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    Marcelo Leite

    O valor da soneca

    10/08/2014 01h55

    Tem neurocientista que ambiciona explicar todos os meandros da natureza humana e faz sucesso com o que se poderia chamar de livros de autojustificativa (primos dos de autoajuda, mas com melhor pedigree científico). Outros se dedicam de fato a ajudar as pessoas, por exemplo comprovando o valor de cochilar.

    O feito é de Nathalia Lemos, Janaina Weissheimer e Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Eles publicaram em junho artigo no periódico "Frontiers of Systems Neuroscience" mostrando que meninos e meninas de 10 a 15 anos retinham melhor novos conhecimentos, após cinco dias, caso tivessem tirado uma soneca logo depois de aprendê-los.

    Se você acha o tema irrelevante, deve ter memória curta. Não se lembra de, adolescente, passar aulas inteiras sonolento e depois não fazer ideia do que disse o professor?

    Muitos adultos continuam a enfrentar o problema mesmo numa idade avançada (quando, aliás, o problema se agrava). Não é raro ser assaltado por um torpor no horário de trabalho, em geral depois do almoço. Os olhos lacrimejam, ficamos incapazes de nos concentrar, as redes sociais assumem o controle de nossas mentes. É duro resistir.

    Claro que, na adolescência, a sonolência pode alcançar níveis patológicos. É a tal de síndrome do atraso das fases do sono, tendência a ir para a cama a altas horas e acordar tarde, num estado de quase invalidez mental. Costuma desaparecer entre adultos, mas 1 a cada 6.000 deles continua prisioneiro.

    Sábios são os espanhóis, que descobriram ou inventaram há séculos a panaceia da sesta. Uma dormidinha no meio do dia ajuda a combater os piores efeitos do sono alterado, como insônia e irritabilidade, além de ser uma delícia. E, mostram agora os neurocientistas da UFRN, melhora a memória.

    Eles recrutaram 584 estudantes da sexta série de sete escolas públicas de Natal (idade média de 11,3 anos). Nathalia Lemos deu para os vários grupos uma aula sobre visão e memória. O tema foi escolhido por não fazer parte do currículo, de maneira a maximizar a chance de que se tratasse de conhecimento realmente novo para eles, evitando assim a interferência de outros momentos de aprendizado.

    Os alunos foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos, um incentivado a tirar sonecas logo após a aula num cômodo tranquilo, com uso de máscaras de dormir, e outro submetido às atividades normais da escola. Testes realizados logo após a aula e dias depois serviram para estabelecer qual parcela do conteúdo permaneceu retida na memória de mais longo prazo.

    O grupo dos dorminhocos teve desempenho estatisticamente melhor, mas os autores não conseguiram concluir muito mais que isso. A intenção era comparar sonecas de diferentes durações (50 minutos contra 2 horas), mas greves de professores –praga renitente da educação pública no Brasil– atrapalharam a realização dos experimentos.

    Não deixa de ser uma comprovação involuntária de que o ensino básico no país padece de males bem mais graves que a sonolência de seus alunos. Mas esta, ao menos, é até certo ponto fácil de enfrentar com medidas racionais, como começar as aulas mais tarde e permitir que os alunos possam cochilar em algum momento do dia.

    Debelar a catatonia pedagógica dos docentes será bem mais difícil.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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