado pelo projeto Ligue os Pontos, que deu o prêmio Mayors Challenge 2016, da Bloomberg Philanthropies, à Prefeitura de São Paulo. O prefeito Fernando Haddad foi recebê-lo na última quarta (30) no México. Com o prêmio, o projeto recebe um aporte de US$ 5 milhões para ser colocado em prática.

    A mudança da gestão municipal não deve comprometer a implementação, segundo Ciro Biderman, economista urbano e diretor de inovação da SP Negócios. A empresa municipal, que se ocupa de cuidar de interfaces com o setor privado, desenhando parcerias público-privadas e concessões, foi responsável, na gestão Haddad, pela PPP da iluminação pública e pela Zona Azul digital, entre outros projetos.

    Secretaria de Comunicação
    O prefeito Fernando Haddad cumprimenta Michael Bloomberg, presidente da Bloomberg Philantropies
    O prefeito Fernando Haddad cumprimenta Michael Bloomberg, presidente da Bloomberg Philantropies

    O Ligue os Pontos foi desenvolvido pela SP Negócios por encomenda da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. É uma plataforma que usa a tecnologia para fazer funcionar a economia agroecológica na cidade, das fazendas para as mesas de restaurantes, residências, instituições e escolas.

    Conecta produtores, comerciantes, prestadores de serviços de entrega, limpeza e demais aspectos de logística aos consumidores. Combina o potencial econômico das zonas rurais com um novo padrão de preservação ambiental.

    O Ligue os Pontos segue uma das diretrizes da administração Haddad. Dentro do Plano Diretor Estratégico (PDE), de 2014, ficou definido que nas áreas demarcadas como territórios rurais deve haver incentivo do desenvolvimento de atividades econômicas capazes de conciliar proteção ambiental com geração de emprego e renda, reduzindo a vulnerabilidade e a exclusão socioambiental.

    De acordo com o projeto, embora 70% dos produtos consumidos no Brasil provenham da agricultura familiar, os agricultores locais nas faixas urbanas de São Paulo não conseguem comercializar seus produtos de forma sustentável.

    Pressionados pela expansão urbana, esses produtores acabam vendendo suas terras e abandonando as atividades. O processo reduz as atividades produtivas nos subúrbios e agrava os problemas ambientais que afetam o abastecimento de água de 5 milhões de pessoas.

    A plataforma pretende mudar o cenário, criando um ambiente de mercado virtual para as operações comerciais. O setor é promissor. Segundo o projeto, a procura de produtos orgânicos e agroecológicos gerou uma receita de US $ 785 milhões, em 2015, e deve crescer 25%. Além disso, o e-commerce brasileiro atinge 63 milhões de consumidores, também segundo informações projeto.

    Chamado de farm-to-table, esse tipo de comércio que encurta a distância entre produtor e consumidor tem vários exemplos de sucesso em plataformas como a Good Food Jobs e a FarmersWeb, que, além das vendas, promovem compartilhamento de equipamentos e conhecimento.

    Azeitando o negócio de cultivo de orgânicos, as faixas de terra nas bordas da cidade terão possibilidade de combinar geração de empregos, renda e proteção das áreas de reservatórios de água. A promoção do turismo ecológico também pode contribuir para a economia local, abrindo as fazendas para quem quiser colher seus alimentos diretamente nas hortas.

    "Um dos motes do projeto é o "use it or loose it" (use ou perca), que se contrapõe à ideia de que você salva os mananciais proibindo tudo. Pelo contrário. A ocupação dessas áreas com produção orgânica protege esses locais", diz Biderman.

    Como o uso de fertilizantes e pesticidas é proibido nesse tipo de cultivo, os agricultores passam a ser os zeladores da qualidade do solo e da água e da correta gestão de resíduos. "No decorrer do processo, talvez tenhamos de criar uma nova central de compostagem para atender essa nova demanda", diz Biderman.

    "Atualmente são 40 fazendas de orgânicos num total de 400 lotes, que ocupam apenas 25% da área cultivável. Então haveria um potencial de chegar a 1,6 mil produtores e ter um cinturão do tamanho de Mannhatan protegendo a cidade", prevê.

    O projeto espera aumentar a renda do agricultor de orgânico através da diminuição dos custos de logística e do aumento do potencial de venda. Com o sucesso da econômico da empreitada, haveria uma contaminação positiva e a conversão das áreas de cultivo não-orgânico.

    Do ponto de vista tecnológico, a plataforma serve de base para alimentar de dados diversos aplicativos a serem desenvolvidos para usos específicos, de acordo com as ideias de novos empreendedores privados.

    Para o consumidor final, a plataforma deve permitir agendamento de entregas e a possibilidade de ampliar escolhas nas tradicionais cestas fixas de orgânicos. Num segundo momento, a tendência é passar a vender os itens separadamente. Para os restaurantes, a entrada de mais produtores pode garantir melhor escala, fornecimento constante e melhorar a qualidade dos produtos.

    "Na fase de piloto do projeto, verificamos queda de custo, por causa da logística", diz Biderman. Segundo ele, em janeiro começam os trabalhos para levantar a plataforma. E em meados de 2017, se espera ter uma versão do aplicativo.

    O prefeito agradeceu o prêmio em nome "da população do distrito de Parelheiros, incrustada no coração da Mata Atlântica na Serra do Mar, e de toda a população de São Paulo, agradeço a oportunidade". Segundo ele, o Ligue os Pontos quer multiplicar por três a renda de famílias em situação de grande vulnerabilidade social.

    A administração de Haddad deu impulsos importantes para a agroecologia, como a regulamentação da Lei 16.140, tornando obrigatória a inclusão de alimentos orgânicos ou de base agroecológica na alimentação escolar municipal.

    mara gama

    É jornalista com especialização em design, roteirista e consultora de qualidade de texto.
    Escreve às sextas.

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