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    Patrícia Campos Mello

    Por que estou aqui

    21/08/2014 08h40

    "Por que tinha remédio para os dois americanos, mas não tem para gente, africanos?"

    Foi esta pergunta de Mamadu Bah, que trabalha em um hotel aqui em Freetown, que eu não soube responder.

    E é por isso que estou aqui.

    Serra Leoa é a terra que o mundo esqueceu. As pessoas são pobres, negras, passaram por anos de guerra civil, mas ninguém está nem aí.

    Agora, para completar, há o inimigo invisível: o ebola.

    Todo mundo aqui está em pânico. Ninguém sabe bem como pega, como se prevenir.

    E, principalmente, eles perguntam: por que nunca fizeram um remédio ou vacina para esta doença? Afinal, a primeira epidemia de ebola foi em 1976, no que era então o Zaire.

    O ebola faz parte das chamadas "doenças negligenciadas" –que atingem só gente pobre, então não interessam para as indústrias farmacêuticas. Se elas podem lucrar com Viagra e remédio de colesterol, por que iriam investir em pesquisa para malária e ebola?

    Com a atual epidemia de ebola, os dilemas éticos ficaram flagrantes.

    A Zmapp, empresa americana, está testando uma droga contra ebola. Resolveu administrá-la ao médico Kent Brantly e à missionária Nancy Writebol, americanos que se infectaram na Libéria. Um missionário espanhol também teve acesso à droga, mas não sobreviveu.

    Não usaram no médico Umar Khan, herói nacional de Serra Leoa, que tratou 100 doentes de ebola antes de morrer infectado. Nem em outros africanos.

    Agora, foi dada a dois médicos liberianos e um nigeriano, depois de insistentes pedidos.

    Especialistas apontam para o risco de se usar uma droga que não foi testada e pode ter muitos efeitos colaterais ou até causar a morte.

    "E se usamos uma droga dessa nos africanos e o remédio mata, vão dizer os americanos testaram drogas nos africanos", diz um especialista.

    Por outro lado, se usam só nos americanos, vão negar a muitos africanos sua única possibilidade de sobrevivência?

    Uma outra empresa, a canadense Tekmira, também desenvolve uma droga contra ebola.

    Mas, de qualquer maneira, ainda não há doses suficientes para todo mundo.

    O fato é que, muito provavelmente, não haverá uma droga ou vacina eficiente no mercado antes do fim desta epidemia.

    E esses países africanos têm que continuar lutando para quebrar a cadeia de transmissão –evitar que doentes continuem infectando suas famílias, que os escondem em casa por medo de hospitais; impedir que médicos e enfermeiras, sem a proteção necessária, se infectem ao tratar os doentes.

    Para isso, é preciso de gente treinada, para ir atrás de todas as pessoas que tiveram contato com um doente de ebola, e dinheiro, para comprar equipamentos.

    Só para se ter uma ideia, em Kailahun, distrito de Serra Leoa mais afetado pelo ebola, há 4 ambulâncias para atender 480 mil pessoas.

    Por isso, cada vez que alguém adoece com ebola num vilarejo, há grandes chances de a família trazer o doente em transporte público até o hospital, infectando ainda mais gente.

    Se os jornalistas não estiverem aqui para noticiar o que está acontecendo, aí mesmo é que vão se esquecer deste povo.

    E, neste momento, eles precisam de toda a atenção, a ajuda e as doações possíveis.

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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