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    Patrícia Campos Mello

    "Você tem direito a suas próprias opiniões, não a seus próprios fatos"

    27/06/2014 18h53

    "Você tem direito suas próprias opiniões, mas não tem direito a seus próprios fatos". Essa frase, do grande senador americano Daniel Patrick Moynihan (1927-2003), resume bem o estado das coisas na imprensa brasileira, principalmente na blogosfera-colunosfera.

    Na quinta-feira, durante debate do Brazil Institute no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em que participei via Skype, um dos presentes fez a seguinte pergunta: A mídia brasileira está cada vez mais polarizada e partidária, isso demonstra um amadurecimento da imprensa brasileira?

    Na minha opinião, não. Mostra, isso sim, que estamos nos aproximando do padrão EUA de polarização da mídia - e isso é péssima notícia.

    Ficamos com sites e colunistas "pregando para os convertidos", falando apenas para a audiência que concorda com eles, e distorcendo os fatos a valer.

    Um bom exemplo foi o episódio vivido pelo meu colega de baia, Vincent Bevins, que vem a ser o correspondente do Los Angeles Times no Brasil.

    Dez dias atrás, Vincent fez um comentário sobre uma coluna de Rodrigo Constantino publicada no site da Veja. "Oh Lord, Brazil columnist arguing the red '2014' in the World Cup logo is obvious socialist propaganda" (Oh meu Deus, colunista brasileiro argumentando que o 2014 vermelho no logo da Copa é uma obvia propaganda socialista).

    Em sua coluna, Constantino perguntava: " é paranoia ficar encasquetado com esse 2014 em vermelho? Um leitor vai além, e diz que logo abaixo do número temos claramente a letra L em amarelo, referência ao ex-presidente Lula. Pode ser. Mas se isso já é passível de dúvida, o 2014 em vermelho não é.". Dizia que provavelmente o vermelho era propaganda subliminar. Depois, dizia também que não "seria grande surpresa se houvesse alguma pressão para que a agência de publicidade escolhida usasse o vermelho, a cor que o partido gosta de espalhar por todo canto, no logo oficial da Copa. Não custa lembrar que o comunista Oscar Niemeyer participou da escolha, aumentando as suspeitas. Essa turma tem tara pelo vermelho de sangue, fazer o quê?"

    Diante da ironia de Vincent no Twitter, os blogs de esquerda começaram a dizer que a "mídia internacional" estava tirando sarro da Veja.

    Ao que Constantino respondeu: "É hilário o complexo de vira-latas dos petistas. Um desses "jornalistas" pagos pelo PT espalhou que a Veja (notem que eu viro a revista automaticamente) foi ridicularizada "até no exterior". Tudo porque um obscuro jornalista de quem ninguém aqui já ouviu falar, de um jornal de Los Angeles, postou em seu twitter mensagem de que considerava absurda a "teoria conspiratória" do vermelho no logo da Copa (ok, ele não conhece direito o PT, está perdoado)".

    Notem o "um" jornal de Los Angeles.

    Nos Estados Unidos, é comum selecionar de onde você quer tirar suas notícias. Dependendo do site, colunista ou blogueiro, você vai ler que Obama nasceu no Quênia, é muçulmano é comunista e também nazista.

    Do outro lado, que é um pouco menos raivoso, há que se dizer, o leitor vai se esquecer de que existe uma América Profunda onde não se admite casamento gay, aborto e outros temas caros aos liberais.

    "No Brasil, temos visto o crescimento de um discurso que não leva a um debate significativo, porque, em vez de se concentrar nos problemas reais com o governo, prefere exclamar histericamente que tudo é, ao mesmo tempo, comunista, nazista e anarquista; na melhor das hipóteses, isso é pouco construtivo; na pior, é perigoso", diz Vincent, que escreve sobre o Brasil desde 2010 para o Los Angeles Times e Financial Times.

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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