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    Rede Social - Eliane Trindade

    Mila Moreira, 70, miss, modelo e atriz: cinco décadas na sala VIP do planeta

    17/05/2016 02h00

    E assim se passaram 70 anos para Mila Moreira.

    As formas longilíneas e o porte elegante fazem dela quase um protótipo de top model, antes mesmo de ter sido criado o termo que designaria as ricas e famosas modelos da atualidade.

    Nascida em um 18 de maio, a taurina transita há mais de cinco décadas pela sala VIP do planeta alternando os "crachás" de manequim, modelo e atriz.

    Há exatos 56 anos, Mila protagonizava um conto de fadas para várias gerações de moças bonitas: ser descoberta em concurso de beleza e carimbar o passaporte para a fama e o glamour, com direito a paixões e decepções.

    Aos 14, a paulistana que vivia ao lado da Estação da Luz vencia o concurso Miss Luzes da Cidade, em São Paulo, se fazendo passar por maior de 16 anos.

    Ali se iluminava o farol que a faria ganhar o mundo, como uma das belas contratadas da Rhodia, que na década de 1960 fazia furor com seus shows/desfiles.

    Mila era uma das estrelas dos eventos de moda feitos sob medida para promover os fios sintéticos que a Rhodia fabricava, matéria-prima de uma incipiente alta-costura brasileira.

    "Era o máximo dos máximos. Costumo dizer que a Rhodia era a Rede Globo da época", compara a atriz, fazendo um paralelo entre os dois empregadores que definiram sua trajetória profissional.

    Com bom humor, Mila relata a seguir, em primeira pessoa, os desafios das duas carreiras que abraçou ao acaso.

    Fala sobre a pressão de ter virado arrimo de família aos 18 anos, quando o pai morreu, e também de suas crises de síndrome do pânico e o envelhecer sob os holofotes.

    É discreta, no entanto, quanto aos amores, alguns deles secretos. Tantos notórios, como o casamento com o ator Luis Gastavo, o namoro com o compositor Ronaldo Bôscoli (1928-1994) e a relação com o ator Gracindo Júnior.

    É o resumo de uma rica trajetória, de sucessos e fracassos, sempre sobre um salto agulha.

    DEBUTE

    "Eu comecei a trabalhar muito menina, com 14 anos. Era grandona, tinha 1m72. Morávamos ao lado da Estação da Luz, onde meu pai tinha um hotelzinho, no centro de São Paulo.

    Nessa época, eu frequentava a AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil) ali perto, graças a uma vizinha cujo pai trabalhava no banco.

    ‪Por isso, me chamaram para representar a categoria dos bancários no Miss Luzes da Cidade, concurso feito pelo jornal 'Última Hora', do Samuel Wainer.

    No júri tinha figuras famosas como o estilista Dener [1937-1998]. Ganhei o concurso. O prêmio era uma viagem para Nova York.

    Pouco depois, estava na rua com a minha mãe e um fotógrafo me pergunta se eu não queria fotografar. Fiz um teste e as fotos já viraram a campanha da UD, bem famosa na época.

    De lá, fui participar da Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil). Comecei a ganhar dinheiro e virei profissional na hora. Fiz um monte de anúncio, até que fui chamada para um teste na Rhodia. Achei que era trote.

    O fotógrafo era ninguém menos que Otto Stupakov. As campanhas e os desfiles eram coordenados por Livio Rangan [italiano responsável pelas campanhas e destiles da Rhodia].

    De cara, eu fui com eles para uma viagem para Líbano, Portugal, França. Não acreditava. Presta atenção: da Estação da Luz para o mundo, literalmente.

    GLAMOUR

    Viajávamos de primeira classe, ficávamos em hotel cinco estrelas. Era uma vida glamorosa, viajei o mundo inteiro. Não havia namorado que aturasse.

    Das minhas colegas que eram modelos da Rhodia naquela época, uma casou com um conde e uma outra, Lucia, com Walter Moreira Salles [banqueiro].

    Livio era um cara pé no chão. Não deixava ninguém pirar. Era um italiano apaixonado pelo Brasil e eu me apaixonei por ele. Foi meu primeiro homem, quem me ensinou tudo sobre arte, música clássica, gosto pela pintura.

    Durou pouco tempo. Ele era casado. Foi uma decepção, mas morreu meu amigo.

    Meu segundo namorado foi o meu primeiro grande amor. Tínhamos a mesma idade, ele era de família rica e me fez conhecer um lado mais sofisticado da vida.

    ARRIMO DE FAMÍLIA

    Eu ganhava um bom dinheiro para a época, mas nada do que se ganha hoje, quando as modelos ficam milionárias. Virei arrimo de família, pois meu pai faleceu quando eu tinha 18 anos.

    Graças a Deus, eu tinha esse emprego. Minha irmã mais nova estava na escola. Virei o homem da casa. Eu queria dar tudo para minha família, não pensei em mim.

    Deveria ter guardado mais dinheiro. Não tive um tio, um padrinho que dissesse: 'Menina, guarda, amanhã não vai ter'.

    Eu não ganhava uma fortuna, só o suficiente para dar uma vida tranquila para minha mãe e minha irmã. Quando se é jovem, você acha que sempre vai ter [dinheiro].

    Poderia ter brigado mais por certas coisas, ter me imposto mais no trabalho. Teve horas que não soube cobrar, me achava sempre inferior. Aquela coisa: 'Você tem sorte, você não tem talento'. Mas ninguém dura tanto tempo se não tiver qualidades.

    RUMO À TV

    Fiquei 11 anos na Rhodia. Aos 27 anos, eu era velha para a profissão. Foi quando abri com uma amiga e o Luiz Tripolli [fotógrafo] a primeira agência de modelos do Brasil. Ninguém nos levou a sério. Fui parar no analista [risos].

    Estava perdida e resolvi passar um ano em Nova York. Quando voltei, liguei desesperada para o Cassiano [Gabus Mendes, dramaturgo], que era cunhado do Luis Gustavo, [ator, famoso na TV na época no papel de Beto Rockfeller], com quem eu fui casada.

    Cassiano me ajudou a arranjar um emprego de figurinista na Bandeirantes. Eu fazia também produção, era pau para toda obra.

    Um dia faltou um jurado no programa do Chacrinha e lá fui eu substituí-lo. Cassiano assistiu e me ligou: 'Você é fotogênica e desembaraçada. Vou te botar numa novela'.

    Fui fazer um teste na Globo, tremia do fio de cabelo ate o dedão do pé, mas saí contratada para a novela 'Marrom Glacê'.

    GLOBAL

    Estou na Globo desde 1979, alternando tempos com e sem contrato. Agora, sou contratada por obra fechada. Descobri um profissão que era para a vida. Pode ser avó, tataravó, morta [risos].

    Vou fazer a próxima novela das 21h, da Maria Adelaide Amaral, que vai ao ar em outubro.

    Quando virei atriz, todo mundo criticava. Houve muito preconceito dos colegas. Achavam que eu era caso do Cassiano.

    Mas isso aí esquece, acontece em tudo que é lugar. Como eu era novidade, tinha reportagem todo dia.

    Duas pessoas foram muito generosas comigo. Tenho na memória Fernanda Montenegro, ainda na Bandeirantes, que um dia atravessou a rua para me dizer parabéns, e Sônia Braga, já na Globo, que fez questão de me cumprimentar e dizer que eu era linda.

    CRÍTICA DE MÃE

    Eu não me acho bonita. A vida me fez ficar uma pessoa interessante. Minha mãe sempre me botou pra baixo. Não era a clássica mãe de miss. Ela ia aos desfiles e acabava comigo.

    Era tão crítica que, na estreia de 'Marrom Glacê', ela falou: 'Filha, tá na hora de você fazer uma plástica'. Eu tinha 30 anos, linda, capa de todas as revistas...

    Não resolvi bem até hoje minha autoestima. Por isso, não quis ser mãe. Você é o que a tua família faz de você. Mesmo quando sai fora.

    SEM ARREPENDIMENTO

    Não trocaria minha vida por nada. Se tivesse a sabedoria de hoje lá atrás, eu teria aproveitado melhor algumas coisas.

    Já fiquei mal. Tive síndrome do pânico. Era muito peso nas minhas costas, explicavam os psiquiatras. No fundo é muito ligado à estabilidade econômica.

    Cheguei a pesar 48 kg. É aquela sensação de morte, é o corpo dizendo que você não vai aguentar. Isso dá um desespero.

    Estou medicada há 30 anos. Não posso parar. Aprendi a lidar com ansiedade, a cuidar para que as coisas que me davam medo, não deem mais.

    PLÁSTICA NA MEDIDA

    Eu não tenho problema em envelhecer. Não dá para esconder idade, tenho uma vida pública. É só olhar as revistas.

    Outro dia, alguém me disse: 'Você parece jovem'. É o jeito como me visto e me coloco perante a vida.

    Fiz uma plástica no olho, com um gênio que faz todas as lindas. Minha mãe nem percebeu que eu tinha feito. Não preciso dizer mais nada. Deu aquela levantada.

    Mas eu não acredito em esticar. Acho horrível quando vejo minhas amigas 'botocadas', ainda mais atrizes, que não podem perder a expressão. Não dá.

    Gosto daquelas mulheres francesas acabadinhas. Acho bonito ver a Vera Holtz, a Cássia Kis tão naturais.

    Nunca mais fiz nada, meu rosto é cheio de rugas. Mas coloquei silicone nos seios. Eu tinha um ovo frito. Mas escolhi a menor prótese que existe. Pus peito já velha.

    BIOGRAFIA

    Tenho muita história para contar, os casos engraçados e os picantes. Só que teria que dar nomes aos bois. E eles são conhecidos [risos]. A vaca sabem quem é, mas os bois... Eles não vão gostar.

    Não se pode falar publicamente [dos casos] sem que o outro concorde sobre revelar o que acontece entre um casal. Não tem graça contar sem dar nomes.

    Sou uma soma de tudo isso. Tive grandes paixões. No auge da Bossa Nova, namorei com Ronaldo Bôscoli, logo depois de me separar do Lívio. Com o Gracindo Júnior, durante a novela, foi uma loucura.

    Tive também muitas oportunidades na vida. Tenho amigos no mundo inteiro. Prezo amizade mais do que família.

    Eu tenho alegria de viver, é isso que me faz jovem. Desfruto da vida. A minha sempre foi super rica e alegre. Foi, é e será. Gosto de estar viva.

    rede social

    por Eliane Trindade

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    É editora do Prêmio Empreendedor Social. Aqui, mostra personagens e fatos dos dois extremos da pirâmide social. Escreve às terças, a cada duas semanas.

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