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    Patrícia Campos Mello

    União Européia e Estados Unidos são reféns de Erdogan na Turquia

    29/07/2016 02h00

    A União Europeia não é a única refém do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que ameaçou inundar países europeus com "caminhões de refugiados".

    Os Estados Unidos também são alvo de chantagem do autocrata turco.

    Vários jornais turcos (os que restaram, todos governistas ou autocensurados) culpam diretamente os Estados Unidos pela tentativa de golpe do dia 15 de julho.
    Erdogan acusa o clérigo Fethullah Gulen de ter instigado o golpe. Gulen está no autoexílio na Pensilvânia, nos EUA, desde 1999.

    Os EUA vêm se recusando a extraditá-lo, a despeito de vários e insistentes pedidos de Erdogan. Autoridades americanas afirmam que só irão extraditar o clérigo se receberem provas claras de seu envolvimento no golpe fracassado.

    Mas essa resistência pode não durar muito tempo

    As críticas e acusações dos erdoganistas contra Washington estão cada vez mais ásperas.

    O YaniSafak, jornal que apoia Erdogan, publicou nesta semana que o general americano reformado John F Campbell, ex-comandante das forças da OTAN no Afeganistão, foi o arquiteto da tentativa de golpe contra Erdogan. O jornal afirmou também que os golpistas iriam autorizar que os EUA construíssem uma base militar na Turquia, junto à fronteira com a Síria. E disse que o clérigo Gulen trabalha para a CIA.

    "Os EUA sabem que Fethullah Gulen é o autor do golpe. Obama sabe disso, da mesma maneira que sabe que seu nome é Obama. Estou convencido de que os serviços de inteligência dos EUA sabem disso também", disse o ministro da Justiça turco, Bekir Bozdag, em entrevista a uma TV turca.

    Nos expurgos pós-golpe, parte da desgulenização do país, foram afastados também oficiais que lidavam diretamente com os Estados unidos e alguns deles foram presos.,

    Os EUA e a Turquia, ambos membros da OTAN, têm cooperação militar estreita. Os EUA usam a base turca de Incirlik para ataques contra o EI na Síria e no Iraque e também mantêm um posto da CIA no país.

    Mas o relacionamento entre os dois países vinha azedando. Washington criticou publicamente o crescente autoritarismo de Erdogan e suas investidas contra jornalistas e ativistas curdos.
    Os EUA e a UE sabiam da ambiguidade do governo turco em relação ao EI e a grupos extremistas como a Frente Al Nusra - e a maneira pela qual deixava jihadistas cruzarem a fronteira turca em direção à Síria.

    Já Erdogan estava furibundo com os EUA por causa do apoio dos americanos aos curdos do norte da Síria, que lutam contra o EI e são aliados do PKK na Turquia, considerado terrorista pelo governo turco. Os EUA dão ajuda militar aos curdos sírios e estariam construindo bases no território deles.

    O presidente Erdogan, mestre em cálculos políticos ardilosos, já vinha preparando seu pivô para a Rússia. O governo turco pediu desculpas a Putin no mês passado - o país estava rompido com a Rússia desde que derrubou um jato russo em 24 de novembro do ano passado. O rompimento afetou duramente a Turquia - a Rússia era sua maior fonte de turistas e importante parceiro comercial.

    Agora, anunciou uma visita à Rússia em 9 de agosto. E acena com a base de Incirlik.

    A Rússia, por sua vez, condenou veementemente a tentativa de golpe, muito antes de UE e EUA se manifestarem.

    Para Moscou, a base seria uma importante presença para o Oriente Médio. Hoje em dia, a Rússia tem apenas a base de Tartus, na Síria.

    Da mesma maneira que a UE vem fazendo apenas críticas brandas contra a escalada de autoritarismo na Turquia, por ser refém de Erdogan por causa de refugiados, Washington pode acabar entregando o clérigo Gulen e fechando os olhos para as crescentes violações de direitos humanos no país, tudo para manter sua base estratégica na guerra contra o EI.

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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