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    Vinicius Torres Freire

    Povo não vê melhora em economia que ainda tem focos de depressão

    07/12/2017 02h00

    Uma crise econômica ruim, mas normal, pode acabar como no caso de quem se cura de infecção, com antibióticos e repouso, e sai para a vida. O fim da grande recessão parece mais a história de alguém que foi atropelado por um caminhão, teve fraturas múltiplas, pegou tétano, infecção hospitalar e tomou uns remédios fracos.

    Vamos saindo muito capengas desse desastre, em uma recuperação rastejante, desigual e pouco disseminada pelos setores produtivos. Alguns dos números deste fim de ano explicam ainda o persistente pessimismo econômico do eleitor, registrado pelo Datafolha, e a confiança do consumidor, que não acompanha a das empresas.

    No termômetro sociopolítico, a economia está mais fria que na medida do PIB.

    Sobre a recuperação torta, tome-se o caso da indústria. Nesta semana, se soube pelo IBGE que a indústria de veículos cresceu 20% neste 2017. A indústria de alimentos, porém, não cresceu. As fábricas em geral, "indústria de transformação", produziram apenas 1,4% mais.

    O grosso do aumento da produção industrial vem de montadoras, de petróleo e ferro e pouco mais de produtos eletrônicos. Dados da Anfavea mostram que a produção de veículos cresceu 28% no ano. Quase metade desse aumento foi vendida lá fora, exportada.

    Muito melhor assim, claro, mas se percebe o desequilíbrio. O crescimento da produção não é disseminado, o investimento, menos ainda, com a construção civil tendo apenas chegado ao fundo do poço da depressão, na melhor das hipóteses.

    Em suma, dependemos do sucesso de agricultura, extração mineral e carros. Sim, todas as viradas econômicas têm suas manhas, variam de acordo com contextos, com a situação do resto do mundo ou com acasos. Mas desta vez brincamos demais com a sorte.

    Além de lerda quase parando, a recuperação é amarga para o povo miúdo. Pela pesquisa de comércio de IBGE, sabe-se que as vendas de híper e supermercados ainda caíam na soma dos 12 meses até setembro, embora tenha havido melhoria marginal mais rápida desde meados do ano.

    Os empregos que começam a voltar são ruins, precários e pagam mal, na média, embora o total de salários venha crescendo em ritmo mais animador. Mas o povo não vive de agregados econômicos melhorzinhos, que não bastarão para mudar a vida do dia a dia até meados de 2018.

    Além do mais, aparecem notícias assustadoras de demissões maciças em escolas e hospitais motivadas pelas oportunidades de barateamento da mão de obra oferecidas pela reforma trabalhista; de pioras na renda ou nas horas trabalhadas; de mais dureza na vida de comerciários.

    São casos, "evidências anedóticas". Não há como saber ainda do ritmo e jeitão da mudança. Se a coisa pegar, pode ter impacto político relevante. Economistas dirão que haverá rearranjos. No atacado e no médio prazo, a reforma tornaria a economia mais eficiente e capaz de crescer mais rápido. Em tese, seria assim. Mas, ao menos no curto prazo, um ano, por aí, pode pegar mal para quem está empregado e resolver pouco para quem talvez consiga apenas um bico formalizado na nova CLT.

    Em resumo, a política da recuperação econômica vai muito além da medida do PIB. A coisa ainda está enrolada.

    vinicius torres freire

    Está na Folha desde 1991.
    Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de quarta a sexta e aos domingos.

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