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    Patrícia Campos Mello

    Direita volta a protestar contra a imigração

    12/05/2017 02h00

    O movimento Direita São Paulo promove na terça-feira (16) mais uma manifestação contra a nova Lei de Migração. O objetivo é pressionar o presidente Michel Temer para que ele não sancione a lei, de autoria do hoje chanceler Aloysio Nunes.

    "Diante das ameaças à Soberania Nacional com o Congresso Nacional legislando contra o povo brasileiro, criando leis que abrem as portas da Nação ao terrorismo, a Direita São Paulo vai às ruas novamente em defesa da nossa Soberania", é a convocação no Facebook para o evento.

    Direita São Paulo/Facebook
    Foto da página do Direita São Paulo em uma rede social mostra o protesto de 2 de maio
    Foto da página do Direita São Paulo em uma rede social mostra o protesto de 2 de maio

    "Tendo em vista que a nova Lei de Migração tira alguns dos poderes de controle de entrada de estrangeiros no Brasil da Polícia Federal e o entrega às ONGs internacionais e globalistas, tendo em vista que esta lei pode trazer ao Brasil grupos terroristas a exemplo das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] e do Estado Islâmico."

    E continuam "Você já viu o que está acontecendo hoje na Europa? Londres, Paris, Munique... Mulheres são estupradas pelos ditos "refugiados", as ruas estão uma Meca a céu aberto, quantos atentados terroristas sofreu a França? Quantas vidas perdidas? Confusão, confrontos, caos... Não queremos isso para o BRASIL!
    DIGA NÃO À LEI DE (i)MIGRAÇÃO"

    Na última manifestação anti-imigração, em 2 de maio, houve confusão. A Polìcia Militar deteve dois palestinos acusados de jogar um "artefato explosivo" nos manifestantes. Os advogados de defesa dos dois negam.

    Em seu site, os organizadores do protesto publicaram um vídeo de um homem soltando uma bomba, ao lado do título "URGENTE: TERRORISTAS ÁRABES ATACARAM A DIREITA SÃO PAULO DURANTE NOSSO ATO CONTRA A LEI DA IMIGRAÇÃO!"

    Conversei com o empresário Edson Salomão, 39, presidente do movimento Direita São Paulo. Segundo ele, a nova lei "tira poderes da PF de fiscalizar a entrada de estrangeiros e abre as portas para pessoas de má índole."

    Do ponto de vista da PF, de fato há perda de poder, porque a lei proíbe a pronta deportação de migrantes detidos nas fronteiras pelos policiais. Eles passam a ter direito a um defensor público.

    Pergunto a ele por que está tão preocupado com o "terrorismo islâmico" no Brasil, uma vez que nunca houve "terrorismo islâmico" no Brasil.

    "Ah, mas não quer dizer que não vá ter um dia. Na Europa era assim, no início entrou um monte de gente e aí acabaram tendo todos aqueles ataques terroristas."

    Salomão diz que não se opõe à imigração ou aos refugiados, apenas à entrada indiscriminada de imigrantes possibilitadas pela nova lei. "Somos todos descendentes de imigrantes, mas antes era diferente." (Como bem ironizou meu colega de mesa, Daniel Avelar: imigrante é quando a pessoa é mais pobre e mais escura que você; se for mais rico e mais branco, é estrangeiro).

    O líder do Direita São Paulo cita os "400 índios em Manaus, que levaram a cidade a uma situação de calamidade pública." "Quando entra um grande contingente de pessoas, isso prejudica a estrutura social, o emprego e a moradia."

    Grande contingente? Segundo dados de fevereiro do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), existem 8.950 refugiados no Brasil —2480 são sírios, 1501 angolanos e 1.150 da República Democrática do Congo.

    No Brasil, há apenas 0,04 refugiados por mil habitantes (dados do Acnur de 2015).

    No Líbano, há 200 refugiados a cada 1 mil habitantes —está bem ao lado da Síria, onde uma guerra civil já causou êxodo de 4,8 milhões de pessoas para outros países.

    Mas nem é preciso ir longe —a Argentina acolhe duas vezes mais refugiados que o Brasil, e a Costa Rica, um país minúsculo, absorve 18 vezes mais refugiados por mil habitantes do que nós.

    Além dos refugiados, temos a entrada dos haitianos, que vinham com visto humanitário e são cerca de 70 mil no país, e dos venezuelanos, que também ganharam direito ao visto humanitário e são cerca de 20 mil.

    Mesmo assim, para uma população de cerca de 209 milhões em 2017, não é exatamente uma calamidade pública.

    O Direita São Paulo apoia a candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) à presidência e não se limita à bandeira anti-imigração.

    "Não estamos falando da falsa Direita como MBL ou PSDB, mas da Direita Conservadora e Reacionária que luta pela causa da família, dos valores, das forças armadas, pela fé e pelo patriotismo", diz o grupo no Facebook.

    No Facebook, deixam claro quem são os inimigos. Ao lado de uma foto do financista George Soros, lê-se: "este homem é o responsável pelo financiamento da morte de milhões de jovens pelas drogas e pela forte campanha contra a vida de policiais militares."

    Une-se muito o nome de Soros ao adjetivo "globalista", também usado de forma pejorativa pela direita populista nos Estados Unidos e na França. É o uso do que os americanos chama de "dog whistle" —é uma forma velada de apelar ao eleitor antissemita.

    Tudo isso poderia ser folclórico e esses grupos, uma franja radical do eleitorado.

    Mas o Datafolha mostrou que Bolsonaro lidera entre os eleitores com ensino superior, com 21% de intenções de voto, e também entre aqueles com renda mensal superior a 10 salários mínimos, com 28%.

    Nos Estados Unidos, Donald Trump era tratado como piada, e acabou presidente do país.

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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