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    Patrícia Campos Mello

    A vitória da pós-verdade

    17/11/2016 15h12

    "Todos têm direito a suas próprias opiniões. Ninguém tem direito a seus próprios fatos".

    A frase, atribuída ao grande senador americano Daniel Patrick Moynihan (1927-2003), nunca foi tão verdadeira.

    "Pós-verdade" foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford. Segundo o dicionário, a palavra refere-se a "circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais". Na definição da revista Economist, "apoiar-se em afirmações que parecem verdadeiras mas não estão baseadas em fatos."

    Os lexicógrafos do Oxford escolhem a palavra do ano como forma de refletir "o ethos, o estado de espírito e as preocupações" de um determinado ano.

    Portanto, é bastante apropriado entronar o "pós-verdade" no ano em que o Brexit e a eleição de Donald Trump provaram que a verdade deixou de ser relevante para muita gente.

    A campanha do Brexit martelou o exagero que ser "sócio" da união Europeia custa ao Reino Unido US$ 468 milhões por semana e mentiu que a entrada iminente da Turquia traria hordas de imigrantes ao bloco. Acabou ganhando no referendo.

    Trump certamente será eternizado como o político mais mentiroso da História (e olha que a concorrência é grande, hein, Eduardo Cunha "dinheiro do truste não é meu dinheiro"). Acabou eleito presidente.

    Só uma pequenas amostra de inverdades trumpianas, que são repetidas ad nauseam:

    - muçulmanos comemoraram em New Jersey depois do ataque de 11 de setembro. (Nunca aconteceu)

    - o presidente Obama nasceu no Quênia. (Mentira)

    - desemprego entre os jovens negros nos EUA é de 58%. (não chega a 28%)

    O ano de 2016 provou que mentira tem perna curta, mas isso não tem a menor importância.

    Qualquer falsidade pode ser imediatamente desmentida com ajuda de vídeos no YouTube, gravações (sim, Trump apoiou a invasão do Iraque em entrevista ao Howard Stern) e os checadores (aplausos para Politifact, Washington Post, NYTimes, Agência Lupa, Aos Fatos).

    Depois de tanto mentir, Trump ganhou o troféu Pinoquio e "calças em fogo" do Washington Post e do Politifact.

    E qual foi a reação das pessoas? Para os 60 milhões de americanos que votaram nele, não fez diferença.

    Duas semanas antes da eleição americana, estive em Youngstown, Ohio, cidade-símbolo da decadência industrial do chamado Cinturão da Ferrugem, que votou maciçamente em Trump. Sentei em um boteco chamado Golden Dawn, onde vários homens brancos de classe média baixa, alguns com uniformes e mãos cheios de graxa, todos com empregos mal-pagos, tomavam uma cerveja. Indaguei a um deles, Mark, se ele não achava um absurdo Trump ter dito que iria agarrar uma mulher pelos genitais e ter mentido que o presidente Obama tinha nascido no Quênia. A resposta: "Ninguém morreu por causa disso, né? Ele tem uma boca grande, mas pelo menos vai enfrentar os caras lá em Washington."

    Ou seja, ele não é mentiroso e nem desrespeita as mulheres.

    Na era da "pós-verdade", Trump é franco, fala grosso, tem coragem de se insurgir contra o politicamente correto das elites.

    A mídia tem uma grande parcela de culpa pelo surgimento dessa era.

    Primeiro, pela falsa equivalência.

    A mídia tradicional se pauta pela obrigação de sempre ouvir os dois lados e (tentar) ser equilibrado. Mas às vezes, incorre no que se convencionou chamar de falsa equivalência.

    Como exemplifica o programa On the Media:

    · O presidente Obama afirma que nasceu nos Estados Unidos e, portanto, pode ser presidente do país; seus críticos discordam.

    · Isso é falsa equivalência. O certo seria dizer: "Barack Obama nasceu no Havaí em 1961; o movimento "birther" nega este fato."

    Segundo, a fragmentação da mídia possibilita que notícias falsas ou declarações mentirosas dos candidatos se alastrem. Segundo pesquisa do Pew, 62% dos americanos se informam pelas redes sociais hoje, sendo 44% pelo Facebook (não deve ser muito diferente com os brasileiros).

    Entre as reputadas fontes de informação dos eleitores americanos estão sites altamente partidários e/ou caça níquéis (que o digam os jovens espertos da Macedônia que ganharam um bom dinheiro postando notícias falsas e ganhando cliques de americanos, que "valem mais").

    Segundo levantamento do Buzzfeed, notícias falsas geraram mais engajamento (compartilhamentos, likes) do que as verdadeiras nesta eleição. Por exemplo, a "notícia" de que o papa Francisco apoiava Trump foi compartilhada quase 1 milhão de vezes.

    Algoritmos do Facebook colocam na sua linha do tempo apenas conteúdos similares àqueles que você "curtiu" anteriormente. O resultado é que não há espaço para o contraditório, as pessoas que se informam pelas redes sociais vivem em uma "câmara de eco" - só ouvem o que querem, basicamente.

    (E por isso se ouve a pergunta: como o Trump foi eleito, se nenhum dos meus amigos votou nele?)

    Em sua primeira semana como presidente-eleito, Trump demonstrou que vai continuar investindo na política da pós-verdade.

    Ele declarou pelo Twitter que a "cobertura enviesada" levou o New York Times a perdeu milhares de assinaturas na eleição. O jornal ganhou milhares. E o presidente-eleito disse em entrevista na TV que há entre 2 e 3 milhões de imigrantes ilegais que cometeram crimes (são 820 mil).

    Ou seja, nada indica que vá mudar.

    *

    Uma "finalistas" ao título de palavra do ano foi "alt-right"- "um grupo ideológico associado a visões extremamente conservadoras ou reacionárias, caracterizadas pela rejeição aos políticos tradicionais e pelo uso de mídias digitais para disseminar conteúdo polêmico". Coisa de sites como o Breitbart News, que veiculou "notícias" sobre os rituais de magia negra de Hillary. O site era capitaneado por Stephen Bannon, que assumiu em agosto como coordenador da campanha de Trump.

    Evan Vucci/Associated Press
    Bannon (à dir.), nomeado estrategista-chefe do governo do presidente eleito, deixa a Trump Tower
    Bannon (à dir.), nomeado estrategista-chefe do governo do presidente eleito, deixa a Trump Tower

    Trump anunciou que Bannon será o principal estrategista da Casa Branca em seu governo.

    Resta torcer para que "alt-right" não seja a palavra do ano em 2017.

    Mandel Ngan/AFP
    O presidente eleito Donal Trump fala no dia seguinte à sua vitória eleitoral
    O presidente eleito Donal Trump fala no dia seguinte à sua vitória eleitoral
    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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